Adam Dean / The New York Times
Adam Dean / The New York Times

Projetos chineses no Camboja guardam suspeitas de instalação militar

Atividades de construção em Dara Sakor alimentam o medo de que Pequim tenha planos para transformar esse pequeno país do Sudeste Asiático em um entreposto militar

Hannah Beech, The New York Times

10 de janeiro de 2020 | 06h00

DARA SAKOR, CAMBOJA — A pista de pouso se estende como uma cicatriz por uma região que antes abrigava a mata virgem cambojana. Quando for concluído este ano, o Aeroporto Internacional Dara Sakor, situado em um trecho remoto do litoral, terá uma pista de pouso de 3.200 metros, a maior do Camboja. Nas imediações, operários derrubam árvores de um parque nacional para abrir caminho para um porto fundo o bastante para receber navios da marinha.

A bem-relacionada empresa chinesa encarregada de construir a pista de pouso e o porto diz que a instalações são para o uso civil. Mas a escala do acordo de terras em Dara Sakor — garantindo o direito de exploração de 20% do litoral do Camboja por 99 anos — trouxe preocupação, especialmente porque a parte do projeto dedicada a um resort, já construída, está abandonada.

A atividade em Dara Sakor e outros projetos chineses de construção nas proximidades está alimentando o medo de que Pequim tenha planos para transformar esse pequeno país do Sudeste Asiático em um entreposto militar.

A intensa atividade de construção chinesa fora do país — em ilhas disputadas no Mar do Sul da China, do outro lado do Oceano Índico e chegando à primeira base militar de Pequim no exterior, no Djibouti, situado no Chifre da África — fez soar o alarme diante das ambições militares chinesas em um momento em que a presença dos Estados Unidos na região diminuiu.

“Por que os chineses se ofereceriam para construir uma pista de pouso no meio da selva?”, questionou o cientista político Sophal Ear, da Universidade Occidental, em Los Angeles. “Isso vai permitir que a China projete seu poderio aéreo na região, alterando todo o cálculo estratégico.”

Para garantir seu posto como líder asiático de mandato mais longo, o primeiro-ministro Hun Sen, do Camboja, deu as costas às eleições livres e ao estado de direito. Ele critica duramente os EUA enquanto se aproxima da China, atualmente a maior investidora e parceira comercial do Camboja.

Hun Sen nega estar facilitando a instalação das forças armadas chinesas no Camboja. Em vez disso, o governo dele afirma que a pista de pouso e porto de Dara Sakor vão transformar essa remota floresta tropical em um polo global de logística.

Mas, em julho, militares armados e uniformizados chegaram à casa de madeira do pescador Thim Lim, que vive no maior parque nacional do Camboja, exigindo que partisse. Lim disse ter sido informado que seu lar seria demolido para abrir caminho para “um porto militar construído pelos chineses". Representantes do ministério de gestão de terras não quiseram comentar o episódio.

As terras do pescador fazem parte da concessão de Dara Sakor, arrendada há mais de uma década ao Union Development Group, uma obscura empresa chinesa sem nenhuma presença internacional além da aquisição cambojana de 110 acres. Quem presidiu as assinatura do acordo de Dara Sakor em 2008 foi Zhang Gaoli, que já esteve entre os principais líderes chineses.

Durante anos, a Union Development afirmou que Dara Sakor seria um empreendimento particular. Mas o general Chhum Socheat, vice-ministro da defesa do Camboja, disse ao New York Times que a autoridade de aviação civil do país estaria no comando do projeto. Mas, o porta-voz do secretariado de estado para a aviação civil, Sin Chansereyvutha, disse que “não temos um acordo” para o aeroporto de Dara Sakor.

Outros empreendimentos

A menos de 80 quilômetros da cidade, outro empreendimento quase vazio, construído pelos chineses, se destaca na paisagem. Mas é a vizinha do projeto que tem chamado a atenção: a base naval de Ream, a maior do Camboja.

“Todos esses projetos se valem da ambiguidade, porque nunca sabemos ao certo o que está ocorrendo", ressaltou Devin Thorne, coautor de um estudo do Centro de Estudos Avançados em Defesa, grupo de pesquisas de Washington, a respeito da estratégia marítima chinesa. “Acompanhamos cinco propostas de portos chineses; duas são aprovadas, e de repente há outra no horizonte. É difícil seguir tantos projetos.”

Em julho, o Wall Street Journal informou que um acordo secreto estava em preparação para ceder à China acesso exclusivo a parte da base naval de Ream por 30 anos.

As especulações a respeito de Ream se intensificaram quando os EUA foram notificados que os cambojanos não desejavam mais sua ajuda – depois de terem recebido dos americanos a modernização do treinamento e das instalações de manutenção naval da base. O vice-ministro da defesa negou que o Camboja tenha pedido por esses recursos.

Dois anos atrás, o exército cambojano suspendeu os exercícios militares em conjunto com os americanos e começou a formar parcerias com os chineses em tais atividades. Em uma demonstração do aprofundamento dos laços militares, Hun Sen anunciou em julho que tinha gasto US$ 240 milhões em armamento chinês. “Se o pessoal da embaixada americana não gostar de nós, que façam as malas e vão embora", sugeriu Pay Siphan, porta-voz do governo. E continuou: “A China está pensando na nossa prosperidade. Somos grandes amigos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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