Jim Wilson para The New York Times
Jim Wilson para The New York Times

Califórnia paga o preço de ter a 5ª maior economia do mundo

Anos de robusto crescimento causaram uma série de problemas à Califórnia, como o trânsito intenso e os altos preços dos imóveis

Thomas Fuller, The New York Times

24 Maio 2018 | 10h15

SAN FRANCISCO - Há dois anos, quando uma agência de transportes anunciou que as horas de pico do trânsito se tornariam coisas do passado em uma das principais rodovias na região da baía de San Francisco, não foi uma boa notícia.

“Pela primeira vez da história, os períodos de pico na manhã e no fim da tarde se confundiram”, disse um porta-voz da agência, “criando uma rodovia congestionada o tempo todo, das 5h30 da manhã, até quase 8h da noite”.E a situação não parou de se agravar.

A economia da Califórnia cresceu de maneira estratosférica, mas não sem infligir sofrimento à população. O trânsito sempre congestionado é apenas um sintoma disso, e o preço cada vez mais alto de uma habitação é outro.

Alguém encontrou uma fórmula rápida para calcular o preço de uma moradia na região: descubra quanto custaria uma casa semelhante em Minnesota, e depois acrescente ao valor um milhão de dólares. É comum um casebre em um bairro comum ser vendido por um preço que chega a sete dígitos, para em seguida ser simplesmente derrubado.

A Califórnia estabeleceu outro marco no início deste mês: se o estado fosse um país independente, sua economia seria a quinta maior do mundo, à frente da economia da Grã-Bretanha. A Califórnia já ocupou este lugar antes, mas o perdeu durante a Grande Depressão, há dez anos.

À medida que o estado foi se desenvolvendo, reforçou o argumento liberal a respeito do crescimento, por exemplo, o de que um Estado pode ter um governo tentacular e também uma economia florescente.

A Califórnia implantou rigorosas normas de proteção ao meio ambiente, um sistema de impostos progressivos e um salário mínimo ascendente, atualmente, de US$ 10,50 a hora, com perspectivas de chegar a US$ 15 em 2023. O estado acolhe de braços abertos os imigrantes, comemora a diversidade étnica e linguística e tenta combater energicamente a mudança climática. E com tudo isso, sua economia continua crescendo.

“Aumentamos a tributação sobre a renda e impusemos multas cada vez mais pesadas visando reduzir as emissões dos gases que provocam o efeito estufa”, contou Stephen Levy, diretor do Centro para o Estudo Contínuo da Economia da Califórnia. “Nada disso diminuiu o atrativo deste Estado”.

O sucesso econômico da Califórnia corrobora a audácia do estado e o seu desafio ao presidente Donald J. Trump.

A Califórnia não é o único estado que apresenta excelentes resultados. O Departamento Federal de Análises Econômicas elaborou recentemente um mapa que mostra um padrão de prosperidade um tanto desigual nos EUA. As economias de Estados como Kansas e Louisiana encolheram ligeiramente no ano passado, enquanto as da costa Oeste prosperaram: Nevada cresceu 3,5%, Washington, 4,4%, e Arizona, 3,2%.

Entretanto, mesmo diante do florescimento dos vizinhos, a Califórnia, que este ano registrou uma expansão econômica de 3%, destaca-se pela diversidade e pela pujança da sua economia. No ano passado, todos os setores contribuíram para o crescimento do Estado, com a exceção da agricultura, segundo Irena Asmundson, do Departamento de Economia do Estado. Os serviços financeiros e o setor imobiliário puxaram o avanço, e mesmo a indústria, muitas vezes considerada em declínio nos Estados Unidos, cresceu de maneira significativa, contribuindo com US$ 10 bilhões para a produção nos US$ 127 bilhões que o Estado acrescentou ao total.

“A maior parte deste resultado se deveu a um grupo relativamente pequeno de empresas extremamente especializadas”, disse Asmundson, falando sobre o crescimento da indústria.

O Vale do Silício corresponde a grande parte do sucesso da Califórnia. Uma das gigantes do estado na área de tecnologia, a Apple apresentou, em seu mais recente exercício fiscal, um faturamento de US$ 229 bilhões, cinco vezes superior à produção do Estado de Wyoming.

Todo este dinheiro que a Califórnia recebe dos setores de tecnologia e de entretenimento produz uma enorme riqueza, elevando enormemente o montante que os trabalhadores do Estado podem gastar - e não apenas os que atuam diretamente a estes campos.

O Facebook revelou no mês passado que a remuneração média de seus funcionários foi US$ 240.430 ao ano. Mas o comandante do Corpo de Bombeiros de San Ramon também ganha muito bem: sua remuneração total, incluindo os benefícios, foi de US$ 516.344 em 2016, segundo o site Transparent California. E cerca de 200 policiais em todo o estado ganham mais de US$ 300 mil ao ano, incluindo as horas extras e os benefícios.

Entretanto, nem todos compartilham desta prosperidade. Em 2017, a Califórnia registrou o maior aumento de sua população de sem-teto do que qualquer outro estado (14%), e também a maior proporção de pessoas desamparadas: 68% dos 134 mil sem-teto do estado dormem ao relento.

Todo boom econômico acaba perdendo gás mais cedo ou mais tarde, e há pessoas que gostariam que isso começasse. William Yu, economista da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, lembra da discussão realizada por um grupo de especialistas, um mês atrás, com incorporadoras imobiliárias.

“Perguntaram a um incorporador: ‘Está preocupado com a possibilidade da chegada de uma recessão?’“, disse Yu. “E ele respondeu: ‘De modo algum. Estou esperando que ela chegue’”. Por que? Para ele pôr as mãos em alguns imóveis a preços mais baratos.

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