Fotografias de Samuel Aranda para The New York Times
Fotografias de Samuel Aranda para The New York Times

Camelôs imigrantes são mal vistos nas ruas da Espanha

Aceitos por causa da situação de dificuldade, mas sem permissão para trabalhar

Raphael Minder, The New York Times

07 Setembro 2018 | 10h15

BARCELONA, Espanha - Nos finais de semana, dezenas de camelôs ocupam o calçadão diante do mar em Barcelona, oferecendo artigos como (imitações de) óculos de marca, roupas de grife e outros badulaques, geralmente produtos piratas.

Os camelôs, chamados aqui de manteros, são a epítome de um problema enfrentado pelas autoridades: uma coisa é debater se a União Europeia deve ou não aceitar mais imigrantes, mas outra coisa é decidir o que fazer com eles depois que chegam.

A maioria dos manteros é formada por imigrantes da África que, muitas vezes, arriscaram a vida para fugir da violência ou da pobreza. Mas muitos deles descobrem que, ao chegar na União Europeia, obter um emprego regularizado sem os devidos documentos é praticamente impossível - especialmente em países onde o desemprego é alto, como na Espanha.

Para se sustentar, muitos se tornam vendedores de rua. Barcelona se tornou uma espécie de central dos manteros, assim chamados por causa da prática de dispor suas mercadorias sobre mantas que podem ser rapidamente recolhidas numa trouxa improvisada.

Os camelôs se tornaram um tópico que mobiliza as emoções na Espanha, e episódios envolvendo os manteros acabaram resultando em violência.

Nas semanas mais recentes, um tribunal condenou um mantero a quatro meses e meio de prisão e ao pagamento de uma multa de 3,5 mil euros, cerca de 4 mil dólares, por ferir um policial durante uma operação em Cambrils. O mantero chutou o policial, que tinha colocado o pé sobre a manta para impedi-lo de fugir. Também no mês passado, um turista americano, José Bravo, foi hospitalizado em Barcelona com ferimentos na cabeça depois de uma briga com um camelô.

Os manteros dizem que são usados com finalidades políticas, e apontaram para os excessos da polícia. 

Um sindicato formado por eles pediu recentemente às autoridades a descriminalização das vendas nas ruas.

Com a aproximação das eleições municipais no ano que vem, políticos de oposição usaram as tensões envolvendo o caso dos manteros para acusar a prefeita de Barcelona, Ada Colau, da esquerda, de fracasso na manutenção da lei e da ordem na cidade.

OS camelôs encontraram em Barcelona uma base relativamente boa, principalmente porque há na cidade muitos turistas interessados em comprar bolsas e óculos de sol falsificados.

“É horrível enfrentar essa concorrência ilegal", disse Carlos Servidio, cuja barraca no mercado oferece cintos e bolsas de couro fabricados em sua oficina nos arredores de Barcelona. Nascido na Argentina, Servidio chegou a Barcelona 30 anos atrás.

“Não quero criminalizar esses africanos, pois sei como é ser imigrante e ter de recomeçar a vida", disse ele. “Mas as autoridades precisam decidir se a cobrança de impostos vale para todos, ou se não vale para ninguém.”

Ninguém sabe ao certo qual o tamanho da rede de manteros de Barcelona. As estimativas variam entre algumas centenas e quase três mil. Parvati Nair, diretora do Instituto para a Globalização, Cultura e Mobilidade das Nações Unidas, com sede em Barcelona, disse que a falta de números era um problema. 

“Os camelôs fazem parte de uma economia informal que é invisível do ponto de vista político e jurídico", disse ela.

Em julho, a prefeita de Madri, Manuela Carmena, de esquerda, introduziu um visto temporário de residência que oferece acesso ao sistema público de saúde e alguns outros serviços básicos. 

Políticos da oposição alertaram que isso pode funcionar como um incentivo para a vinda de mais imigrantes ilegais, exacerbando o problema dos manteros. Manuela disse, “Madri é uma cidade muito grande na qual ocorrem atividades irregulares que não deveriam ocorrer, mas o fato de haver um número de pessoas envolvidas num comércio irregular não está nem de longe entre os principais problemas daqui".

Barcelona introduziu no ano passado um projeto cooperativo voltado a ajudar os camelôs a deixar as ruas e vender produtos em mercados regularizados. O objetivo do projeto é proporcionar uma fonte de renda aos camelôs e, finalmente, obter para eles autorizações de trabalho. O senegalês Babacar Diop, 38 anos, estava entre os 15 camelôs escolhidos para iniciar a cooperativa. Ele disse que foi “uma oportunidade de parar de correr riscos nas ruas, onde estamos sempre fugindo da polícia".

Numa noite recente em Barcelona, enquanto Samba Diallo, 28 anos, abria caminho entre as mesas externas de um café, ele segurava duas esculturas de madeira representando elefantes e uma grande manta sobre o ombro, cheia de badulaques. Ele se dirigiu a uma mesa ocupada por três mulheres; quando perceberam sua aproximação, afastaram-no com um gesto.

Em outra mesa, Diallo começou a conversar com uma família holandesa e conseguiu que o pai segurasse a escultura de elefante para uma foto. Mas o turista explicou que temia problemas com as restrições de bagagem da companhia aérea por causa do objeto enorme.

Diallo não conseguiu um único comprador. Ele disse, “As pessoas não confiam nos africanos - e, além disso, não tive sorte hoje".

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