via Merrell via The New York Times
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Tempos estranhos pedem calçados ainda mais estranhos

Mais refinadas que os Crocs, mas tão desafiadores quanto à moda, sapatilhas híbridas pulam da clientela de caminhantes de trilhas para a de moradores de grandes cidades

Nathan Taylor Pemberton, The New York Times - Life/Style

11 de setembro de 2020 | 05h00

Embora não tenhamos uma palavra específica para descrever o limbo no qual nos encontramos coletivamente, uma categoria de calçados emergiu, como uma gentil intervenção, para nos ajudar a manter o equilíbrio no vazio. Estamos no momento da sapatilha híbrida.

A sapatilha híbrida, ou calçado anfíbio, foi criada para momentos de transição. Não chega a ser um tênis, mas não é apenas uma sandália e, certamente, não é um Croc. As sapatilhas híbridas foram pensadas para facilitar a movimentação entre água e terra, sem enfatizar um em detrimento do outro, ao mesmo tempo permitindo a rápida secagem dos pés para impedir a formação de frieiras.

Em se tratando de calçados, é o que há de mais parecido com uma cura para a incerteza. Ou, como dizia a Teva, empresa pioneira nesse tipo de calçado: “Liberte seus pés e sua consciência seguirá o mesmo rumo". A demanda atual por calçados que não oferecem inibições levou marcas de luxo e fabricantes de tênis de alto desempenho a reimaginarem essa categoria para uma época estranha. No início do ano, antes do coronavírus paralisar o cotidiano, a Balenciaga levou suas modelos à passarela usando sapatilhas híbridas, em referência à mudança climática.

Nos doze meses mais recentes, a marca Yeezy, de Kanye West, vem anunciando um “tênis de corrida de espuma" feito em parte com algas hidropônicas, com lançamento marcado para 2020. Em março, o salto se tornou mais visível quando a Hoka One One, marca francesa de tênis de corrida de vanguarda, apresentou sua linha de sapatilhas híbridas de alto desempenho, Hopara, criadas para “voar” sobre superfícies tão diferentes quanto “florestas remotas” e “selvas urbanas". Feito a partir de um bloco aerado de EVA, o Hopara chegou seguindo a tradição dos tênis de corrida da marca, cuja geometria pouco convencional ajudou a atrair fãs dedicados.

O Hopara explora um terreno menos conhecido com aberturas nas laterais, facilitando  o escoamento da água, e uma biqueira de borracha que parece uma armadura, protegendo contra pedras. Apesar da aparência volumosa, o calçado pesa apenas 340 gramas. O Hopara deixa claro que a sapatilha híbrida está chegando naquele estágio final da evolução de um calçado: um achado da moda de rua.  Nesse caso, achado principalmente por aqueles que que dificilmente chegarão perto das trilhas de aventura às quais a sapatilha se destina.

A comunicadora e escritora Kaitlin Phillips, que vive em Nova York, nasceu em Montana, onde passou a infância. O estado abriga uma grande comunidade de apaixonados pelas caminhadas. Ela prefere andar por Manhattan em suas sapatilhas híbridas Chaco porque as considera muito confortáveis. “Nem sei quantos pares tenho", disse ela.

Kaitlin disse que acompanhou a ascensão da sapatilha híbrida nas ruas de Nova York, especificamente entre pessoas envolvidas com arte. Ela destacou que a artista e modelo Camilla Deterre exibiu recentemente seus Merrell Hydro Mocs no Instagram. E Brendan Dugan, dono da galeria Karma, no East Village, é visto frequentemente usando sandálias Birkenstock de EVA nas vernissages.

Depois que os Hoparas foram recomendados pela revista GQ (que sugeriu vesti-los com meias “e talvez um paletó”) e foram mencionados pela publicação Highsnobiety, especializada em moda de rua, o calçado vendeu bem nas boutiques que trabalham com peças da moda, como a Bodega, em Boston. A varejista REI, mais tradicional, voltada para o público de esportes de aventura, teve tanto sucesso na venda do Hopara na internet que planeja trazer o calçado para suas lojas físicas em 2021.

Para um calçado tão pouco fashion quanto o Hopara, esse tipo de sucesso duplo é nova comprovação da preferência dos consumidores por calçados que sirvam a mais de um propósito. Eles são atraídos para a sapatilha híbrida como função do “ciclo do abjeto como tendência", disse Thom Bettridge, editor da Highsnobiety. Nesse ciclo, o feio é adotado sem reservas por consumidores ousados e, nesse processo, muita tensão e vergonha são aliviadas na moda.

“A história recente costuma ser constrangedora", disse Bettridge. “Quando olhamos para as sapatilhas híbridas que usávamos há 5 ou 10 anos, temos vontade de chorar. Mas podemos conquistar aquilo que nos constrangia. Fazemos isso ao reaprender a amar essas peças, e agora vemos algumas pessoas apostar justamente nesse caráter fora de lugar do calçado.”

Se para alguns essa psicologia pop parece pouco convincente, Bettridge destacou que essa nova onda de sapatilhas híbridas traz outra forma de alívio mental: são relativamente baratas e fáceis de obter, uma raridade no universo de calçados da moda com data de lançamento e número limitado de peças. O Hopara custa a partir de US$ 120, e o tênis de corrida de Kanye West deve custar algo em torno de US$ 75.

O Hydro Moc é ainda mais acessível. Essa sapatilha híbrida lançada no segundo semestre do ano passado pela Merrell, fabricante de botas de alto desempenho, tem preço sugerido de US$ 40, e lembra uma versão mais selvagem dos Crocs.

O calçado é feito a partir de uma peça única de EVA emborrachada, exceto pela tira de borracha no calcanhar. Há oito opções diferentes de combinações de cores, em estampas que lembram as reflexões luz na água. O calçado tem tantos buracos e recortes para facilitar a passagem de ar que os mais sensíveis podem ter um ataque de tripofobia.

Alguns enxergam o Hydro Moc como uma resposta iluminada ao reinado do Croc, um momento definido pelo conforto que sacrifica a função e aceita a feiúra sem reservas. “O Croc já era — ninguém o aguenta mais", disse Chris Black, sócio da consultoria de marca Public Announcement, apontando o ciclo cultural do próprio Croc, de padrão das mães suburbanas a novidade da Balenciaga. “Acho que as pessoas vão comprar o Hydro Moc por causa da aparência louca e do fato de ele não ser um Croc", disse ele. “Além disso, são novos e bem baratos, o que os torna imediatamente atraentes a uma gama maior de consumidores.”

A Merrell lançou o Hydro Moc para atender às demandas dos adeptos mais sérios da caminhada, que desejavam um calçado para usar em torno da fogueira depois de um dia nas trilhas. Isso exigia uma abordagem que tivesse com prioridade a leveza e, pesando 395 gramas, o Hydro Moc é mais leve do que a maioria das garrafas de água.

Desde o seu lançamento, no segundo semestre do ano passado, o Hydro Moc se tornou um dos produtos mais vendidos da Merrell. “Não parece que o Hydro Moc vai sumir no futuro próximo, mesmo se os consumidores forem atrás da próxima moda", disse Lindsey Lindemulder, diretora de marketing de estilo de vida da empresa. “Ele continuará no panorama dos calçados, teoricamente para sempre, pois trata-se de um novo espaço para os consumidores.”

De sua parte, Black não acredita na imunidade das sapatilhas híbridas, e especialmente do Hydro Moc, aos ciclos de tendências. Em sua coluna Strategist, na revista New York, ele identificou Hydro Moc como um “calçado ideal para ficar em casa”, recomendado para todos aqueles encalhados no ciclo de trabalhar, comer e se arrumar em casa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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