Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Calamidade oculta na Guerra do Iêmen: 1 milhão de minas

Houthis limitam avanço saudita com bombas enterradas, armas que podem confirmar seu elo com o Irã

David D. Kirkpatrick, The New York Times

22 de fevereiro de 2019 | 06h00

NEHIM, IÊMEN - Desesperados para vencer as linhas inimigas, as forças apoiadas pelos sauditas que combatem no Iêmen estão enviando soldados sem treinamento para limpar campos minados, às vezes usando apenas suas baionetas.

"Consegui remover duas, mas a terceira explodiu", disse Sultan Hamad, soldado iemenita de 39 anos que perdeu uma perna desarmando minas na frente de batalha perto de Marib, antiga cidade da parte central do Iêmen. Ele estava entre os mais de meia dúzia de soldados que aguardavam na clínica de Marib para receber próteses.

Passados quase quatro anos desde que a Arábia Saudita mergulhou o Iêmen numa guerra civil, comandantes sauditas e iemenitas dizem que centenas de milhares de minas terrestres disfarçadas foram plantadas por seus adversários, os houthi, consistindo na sua mais formidável defesa. De acordo com os comandantes, os explosivos ocultos ajudaram a manter o conflito numa espécie de impasse, apesar da superioridade em poderio aéreo e dos vastos recursos da coalizão liderada pelos sauditas.

As minas também causaram a morte de pelo menos 920 civis, ferindo milhares, de acordo com especialistas na remoção de minas. Os grupos de defesa dos direitos humanos e outras organizações monitoras dizem que os campos minados deixarão o Iêmen repleto de explosivos capazes de matar ou mutilar civis desavisados durante décadas até que os explosivos possam ser totalmente removidos, como ocorreu no Afeganistão, na Colômbia e no Camboja.

"A dimensão do problema é muito grande, e o impacto, horrendo", disse Loren Persi Vicentic, do grupo independente Landmine Monitor. "A maioria das baixas informadas é entre civis".

Uma empresa ocidental de remoção de minas contratada pelos sauditas estima que os houthi tenham armado mais de um milhão mines, mais de uma para cada 30 iemenitas, numa concentração que é a mais densa já vista desde a Segunda Guerra Mundial.

Agachado atrás de uma parede baixa de pedra no alto de uma cordilheira no distrito de Nehim, numa tarde recente, o general de brigada Mohsen al-Khabi quase conseguia ver as luzes distantes da capital, Sanaa, controlada pelos houthi, a apenas 37 quilômetros de distância. Mas, segundo ele, esses 37 quilômetros mais parecem 800. 

Os houthi plantaram tantas minas terrestres nas estradas e entre os assentamentos espalhados pelo vale que o avanço de suas forças iemenitas foi praticamente detido, presas há três anos praticamente na mesma posição. "O problema está nas armas desumanas empregadas pelo inimigo, as minas terrestres e os explosivos improvisados", disse. A Convenção de Genebra proíbe o uso de minas ocultas e minas antipessoais.

Os houthi, que controlam boa parte do norte do Iêmen, não responderam às perguntas para essa reportagem. Apesar das baixas entre civis, representantes houthi disseram empregar apenas minas antitanque, e somente no campo de batalha, negando o uso de minas ativadas por passos humanos ou em áreas civis.

"Estamos em guerra, o que eles esperam que façamos?", disse o general de brigada Yahia al-Sarie, um oficial houthi, à Associated Press em dezembro. "Receber o adversário com flores?"

Durante uma viagem ao Iêmen em janeiro, a convite da coalizão liderada pelos sauditas, a reportagem do New York Times examinou um grande número de minas terrestres desarmadas.

É possível que a Arábia Saudita esteja chamando atenção para as minas dos houthi para contrabalancear o fato de o reino e seu principal aliado, os Emirados Árabes Unidos, cometeram crimes de guerra ao realizar ataques aéreos que mataram milhares de civis e impuseram um bloqueio naval parcial que trouxe ao Iêmen a fome.

Mas todas ou quase todas as minas terrestres e demais dispositivos explosivos enterrados no Iêmen parecem ter sido plantados pelos houthi, de acordo com monitores independentes. A instalação de minas costuma ser empregada por uma força militar defendendo seu território ou em retirada, situação dos houthi desde o início da intervenção comandada pelos sauditas.

Os sauditas dizem que as minas proporcionam novas evidências do elo dos houthi com o Irã, rival regional do reino. Nos quatro anos mais recentes, os sauditas recuperaram várias peças de mísseis pertencentes aos houthi que, de acordo com representantes sauditas e ocidentais, teriam vindo do Irã. Mas os houthi também parecem ter criado fábricas para a produção em massa de milhares das suas minas terrestres circulares, cada uma com seu número de série em árabe, conforme aponta o grupo independente Conflict Armament Research e outros especialistas.

Numa visita ao distrito de Hairan, no deserto do norte do Iêmen, soldados iemenitas apoiados pelos sauditas mostraram o que descreveram como minas terrestres houthi, algumas delas disfarçadas como pedras e equipadas com sensores de movimento infravermelhos. Ali perto havia uma imensa pilha que, de acordo com os soldados, conteria mais de 4 mil minas desarmadas nos dois meses anteriores.

Os houthi estavam "cobrindo o chão" com elas, disse Deif Ahmed Abdullah Saleh, oficial do exército iemenita. / Saeed al-Batati contribuiu com a reportagem.

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