Emile Ducke para The New York Times
Emile Ducke para The New York Times

Campanha online pressiona Pequim por notícias de uighures detidos

Com a hashtag #MeTooUyghur, parentes exigem que governo chinês prove que seus familiares estão vivos

Austin Ramzy, The New York Times

23 de fevereiro de 2019 | 06h00

HONG KONG - Muitos integrantes do grupo étnico uighur que vivem no exílio estão preocupados com a possibilidade de seus parentes na China estarem trancafiados em campos de internação - ou mortos. Assim, quando a China divulgou este mês um vídeo provando que um músico uighur não tinha morrido sob custódia, desmentindo os boatos, uighures de todo o mundo acompanharam atentos.

"Mostrem que meu pai está vivo e bem!", escreveu um deles no Twitter. "Onde estão meus parentes?", perguntou outro. Num vídeo, uma menina segurava a foto do pai, desaparecido, e, entre lágrimas, pedia: "Mostrem-nos um vídeo dele".

O médico Murat Harri Uyghur, que vive na Finlândia, e outros ativistas deram à campanha a hashtag #MeTooUyghur (#MenmuUyghur, no idioma deles), pedindo a outros que somassem suas vozes à campanha. "Agora, queremos saber: onde estão milhões de #Uyghurs?", escreveu ele, usando uma grafia alternativa para a etnia uighur. Ele estava se referindo aos relatos segundo os quais a China mantém prisioneiros pelo menos 1 milhão de uighures, casaques e integrantes de outras minorias muçulmanas turcas em campos de internação na distante região de Xinjiang, extremo oeste do país.

A campanha nas redes sociais é parte de uma iniciativa para reunir depoimentos e manter uma lista dos detidos para, com isso, pressionar a China. A campanha ataca as tentativas de Pequim de mostrar os campos como instalações de treinamento vocacional, que teriam o objetivo de melhorar a vida e fomentar a estabilidade nessa região antes sujeita a levantes. Ex-detentos dizem que os campos são como prisões, onde são obrigados a renunciar sua fé no Islã e defender o governo do Partido Comunista.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying, tentou desacreditar os relatos de abusos publicados pela mídia internacional, dizendo que foram "completamente fabricados" ou que os indivíduos em questão nem sequer existiam.

"A população da China é de mais de um bilhão de pessoas. Devemos mandar um vídeo de cada uma delas?", disse, ao ser indagada a respeito da campanha #MeTooUyghur.

Os campos foram condenados pela comunidade internacional, incluindo uma rara crítica de um país de maioria muçulmana, a Turquia, que afirmou que o músico uighur Abdurehim Heyit teria morrido sob custódia chinesa, levando um veículo oficial de notícias da China a publicar um vídeo de Heyit, no qual ele diz estar com boa saúde e sob investigação.

Quando sua mãe foi detida em abril de 2017, seguida pelo pai, Uyghur se manteve em silêncio. Mas, desesperado, gravou um vídeo de si mesmo denunciando a China pelo sofrimento imposto aos pais. Esse vídeo, publicado no Facebook em maio de 2018, foi um raro relato pessoal do programa de doutrinação. Agora que a China não dá sinais de limitar o alcance do programa, milhares publicaram vídeos ou acrescentaram nomes à lista de desaparecidos.

"As pessoas começaram a resistir", disse Uyghur. "Psicologicamente, estão sofrendo. Não sabem o que fazer, mas isso pode lhes dar esperança".

No ano passado, Uyghur fundou um grupo de defesa dos direitos humanos, UyghurAid, que está compilando registros do mundo todo. Os ativistas estão fazendo reunindo esse material e outros relatos para o Banco de Dados das Vítimas de Xinjiang, que recentemente continha mais de 2.700 nomes, uma fração do número estimado de detentos.

Em Almaty, Casaquistão, no mês passado, meia dúzia de casaques disseram que os apelos públicos tinham pressionado as autoridades a libertá-los (ou seus parentes) dos campos de internação. O grupo ativista Atajurt Kazakh Human Rights registrou centenas de apelos em vídeo. Mas, recentemente, um grupo de intelectuais casaques pediu a extinção do Atajurt, dizendo que este prejudica as relações do Casaquistão com a China.

Gaziz Ornykhanzly disse que, depois de enviar um depoimento em vídeo para Atajurt, sua mulher foi solta. Mas ela não pode deixar Xinjiang para se juntar a ele e às duas filhas no Casaquistão. Ele diz que a mulher insistiu para que ele pare de trabalhar com Atajurt, mas ele respondeu que continuaria a fazê-lo.

"Ao ajudar as pessoas, alivio um pouco a dor no meu coração", disse Ornykhanuly. "Estou testemunhando tudo que aconteceu com os casaques e uighures na China, e o mínimo que desejo é que o mundo fique sabendo de tudo isso".

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