Saumya Khandelwal para The New York Times
Saumya Khandelwal para The New York Times

Calor na Índia testa os limites físicos do ser humano

Se emissão de gases-estufa seguir no ritmo atual, níveis de calor e umidade podem ser insuportáveis

Somini Sengupta, The New York Times

27 Julho 2018 | 10h15

NOVA DELHI - Numa escaldante quarta feira de junho, uma mulher magra chamada Rehmati agarrou a mesa da médica com as duas mãos. Ela mal conseguia se manter de pé, com uma intensa dor de estômago.

Ela tinha viajado 26 horas num ônibus quente para visitar o marido, um trabalhador imigrante que vive aqui na capital indiana. Mas, quando chegou à cidade, a temperatura estava na casa dos 44° Celsius, e isso na sala de emergência onde ela se encontrava.

A médica Reena Yadav decidiu iniciar o tratamento intravenoso com Rehmati, 31 anos. Disse a ela que tudo ficaria bem. Rehmati se deitou e começou a engasgar.

O calor extremo pode matar, como ocorreu com dúzias de pessoas no Paquistão em maio. Mas, conforme muitas das cidades do Sul da Ásia se tornam cada vez mais quentes, cientistas e economistas alertam para um perigo ainda maior: o calor extremo traz efeitos devastadores para a saúde e a subsistência de dezenas de milhões de pessoas.

De acordo com eles, se a emissão de gases-estufa seguir no ritmo atual, os níveis de calor e umidade podem se tornar insuportáveis, especialmente para os pobres.

As novas condições já os estão deixando mais pobres e doentes. 

Como o vendedor de Kolkata sentado sobre as próprias pernas, ofegante de náusea e fadiga. Como a mulher que vende água a turistas em Delhi e desmaia de insolação. Como os homens e mulheres com febre e dor de cabeça que enchem as salas de emergência. Como os operários que trabalham sem proteção ao sol e se tornam tão fracos e doentes a ponto de perder vários dias de trabalho, bem como o salário correspondente.

“Essas cidades vão se tornar inabitáveis se os governos urbanos não colocarem em prática sistemas para lidar com esse fenômeno e conscientizar as pessoas", disse Sujata Saunik, que foi funcionário do alto escalão do ministério indiano de assuntos domésticos e agora é pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard. “Trata-se de um grande desafio para a saúde pública.”

Um estudo recente envolvendo várias das maiores cidades do Sul da Ásia revelou que, até o final do século, se o aquecimento for mantido, a temperatura de bulbo úmido - medida de calor e umidade que pode indicar o ponto a partir do qual o corpo humano não consegue mais regular a própria temperatura - ficará tão alta a ponto de as pessoas não conseguirem sobreviver por mais de seis horas.

Em maio de 2010, uma onda de calor em Ahmedabad, oeste da Índia, resultou numa alta de 43% na mortalidade em relação ao mesmo período de anos anteriores, de acordo com um estudo. Desde então, vans financiadas pelo governo municipal distribuem água nos meses mais quentes. Na cidade litorânea de Bhubaneswar, leste do país, os parques permanecem abertos para que os operários expostos ao calor possam repousar à sombra.

Em toda a região, a alta nas temperaturas pode piorar as condições de vida de 800 milhões de pessoas, de acordo com as conclusões de um relatório recente do Banco Mundial. Em todo o mundo, entre as 100 cidades mais populosas onde a temperatura máxima média do verão deve chegar a 35°C já em 2050, 24 ficam na Índia, de acordo com a Urban Climate Change Research Network.

Rohit Magotra, vice-diretor da Integrated Research for Action and Development, está tentando ajudar Delhi a lidar com o problema. 

A primeira etapa é quantificar o custo humano. “O calor é subestimado enquanto causa de mortes. As pessoas o tratam como uma condição natural”, disse ele. “Seu lado mortífero recebe pouco destaque.”

Numa quarta-feira escaldante, operários cobriam o rosto com bandanas enquanto construíam um prolongamento de uma via expressa em Delhi. 

O céu tinha uma cor acinzentada por causa das partículas em suspensão. Irritações na pele, boca seca, enjoos e dores de cabeça eram males enfrentados diariamente, disseram os operários. A cada 10 ou 15 dias, eles eram obrigados a faltar no trabalho e deixavam de receber. Já em 2030, o calor extremo pode levar a uma perda de 2 trilhões de dólares em produtividade, de acordo com estimativa da Organização Internacional do Trabalho.

A economista Joyashree Roy, da Universidade Jadavpur, em Kolkata, descobriu que a maioria dos dias de verão é demasiadamente úmida e quente para o trabalho físico pesado sem a devida proteção.

Ainda assim, as pessoas não deixam de pedalar nos riquixás, transportar carga sobre a cabeça e construir torres de vidro e aço. 

Poucos vivem protegidos em lares e escritórios com ar-condicionado.

Os pesquisadores estão procurando soluções. Em Ahmedabad, recursos municipais tem sido usados para a aplicação de tinta branca reflexiva sobre o teto de zinco de barracos, reduzindo a temperatura interna. Em Hyderabad, uma iniciativa semelhante está em fase de testes.

Rajkiran Bilolikar, que comandou o experimento com a tinta, disse que, quando criança, visitava o avô em Hyderabad. Havia árvores por toda parte. Ele conseguia andar pela cidade, mesmo no verão.

Agora professor da Faculdade Administrativa da Índia, em Hyderabad, ele não consegue ir longe a pé. 

A cidade está mais quente. Há menos árvores. O número de unidades de ar-condicionado aumentou, mas elas expelem ar quente para o lado de fora.

Bilolikar tinha decidido não usar o ar-condicionado. Mas, com a janela aberta, o ar quente soprado pelo ar-condicionado do vizinho entrava no seu apartamento. A filha dele, de 3 anos, estava com tanto calor que sua pele parecia arder.

Com relutância, ele fechou as janelas e ligou o ar-condicionado.

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