Brett Kuxhausen/Gorongosa Media
Brett Kuxhausen/Gorongosa Media

Um paraíso africano para cães selvagens

Os cães selvagens foram reintroduzidos em um parque de Moçambique no ano passado e já tiveram várias ninhadas de filhotes

Natalie Angier, The New York Times

20 de agosto de 2019 | 06h00

No verão passado, uma matilha pioneira de 14 cães selvagens africanos foi solta no Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique, como parte de uma ambiciosa iniciativa de restauração da vida silvestre.

Como é especialista em carnívoros de Gorongosa, Paola Bouley sabia que Beira, a fêmea alfa da matilha, estava grávida quando os cães foram soltos. Sabia que esses predadores grupais, e muito ameaçados, tinham cavado uma toca para sua rainha, e Beira passou muito tempo lá embaixo - até que, um dia, tudo mudou. Ela e a matilha abandonaram o local.

Enquanto Paola agachava ao lado da toca abandonada e olhava pelo buraco, ela encontrou a provável causa: uma gigantesca píton-africana - a maior espécie de cobra do continente.

Mas os cães selvagens não deixaram a região e, este ano, depois de migrarem para outra área do 1 milhão de acres de Gorongosa, compensaram o tempo perdido. No fim de abril, Beira deu à luz 11 filhotes que emergiram da toca no início de junho, e parecem saudáveis nas imagens das câmeras.

Ainda mais surpreendente para Paola e seus colegas, a fêmea beta da matilha, Nhamagaia, desafiou a convenção segundo a qual apenas a fêmea alfa se reproduz, e teve no fim de junho sua própria ninhada de oito filhotes.

Inicialmente, os pesquisadores temeram que Beira e os demais cães adultos pudessem rejeitar os filhotes, abandonando-os à própria sorte. Mas os novos filhotes foram aceitos.

E, não muito longe da "creche" dos filhotes de Beira e Nhamagaia, um grupo de quatro cães adultos que tinham se separado da matilha original na primavera - três machos e uma fêmea - pareciam estar criando com sucesso outra ninhada de oito filhotes.

“É muito animador", disse Cole du Plessis, coordenador do programa de expansão dos cães selvagens do Endangered Wildlife Trust. “No início do ano, não havia cães selvagens em Gorongosa, e agora estamos chegando à marca de 50 animais.”

E por que seria diferente? “Quando sobrevoei Gorongosa", disse du Plessis, “analisando a disponibilidade de presas, água a topografia, pensei que, se eu tivesse que imaginar um paraíso para os cães selvagens, o lugar seria como Gorongosa".

A reintrodução bem-sucedida dos cães selvagens africanos em Gorongosa sublinha a posição do parque enquanto um dos últimos pontos brilhantes de um panorama sombrio de florestas cada vez menores e rápido decréscimo da população de animais maiores e carismáticos.

Durante a guerra civil de Moçambique, encerrada em meados dos anos 1990, a abundante vida silvestre em Gorongosa foi quase completamente destruída. Desde então, o parque está em constante recuperação, auxiliado por uma incomum parceria entre o governo de Moçambique e o rico filantropo americano Gregory Carr, reunindo a contribuição das comunidades locais, de equipes internacionais de cientistas, preservacionistas e defensores dos direitos humanos.

Para os pesquisadores, Gorongosa é uma oportunidade de acompanhar a recuperação do ecossistema. Encontrar a mistura certa entre carnívoros e herbívoros tem sido um desafio em particular.

Os herbívoros foram os primeiros a se recuperar após o conflito em Gorongosa, e hoje o parque tem mais de 100.000 deles: gnus, impalas, búfalos, hipopótamos, elefantes e mais.

Os especialistas pensavam que, com tanta disponibilidade de alimento, os carnívoros sem dúvida imigrariam das áreas vizinhas por conta própria, mas sua recuperação se mostrou menos constante.

Os leões do parque estão prosperando: apenas um punhado deles tinha restado após a guerra, e hoje já são 146 animais.

Os cães selvagens, também conhecidos como lobos pintados, são diferentes dos demais cães. Não uivam nem latem, e suas orelhas são como pratos de satélite, capazes de captar sons das presas e os chamados agudos uns dos outros. Têm quatro dedos em vez de cinco, adaptação que os ajuda a correr a velocidades de até cerca de 70 quilômetros por hora. Fazem tudo como uma equipe. 

Scott Creel, da Universidade Estadual de Montana, que estudou matilhas de cães na Zâmbia e Tanzânia, disse, “Se não vemos um indivíduo por aproximadamente uma hora, isso significa que ele morreu ou se desgarrou” - partiu para se juntar a outra matilha.

A vida em grupo tem seus benefícios, entre eles receber cuidados durante a doença ou recuperação.

Os cães são reprodutores cooperativos, uma estratégia reprodutiva relativamente rara entre os mamíferos. Nesse sistema, o casal alfa da matilha se encarrega da reprodução, enquanto os outros adultos, sem filhos, servem como cuidadores no ninho. 

Os cães alfa defendem o próprio status por meio de pequenas agressões, rosnadas e avançadas, principalmente durante a época de acasalamento, mas os subordinados parecem não se importar. Independentemente disso, os subordinados podem buscar um status mais elevado e filhotes próprios de uma série de formas: desgarrando-se de uma matilha para se juntar a outro bando, quando disponível, ou engravidando em casa e torcendo pelo melhor.

Paola suspeita que as condições favoráveis de Gorongosa, com abundância de alimento e pouca concorrência, explicam o sucesso do ato de insubordinação de Nhamagaia. A fêmea alfa não rejeitou os filhotes da fêmea beta, e mais: com os próprios filhotes quase desmamados, Beira começou a servir de ama de leite da nova ninhada. Os filhotes mais velhos tratam os mais novos como brinquedos: um puxa a cabeça, o outro o rabo, em uma espécie de cabo de guerra.

Paola disse, “O elo entre os novos filhotes e o restante da matilha, especialmente Beira, é muito diferente do que esperávamos".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.