(Saumya Khandelwal/The New York Times)
(Saumya Khandelwal/The New York Times)

Cães assassinos aterrorizam zona rural da Índia

Fechamento de abatedouros eliminou fonte de alimento de cães vadios

Jeffrey Gettleman e Hari Kumar, The New York Times

01 Junho 2018 | 10h15

KHAIRABAD, Índia - Numa noite recente, Sahreen Bano, uma menina de 10 anos, entrou num canavial para urinar antes de ir para a cama. Uma matilha de cães selvagens estava esperando por ela.

Os cães formaram um círculo em torno dela e se aproximaram, derrubando-a com dentadas no pescoço. Ela gritou. Agricultores nas proximidades correram o máximo que puderam, empunhando pedras, paus e enxadas, berrando com toda a força.

Sahreen está agora num leito hospitalar, com um curativo ensanguentado no pescoço.

Mas o ataque não foi um evento isolado. Pelo menos 14 crianças foram mortas em ataques de matilhas perto de Khairabad nos meses mais recentes.

Khairabad é uma pequena cidade no norte da Índia que parece ter sido esquecida pela prosperidade e esperança. As casas são pequenas, e os aldeões são magros e pobres. A maioria deles é de agricultores, muçulmanos, e em relação a esta assustadora ameaça canina, eles responsabilizam os políticos, principalmente os políticos que defendem os direitos dos hindus, cujo zelo em proteger as vacas pode ter criado cães assassinos, dizem eles.

No ano passado, um novo governo voltado para os direitos dos hindus, comandando por Yogi Adityanath, um monge que é considerado uma das figuras mais polêmicas da Índia, foi levado ao poder no estado de Uttar Pradesh. Adityanath construiu sua carreira promovendo pautas de supremacia hindu e demonizando os muçulmanos.

Uma das primeiras medidas dele como governador de Uttar Pradesh foi fechar muitos dos abatedouros do estado.

O motivo seria o fato de muitos estarem funcionando ilegalmente. Mas os moradores estão convencidos que o yogi e outros de seu partido político queriam acabar com a indústria da carne para proteger as vacas, animal sagrado do hinduísmo.

Mas outra consequência foram os cães vadios. E nada foi capaz de impedir os ataques: aumento no policiamento, visitas de autoridades, vigilância com drones ou mesmo um esquadrão de justiceiros.

As crianças estão começando a deixar de frequentar a escola. Os agricultores de Khairabad têm medo de permanecer nos campos, principalmente à noite. Durante um fim de semana de maio, cães selvagens atacaram cinco pessoas.

Como a maioria dos vilarejos indianos, Khairabad tem muitos cães vadios. Muitos deles costumavam sobreviver com as sobras dos abatedouros e, quando estes foram fechados abruptamente, disseram aldeões e veterinários, alguns dos cães vadios podem ter enlouquecido de fome.

“Como esses cães estão recebendo menos comida, eles se aproximam dos bairros em busca de alimento", disse o Dr. R. K. Singh, diretor do Instituto Indiano de Pesquisa Veterinária. “Isso está levando a uma intensa interação entre animais e humanos.”

Alguns adultos também foram atacados, mas nenhum foi morto. Ele disse que as crianças são “alvos fáceis".

O governo de Adityanath nega que o fechamento do abatedouro tenha alguma relação com os ataques.

“Por que somente os cães de Khairabad se transformariam em ameaças ao homem quando os abatedouros foram fechados por toda parte?” disse Awadhesh Kumar Yadav, funcionário do desenvolvimento urbano.

Os veterinários dizem que ataques de cães estavam ocorrendo também em outras áreas.

Mas os aldeões insistem que não se tratam de cães vadios comuns. Eles são capazes de correr em velocidade de 60 quilômetros por hora, “mais rápido que uma motocicleta", disse Ayub Khan, ancião da aldeia. Suas bocas são maiores, sua saúde é melhor, e “eles saltam longas distâncias".

Policiais dizem que os cães viajam em matilhas de cinco a sete animais; de acordo com testes realizados em animais ligados ao ataque, nenhum deles tinha raiva.

Os justiceiros caçadores de cães afirmaram que seu objetivo não é matar todos os cães; as leis da Índia protegem os cães, e os tribunais decidiram que é ilegal controlar a população de cães vadios por meio da caça.

Mas, em janeiro, o grupo matou três cães e ninguém teve problemas por causa disso. Os anciãos disseram que os cães tinham atacado crianças, e as carcaças dos animais foram expostas presas a uma mangueira por quase um mês. “Queríamos enviar uma mensagem aos cães", explicou Rahimullah Khan, integrante do grupo.

Milhares de animais, geralmente búfalos, eram mortos no abatedouro de Khairabad. Mas a instalação está agora deserta, e todos os cães que vagavam nas redondezas desapareceram.

Muitos aldeões dizem nunca ter sofrido ataques violentos de cães como os de agora quando o abatedouro estava aberto. Eles disseram que não era justo proteger as vacas e sacrificar as pessoas.

No hospital do distrito, as crianças que escaparam por pouco dos ataques jazem em leitos de metal, em fila, com curativos ensanguentados em volta do pescoço.

“Isso é responsabilidade do governador", disse uma mãe, Rani Sharma.

Mas então ela balançou a cabeça, “Apenas Deus ajuda os pobres".

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