Tang Chhin Sothy/Agence France-Presse - Getty Images
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Camboja usa recordes mundiais para conquistar apoio de jovens

Série de realizações excêntricas do país serve para consolidar o poder do governo e atrair o interesse da juventude

Julia Wallace, The New York Times

01 Fevereiro 2019 | 06h00

PHNOM PENH, CAMBOJA - Primeiro foi o bolo de arroz de 4 mil quilos, recheado de feijão e barriga de porco, descrito como “oficialmente impressionante” pelo Guinness World Records. Então veio a maior apresentação de dança Madison do mundo, com 2.015 participantes. Em seguida, o cachecol mais longo do mundo (1.150 metros), costurado ao longo de seis meses e mostrado num desfile pela capital cambojana, Phnom Penh. E, em novembro, o maior barco dragão do mundo (87 metros de comprimento) foi lançado no Rio Mekong, impulsionado por 179 remadores.

Essa sequência de feitos incomuns faz parte da campanha do primeiro-ministro para gerar entre os jovens alguma empolgação com um governo cada vez mais antiquado, algo que ele parece considerar essencial para se manter no poder. “As intenções do governo são transparentes: querem criar imagens de um entusiasmo visível em torno do país e sua liderança", disse Katrin Travouillon, que estuda política cambojana na Universidade Nacional Australiana.

A campanha inicial envolveu o colossal bolo de arroz e carne de porco, revelado em Angkor Wat em 2015, e descrito como uma maravilha do mundo moderno pelo autoritário Hun Sen, atualmente com 66 anos, e seu filho Hun Many, 36 anos, que tiveram a ideia como parte de um projeto para seu novo grupo de jovens favoráveis ao governo. Multidões celebraram quando um representante do Guinness World Records confirmou que o bolo de arroz teria seu lugar garantido no livro dos recordes ao lado de Angkor Wat, maior estrutura religiosa do mundo e fonte de orgulho nacional.

Dois terços da população do Camboja têm menos de 30 anos, sem nenhuma memória do sangrento governo do Khmer Vermelho nos anos 1970, nem da guerra civil que se seguiu à sua queda. Muitos estão cansados da reputação do país de disfunção política e palco de um genocídio. São menos suscetíveis à tradicional mensagem de Hun Sen, retratando os líderes do seu partido como heróis nacionais, merecedores de uma legitimidade perpétua por terem ajudado a derrubar o Khmer Vermelho em 1979. Em 2013, Hun Sen quase foi derrotado por um partido político insurgente. Passou os cinco anos mais recentes intensificando seus esforços para seduzir a juventude do país.

Kim Sok, que fugiu do país no ano passado depois de cumprir pena por criticar o primeiro-ministro, disse não compreender como a Guinness poderia certificar recordes obtidos por agentes de governos autoritários. “Eles têm pessoal, poder e dinheiro, e simplesmente ordenam às pessoas que gastem seu dinheiro para obter um certificado da Guinness World Records para usar como propaganda", disse ele. 

“Para mim, esse certificado caçoa do país inteiro”. Hun Many recusou os pedidos de entrevista. Mas, em discurso, defendeu a busca de recordes como algo crucial para a promoção do espírito cambojano, tanto no próprio país quanto no exterior. Travouillon disse que a retórica envolvendo esses projetos revela seu foco na união. O cachecol gigante foi promovido numa campanha de mídia voltada para o público universitário, incentivando-os a tecer algumas linhas em nome da solidariedade nacional.

O bolo de arroz foi pensado após meses de protestos e um boicote parlamentar por causa dos resultados da eleição de 2013. Na ocasião da revelação do bolo, Hun Many proclamou que este seria obra de “um espírito singular". Seu pai cortou o bolo ao lado de Sam Rainsy, líder da oposição que tinha se candidatado em 2013. Eles comeram um pedaço e declararam uma nova era de aproximação.

Mas, após um breve período de colaboração, Hun Sen deu início a uma série de processos judiciais contra Sam Rainsy que acabaram por expulsá-lo do Camboja. Posteriormente, ele declarou como ilegal todo o partido da oposição, detendo muitos políticos e ativistas e vencendo a eleição de 2018 sem nenhum adversário real. “Onde está a inovação?” perguntou Kim Sok a respeito do bolo de arroz. “É apenas um bolo gigante.” Ainda que os cambojanos mais velhos se mostrem céticos, vários jovens disseram que os recordes mundiais eram importantes para eles.

“Acho incrível", disse Man Nisa, 19 anos, que tinha saído da universidade para receber a entrega de um novo álbum de K-pop trazido por um motoqueiro. “Nunca vi feitos como esses”. Mas o entregador, Yin Hong, 35 anos, um imigrante vindo do interior, discordava. “É tudo bobagem!”, exclamou ele. “Um desperdício de dinheiro que não gera empregos para ninguém”.

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