Jim McAuley para The New York Times
Jim McAuley para The New York Times

Na Califórnia, artista cria instalação de luzes 'para se perder na imersão'

Para os turistas das vinhas da região, obra de Bruce Munro é uma brilhante distração

Patricia Leigh Brown, The New York Times

29 de setembro de 2019 | 06h00

PASO ROBLES, Califórnia - Esse estado é farto em atrações de beira de estrada, do colossal passeio em meio a sequoias ao histórico Wigwam Motel, na Rota 99, em San Bernardino.

Mas não há nada como o espetáculo de virar a cabeça apresentado atualmente ao pôr-do-sol nas montanhas de Paso Robles, no centro da Califórnia, um popular destino dos frequentadores de vinícolas. É nesse momento encantado que milhares de globos de vidro instalados sobre varinhas se iluminam, uma criação do artista britânico Bruce Munro, 60 anos, que envolve os visitantes nas mudanças de tom de uma aurora boreal terrestre.

Desde que foi inaugurada, em maio, a instalação “Field of Light at Sensorio” (Campo de Luz em Sensorio, em tradução livre) tem atraído milhares de turistas. Os padrões em sutil transformação desse safári de luz, ativados por uma nebulosa de cabos de fibra ótica ligados a projetores ocultos, parecem deixar pasmos os visitantes, que pagam de US$ 19 a US$ 30 por um passeio noturno pelos 6 hectares de vias iluminadas (um jantar especial em uma varanda diante da deslumbrante paisagem custa US$ 95).

O advento do “Campo de Luz” é, talvez, apropriado. A quatro horas de estrada de São Francisco ou de Los Angeles, a região se transformou de um pitoresco cenário de faroeste em uma meca da uva, com cerca de 300 vinícolas e fileiras de lavanda derramando-se pelas colinas. A obra de Munro, em cartaz até 5 de janeiro, é a primeira fase do Sensorio - uma atração ambiciosa, com quase 150 hectares, criada em uma antiga fazenda de perus de Kenneth Hunter III, um incorporador imobiliário e fundador de uma empresa de gás e petróleo, e sua mulher, Bobbi. Os planos para o Sensorio incluem mostras temáticas interativas, um centro vinícola de 370 metros quadrados, um resort e um centro de conferência.

O “Campo de Luz” integra uma confraria de arte e entretenimento em vinícolas e estabelecimentos relacionados que busca injetar cultura na vitivinicultura - como tem sido chamado o Movimento Vine Art. É também o arauto da onda global de exibições de painéis de luz, como o “Rio Iluminado”, que ilumina quatro pontes sobre o Rio Tâmisa, em Londres, e “Sydney Vívida”, um espetáculo anual.

Munro trabalhava anteriormente no ramo de cartazes iluminados; em 1999, decidiu que a luz seria seu suporte artístico. Suas instalações são temporárias, e a natureza efêmera delas “permite que a paisagem seja ela mesma e se recupere e, com sorte, inspire outros artistas”, afirmou Munro. O objetivo dele é conectar as pessoas com a natureza - um vínculo que ele compara aos “sistemas radiculares das árvores em comunicação”.

Kenneth e Bobbi Hunter conheceram a arte de Munro na Austrália. “Fui atraído como uma mariposa a uma lâmpada”, recordou-se Kenneth.

Segundo Munro, o local oferecia a oportunidade de “iluminar um vale”. A paisagem existente foi redesenhada para bloquear a vista de prédios industriais. Durante uma visita recente, ondas de luz aliviavam a aspereza de retorcidos galhos de carvalhos. Visitantes circulavam pelas trilhas sussurrando. “Gosto da maneira como as luzes apontam gentilmente para cima”, afirmou Allison Dufty, uma redatora de audioguias de museu. “São grandes o suficiente para você se perder entre elas.”

O projeto Sensorio é desenvolvido pelo Thinkwell Group, uma firma com sede em Los Angeles conhecida por realizar atrações imersivas, como o Ski Abu Dhabi, uma estação de ski indoor. O projeto incluirá cinco jardins digitais e analógicos, casas na árvore ligadas por pontes de corda e um túnel subterrâneo controlado por luz. A intenção é aproveitar o público da indústria do turismo enológico da região.

A mistura entre vinho e arte é característica em veneráveis instituições europeias, como na Chateau Mouton Rothschild, próximo a Bordeaux, França, pioneira na moda dos rótulos desenhados por artistas consagrados, contratando Chagall, Miró e Braque, nos anos 1940.

Desde 2015, a chácara Donum Estate, em Sonoma, instalou grandes esculturas em sua paisagem, incluindo trabalhos de Ai Weiwei, Yayoi Kusama, Keith Haring e Yue Minjun, cujos “Guerreiros Contemporâneos de Terracota”, em bronze, compartilham espaço com as vinhas. A Coleção Hess, nas inclinadas encostas do Monte Veeder, no Vale de Napa, é formada por obras de Francis Bacon, Robert Rauschenberg e Andy Goldsworthy, entre outros.

“A arte é um cartão de visitas”, afirmou Tom Matthews, editor da Wine Spectator. “Ela pode ser explorada comercialmente, mas o mesmo vale para os museus.”

Alguns desconfiam do chamado Movimento Vine Art. “Equiparar o vinho à arte envaidece as pessoas que compram vinho, passando-lhes a impressão de que estão participando de algo maior do que realmente estão”, afirmou James Conaway, autor de “Napa at Last Light”.

Mas enquanto os espetáculos de luz noturnos florescem, eles também espalham encantamento. As pessoas assumem que “a luz é uma questão de brilho”, afirmou Munro. “Só é preciso um sussurro de luz.” 

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