Bayan Mariman/The New York Times
Bayan Mariman/The New York Times

Caçadores de trufas são mais novo alvo do EI

Militantes do grupo terrorista estão sequestrando e matando iraquianos que se aventuram na busca pela iguaria

Alissa J. Rubin, The New York Times

13 de abril de 2019 | 06h00

BAGHDADI, IRAQUE - À procura de uma delícia sazonal, Mohaned Salah Yasseen vasculhava lugares onde o solo está rachado e ligeiramente levantado - o sinal de que ali em baixo há uma trufa do deserto. Por isso, não percebeu duas picapes, dirigidas por homens em uniformes militares, até que elas estavam praticamente em cima dele.

"Eles ordenaram que eu subisse na picape", contou Yasseen, um farmacêutico de 33 anos, a vítima mais recente de uma nova campanha do EI.

Expulso do território que controlara no Iraque e na Síria, o grupo entrou na clandestinidade, e seus combatentes que restaram no Iraque têm a função de realizar ataques esporádicos.

Desde o final de janeiro, eles sequestraram e, em alguns casos, executaram caçadores de trufas, em geral nos desertos da província ocidental de Anbar. As forças de segurança iraquianas confirmaram o sequestro de 44 caçadores de trufas somente este ano.

E estes constituem apenas uma fração dos ataques do EI que agora ocorrem no Iraque, onde diariamente surgem relatos de disparos em postos de controle, escaramuças ou sequestros. Mas tais atos indicam uma nova ênfase na incitação de tensões sectárias.

Os caçadores de trufas muçulmanos sunitas costumam pagar resgate para serem postos em liberdade, como Yasseen, mas os caçadores muçulmanos xiitas nunca têm esta chance. Eles são mortos.

O EI considera os xiitas infiéis, e desde o começo o grupo os mata e destrói suas mesquitas. A inteligência iraquiana e as autoridades militares veem o tratamento do grupo aos reféns como uma tentativa de incitar à luta sectária que dilacerou o Iraque de 2003 a 2008, depois da queda de Saddam Hussein, e se repetiu de 2012 a 2014. Os sequestros também são uma maneira de o EI levantar dinheiro e mostra à população civil que continua sendo uma força poderosa. Segundo autoridades iraquianas, restam de 5 mil a 6 mil combatentes do grupo no Iraque e na Síria.

Apesar do perigo, os caçadores de trufas do deserto aparentemente não se deixam dissuadir. A trufa é muito apreciada e pode render US$ 13 o quilo nos mercados locais.

Depois que Yasseen foi levado pelo EI, seus captores vendaram seus olhos e os de cinco primos que haviam ido caçar trufas com ele, e os conduziram até um pequeno local subterrâneo. Os combatentes lhes deram comida lhes convidaram a orar. Mais tarde, foram libertados depois de pagarem um resgate em dinheiro.

O fazendeiro xiita Hamza Kadhim al-Jubori, 42, contou uma história diferente. Ele e dois de seus irmãos e seu sobrinho foram sequestrados, e também foram levados para um local subterrâneo. Mas só receberam uma tâmara e meio copo de água e não foram convidados a orar. Jubori conseguiu fugir. Ele falou que foi salvo por beduínos, os nômades do deserto. Três dias mais tarde, estava em casa - mas sem os irmãos e o sobrinho. Dias depois, eles foram encontrados mortos a tiros.

"Perdi dois dos meus irmãos, meu sobrinho; só pensei em me salvar", ele disse. Então encostou a cabeça na parede e começou a chorar./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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