Tasos Katopodis
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Cantando para um pai que morreu cedo demais

Filha de Donny Hathaway, artista que cometeu suicídio aos 33 anos, Lalah Hathaway descobre seu legado no palco

Gavin Edwards, The New York Times

31 de julho de 2019 | 06h00

“Eu ouvia as gravações de Donny Hathaway, e chorava”, relembrou Lalah Hathaway em uma recente entrevista, e a razão era clara - seu pai morreu em 1979, quando tinha 33 anos, e ela, 10. Misterioso para ela era como a sua voz tocava as outras pessoas. “Eu via alguém ouvindo as músicas dele e pensava: ‘Por que estará chorando?’”.

Um encontro fortuito, há 25 anos, com a cantora Mary J. Blige a ajudou a compreender: “Seu pai significou muito para mim. Eu conseguia sentir profundamente a sua alegria e a sua dor”, disse Mary Lalah Hathaway, uma cantora de sucesso, a mais velha das duas filhas de Donny, que cantava esporadicamente músicas do pai. Ganhou um Grammy em 2016 por Little Ghetto Boy, sua versão do single do pai de 1972, que está guardado em sua casa, ao lado do Grammy de 2019 que ele ganhou por suas realizações ao longo da carreira. E no dia 24 de julho, em Manhattan, pela primeira vez ela cantou um show completo de músicas do pai.

Foi quando  começou a excursionar pelo mundo, por volta de 1990, que entendeu o seu legado. “No Japão, um dia, apareceu um sujeito que não falava inglês, vestido como meu pai; ele tinha todas as suas gravações, plastificadas, e pediu que eu as assinasse,” contou. 

Donny Hathaway nasceu no dia 1º de outubro de 1945; cresceu em St Louis, Missouri, e foi criado pela avó. Começou a tocar piano aos 4 anos. Sua irmã, Jacqueline Bethany, contou que ele passou a adolescência fazendo arranjos para vocais e tocando piano durante os serviços religiosos na igreja batista local.

Graças aos seus talentos musicais, Hathaway conseguiu uma bolsa de estudos na Howard University, em Washington. Eulaulah Vann, uma colega do curso de música, lembra que ele era um aluno excelente. Casaram em 1967, depois que ele desistiu da escola para seguir sua carreira. Mudaram-se  para Chicago, onde trabalhou para o selo Curtom de Curtis Mayfield. Donny se tornou muito conhecido como arranjador, e fez gravações com cantores como Willie Nelson e Lena Horne.

Bethany às vezes sentava em um canto do estúdio e observava. “Nunca vi um cliente insatisfeito”, afirmou. Estava presente na gravação em que Aretha Franklin cortou o single de sucesso de Hathaway, Rock Steady, e ele tocou órgão. "Parecia que ele estava tocando gospel”, rememorou.

Em 1970, Hathaway lançou seu álbum de estreia, Everything Is Everything. Mas não teve nenhum sucesso concreto até que se associou a Roberta Flack em 1971; os dois vocalistas, que haviam estudado juntos em Howard, fizeram gravações de sucesso de You’ve Got a Friend, You’ve Lost That Lovin Feelin, e Where Is the Love, escreveu Roberta Flack em um e-mail. “Donny e eu tínhamos uma sintonia artística que não encontrei em nenhum outro par, antes ou depois”.

Mas quando a sua carreira decolou, ele começou a se comportar de maneira estranha. “Eu via que algo estava errado”, apontou Eulaulah Hathaway. Donny foi hospitalizado em Nova York e em Chicago com esquizofrenia paranoide. “Ele tinha 26 anos quando o problema se revelou”, ela prosseguiu. Depois de um tempo, recebeu alta e os médicos prescreveram um tratamento com remédios pesados.

Donny Hathaway não lançou nenhuma música por cinco anos. Mas, em 1978, chegou ao Número 2 da lista dos maiores sucessos com The Closer I Get to You, um dueto com Roberta. Começaram então a trabalhar juntos em outro álbum em Nova York. “Donny saía muitas vezes do estúdio e ia para o banheiro”, relatou Ed Howard, gerente geral da Donny Hathaway Enterprises. Quando o encontraram no chão do banheiro, soluçando, dizendo que alguém tentara matá-lo, interromperam as gravações.

Howard disse que naquela noite - 13 de janeiro de 1979 -, na casa de Roberta, “Donny desenhou uma arma em uma folha da partitura e me perguntou: ‘E se alguém chegasse para você e dissesse 'bang!'?'. Eu a tirei de lá e fiz um X em cima da arma, tentando acalmá-lo”.

Foram para Essex House, onde estavam hospedados. Hathaway abriu a janela e se atirou para a morte do 15º andar. Quarenta anos depois da morte do pai, Lalah Hathaway disse que tem uma relação particularmente  forte com A Song for You, escrita por Leon Russell, mas interpretada por Donny Hathaway como um hino à dor. “É estranho; às vezes, estou no palco, mas não me sinto lá. E às vezes, estou lá, profundamente consciente de que as pessoas olham através de mim e veem meu pai ali, de pé”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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