Pixabay
Pixabay

Café e clima têm uma relação complicada

Sua xícara matinal pode depender da solução de problemas com uma safra que tanto contribui como é profundamente afetada pelas mudanças climáticas

Tatiana Schlossberg, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2021 | 05h00

Wilston Vilchez, um cafeicultor de terceira geração nas montanhas da Nicarágua, testemunhou mudanças climáticas drásticas em sua fazenda de café e cacau de 25 acres por anos, mas quando dois furacões chegaram dentro de 15 dias no ano passado, muitos outros agricultores que ele conhece perceberam que precisavam ser parte da solução.

“Eles podem ser pequenos agricultores, mas acreditam em fazer algo diferente que irá beneficiar a todos”, ele disse.

Vilchez, que também administra uma cooperativa agrícola de cerca de 300 agricultores, disse que os efeitos das mudanças climáticas - aumento das temperaturas, chuvas menos previsíveis, oscilações selvagens entre estiagem e enchentes, novas pragas e muito mais - estão tornando cada vez mais difícil ganhar dinheiro com o café, uma experiência vivida por agricultores de todo o mundo.

Segundo um estudo de 2014, sob diminuições modestas das emissões de gases de efeito estufa, cerca de 50% das terras com condições adequadas para o cultivo das duas principais espécies de café, arábica e robusta, que respondem por 99% do suprimento comercial, “podem desaparecer até 2050”.  Brasil e Vietnã, os principais países produtores, seriam os mais afetados.

Para os bilhões de pessoas ao redor do mundo que dependem do consumo de café (para dizer o mínimo), isso significa uma previsão de muitas manhãs difíceis e possivelmente preços em alta. Para os cerca de 100 milhões de cafeicultores, para não falar das dezenas de milhões que trabalham no transporte, embalagem, distribuição, venda e preparação do café, os efeitos das mudanças climáticas estão tornando ainda pior uma existência já precária.

Em sua fazenda e em toda a cooperativa, Vilchez trabalha com o Blue Harvest, um programa da Catholic Relief Services (CRS), iniciado em 2014, que ajuda os cafeicultores da América Central a restaurar e proteger seus recursos hídricos, para seu benefício e para outros que compartilham a bacia hidrográfica a jusante.

O programa, que se baseou no trabalho anterior da organização, começou quando a América Central estava enfrentando uma epidemia de ferrugem da folha do café há cerca de uma década. A ferrugem da folha do café é um fungo que dizima o cafeeiro, geralmente deixando os fazendeiros com poucas opções: cortar a safra e replantar, plantar outra coisa ou desistir. Alguns associaram a disseminação do fungo às mudanças climáticas porque ele prospera em condições mais quentes com precipitação mais variável.

Já que as mudanças climáticas estão tornando as secas mais frequentes e intensas, disse Kristin Rosenow, especialista em desenvolvimento agrícola da CRS, usar a água de forma mais eficiente e prevenir a poluição das fontes existentes são extremamente importantes.

Vilchez trabalhou com a CRS para restaurar seu solo com o plantio de culturas de cobertura. Ele também ajudou outros agricultores a reter mais umidade do solo plantando árvores de sombra, uma prática tradicional, e a empregar outras soluções de baixa tecnologia, ele disse, falando um espanhol traduzido por um membro da equipe da CRS.

Rosenow disse que essas técnicas, entre outras, como o uso de fertilizantes mais direcionados, levaram a um aumento de 24% na produção dos agricultores e a um aumento de 28% na renda, o que pode ser atribuído a essas técnicas e também ao acesso a novos mercados.

Outra tática é o plantio de diferentes variedades que possam resistir melhor à ferrugem da folha e outros fatores estressantes do clima, segundo Hanna Neuschwander, diretora de estratégia e comunicações da World Coffee Research.

No ano que vem, a World Coffee Research iniciará uma rede mundial de cultivo, que visa introduzir modernas técnicas de cultivo e novas variedades nos países produtores de café para ajudar os agricultores a lidarem com as novas condições climáticas. Com base na informação obtida, a organização avaliará o desempenho de novas espécies em diferentes ambientes em todo o mundo, uma espécie de teste de laboratório em tempo real.

No Jardim Botânico Real de Kew, em Londres, Aaron Davis, um cientista do café que também é especialista em mudanças climáticas, está trabalhando em uma solução diferente para garantir a sustentabilidade: apresentar aos agricultores espécies silvestres de café, que não eram amplamente cultivadas anteriormente, ou nunca foram, mas são mais tolerantes a temperaturas altas e à seca.

“Sendo um botânico e tendo trabalhado em climatologia, não posso enfatizar o bastante que as espécies tradicionalmente usadas não serão suficientes”, ele disse. “Se você olhar para os modelos de mudança climática e para as projeções, precisamos de uma resiliência robusta e de mudanças graduais, não mudanças adicionais.”

Maricel Saenz também está interessada em mudanças graduais, mas em uma direção diferente. Ela é a fundadora e diretora executiva da Compound Foods, uma empresa de café “sem grãos” que visa produzir café em um ambiente de laboratório.

Saenz, 29, é da Costa Rica, então, naturalmente, o café e seu futuro são importantes para ela, ela disse. “É uma situação muito complexa, porque o café é uma das principais vítimas e colaboradores da mudança climática”, ela disse, citando a energia e a água necessárias para cultivar, transportar e preparar uma xícara de café.

A Compound Foods não produz qualquer café - pelo menos, não no sentido tradicional.

Em vez disso, a empresa reproduz os micróbios dos grãos de café reais, que dão sabor e aroma a uma xícara de café, disse Saenz. Os micróbios são cultivados em sua fórmula à base de plantas em biorreatores, um processo de fermentação semelhante ao que acontece naturalmente em uma fazenda de café.

Neste momento, isso produz um extrato ao estilo "cold-brew" que imita o sabor, a cor e o aroma do café verdadeiro, mas com muito menos energia e água. Eles planejam distribuir este primeiro produto através de cafeterias no próximo ano e, mais tarde, criar borras de café que possam ser preparadas em casa.

Quando questionada sobre como sua empresa pode afetar os pequenos agricultores que cultivam a maior parte do café do mundo e frequentemente lutam para ganhar a vida, Saenz disse que esperava competir com os grandes agricultores industriais e encontrar maneiras de apoiar os agricultores que ela conhece desde criança.

Tanto a longo quanto a curto prazo, isso pode significar abordar a própria raiz do problema: as emissões de gases de efeito estufa. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.