Tara Todras-Whitehill / The New York Times
Tara Todras-Whitehill / The New York Times

Cruzamento entre camelos e dromedários gera híbridos resistentes ao frio

A demanda destes animais é em decorrência também do aumento da popularidade de uma bebida à base de leite de camela fermentado, conhecido como shubat

Andrew E. Kramer, The New York Times

07 de setembro de 2019 | 06h00

AKTAU, CAZAQUISTÃO – Na maior parte do mundo, os camelos são de dois tipos: os de duas corcovas (bactrianos) e os dromedários de uma corcova. Mas nada é simples assim no deserto do Cazaquistão, onde os camelos têm uma variedade de formas, a maioria delas uma versão de uma corcova e meia. Esta curiosidade não é natural.

O Cazaquistão, uma vasta nação escassamente povoada da Ásia Central, está expandindo os seus rebanhos de camelos cruzando os de duas corcovas com os de uma, para a produção de híbridos resistentes ao frio como as raças bactrianas, e fornecedores de copioso leite, como os dromedários.

A demanda destes animais é uma decorrência do improvável aumento da popularidade de uma bebida à base de leite de camela fermentado, conhecido como shubat. Também é fruto de uma iniciativa do governo visando a desenvolver a agricultura e diversificar a economia baseada no petróleo; o Ministério da Agricultura do país oferece empréstimos aos produtores a fim de expandir os seus rebanhos híbridos.

Animal de carga

Este tipo de manejo dos camelos era muito difuso na Ásia Central pré-industrial, onde durante séculos a forma mais comum de híbrido, conhecida como camelo Nar, era o animal de carga preferido para o comércio leste-oeste com a China. Mas a prática foi desaparecendo em grande parte no início do século 20, quando as autoridades soviéticas confiscaram o gado dos nômades durante a coletivização.

Quando o Cazaquistão saiu da crise econômica depois da queda da União Soviética, os rebanhos de camelos também se recuperaram. O número de animais subiu de 96 mil em 1999, o primeiro ano em que os dados começaram a ser colhidos, para 191 mil em 2017, segundo a agência estatal de estatística.

Ao mesmo tempo, os híbridos tornaram-se mais comuns, permitindo o aumento do número de animais de uma corcova e meia, que atualmente são vistos no Cazaquistão. “Agora, muitas pessoas estão criando camelos”, afirmou Gulnara Uteniyazova, produtora de leite de camela. Ela disse que sua família possui cerca de 80 cabeças, na maioria híbridos. “É um bom negócio”, garantiu.

32 tipos de híbridos

Os veterinários do Cazaquistão documentaram 32 tipos de híbridos, dos quais cerca de 20 são criados comercialmente. O aspecto das corcovas depende do grau de hibridização. Os cazaques são orgulhosos da expansão dos seus rebanhos diferentes. O Cazaquistão é “líder na criação seletiva de camelos; não há nada comparável no mundo”, escreveu o site de negócios In Business, no ano passado.

O shubat, bebida de leite de camela fermentado, é apreciado por ser altamente pró-biótico, sem falar que é também um pouco alcoólico. “Deixando o leite parado duas semanas, ele se torna shubat sozinho”, disse Gulnara.

Evidentemente, talvez os não iniciados não achem muito palatável um copo de shubat de qualquer tipo, com a sua acidez característica e misteriosas bolinhas de gordura de leite. Mas a bebida é inegavelmente popular no Cazaquistão, a ponto de criar uma demanda para os rebanhos de camelos de raça cruzada. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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