John Gibson/Getty Images
John Gibson/Getty Images

Canadá força transferência de vítimas de inundações

À medida que os custos da mudança climática aumentam, país começou a ordenar proprietários inundados a se mudarem

Christopher Flavelle, The New York Times

18 de setembro de 2019 | 06h00

GATINEAU, QUEBEC - Os moradores que perderam suas casas com o furacão Dorian, nos Estados Unidos, preparam-se para reconstruir. Mas o Canadá - que também enfrentou inundações - testa algo muito diferente em matéria de estratégias de recuperação de desastres: o governo obriga as pessoas a se mudarem.

Ao contrário dos Estados Unidos, que sempre ajudam os proprietários a reconstruir no mesmo lugar, o Canadá decidiu solucionar a escalada dos custos da mudança climática limitando a ajuda no caso de desastres naturais, e forçar as pessoas a deixarem suas casas. Este experimento tem provocado uma mescla de alívio, raiva e perda enquanto bairros inteiros são abandonados.

“Os canadenses começam a reconsiderar a ideia de construir perto das áreas mais sujeitas a inundações”, afirmou Jason Thistlethwaite, professor de meio-ambiente e administração de empresas da Universidade de Waterloo em Ontário. “O governo decidiu obrigar as pessoas a tomarem decisões melhores”.

As consequências desta filosofia no mundo real aparecem em Gatineau desde 2017, uma cidade atingida por duas inundações em 100 anos. Os habitantes agora aguardam para saber se os danos provocados pela inundação mais recente, em abril, ultrapassaram 50% do valor dessas casas. Os que receberem o aviso terão uma ajuda financeira, mas deverão se mudar.

“Todo mundo preferiria que o problema não existisse. Mas ele existe”, afirmou David Foster, porta-voz da Associação dos Construtores de Casas do Canadá. A experiência do Canadá começou a ser aplicada no verão de 2013, quando as inundações no sul de Alberta causaram danos no valor de mais de 7,5 bilhões de dólares canadenses, US$ 5,7 bilhões, no desastre mais caro da história do país, na época. Os prejuízos foram particularmente pesados em High River, uma cidade de 14 mil habitantes, a cerca de uma hora ao sul de Calgary, onde 80% das habitações foram afetadas.

Em lugar de pagar pela reconstrução de todos estes imóveis, as autoridades avisaram os proprietários em dois barros particularmente danificados de que suas casas seriam adquiridas pelo governo. A estratégia passou a ser aplicada em uma escala maior. Em 2015, o Canadá tornou mais difícil a concessão de verbas federais aos níveis inferiores de governo após os desastres. No ano seguinte, a Colúmbia Britânica determinou que as vítimas do desastre que haviam optado por não comprar seguros privados contra inundações não teriam direito a uma ajuda oficial.

Este ano, o governo federal foi ainda mais longe, e avisou os proprietários de habitações de todo o país que não deveriam esperar qualquer ajuda. Nenhuma região do país foi mais agressiva do que Quebec. Desde 2005, a província proíbe a construção de novas moradias, ou a reconstrução das que foram atingidas pelas inundações, na planície onde este desastre se tornou frequente em períodos de 20 anos - onde correm um risco particularmente elevado de serem afetadas.

Mas depois da catástrofe que, em abril, mais uma vez se abateu sobre Gatineau e outras partes de Quebec, o governo ampliou a proibição das construções em todas as áreas inundadas em 2017 ou em 2019. Os moradores de Gatineau se dividem em dois grupos. Os que não querem se mudar, e os que querem sair.

“Em 2017, as pessoas pediam ajuda à prefeitura para salvar as suas casas,” disse Myriam Nadeau, uma vereadora local. Agora, “elas brigam pela ordem de sair”. O prefeito de Gatineau, Maxime Pedneaud-Jobin, precisa enfrentar uma situação delicada em termos emocionais e financeiros.

A melhor solução, segundo ele, é determinar quais são as partes da cidade que podem ser protegidas das inundações, e depois construir a infraestrutura necessária. As casas que não puderem ser protegidas,  serão adquiridas ao valor de mercado. Mas estas aquisições serão obrigatórias. “Teremos de ir até o fim”, afirmou. “Se pedirmos às pessoas que saiam, pagaremos o que for preciso. E elas serão forçadas a sair”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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