Newton Nambwaya/Reuters
Newton Nambwaya/Reuters

Cantor de Uganda que virou político entra em guerra com presidente do país

Se espelhando em Bob Marley, Bobi Wine critica repressão do governo local

Kimiko de Freytas-Tamura, The New York Times

07 Novembro 2018 | 06h00

KAMPALA, UGANDA - Quando os soldados entraram no hotel, quebrando portas e arrancando os hóspedes dos seus quartos, Bobi Wine se preparou, porque chegara a sua vez. Ele sabia que estava sendo procurado. O seu motorista acabara de ser assassinado, aparentemente por ter sido confundido com ele. Um soldado forçou a entrada.

“Nós nos olhamos nos olhos enquanto ele chamava os colegas”, lembrou Bobi, cantor de ragga de Uganda que se tornou o mais famoso inimigo político do presidente Yoweri Museveni quase da noite para o dia.

Apontaram uma pistola na sua cabeça, e o obrigaram a ajoelhar. “Eles me espancaram, me deram socos e chutes com suas botas”, contou. “Não pouparam nenhuma parte do meu corpo. Atingiram meus olhos, boca e nariz. Feriram meus cotovelos e meus joelhos. Esses caras não têm coração!”

Bobi, cujo nome verdadeiro é Robert Kyagulanyi Ssentamu, chocou o partido governista ao obter uma cadeira no Parlamento com uma votação estrondosa, no ano passado. Agora, aos 36 nos, ele declarou sua intenção de candidatar-se às eleições de 2021, contra o atual presidente de Uganda que tem 74 anos.

Um ano antes de ser eleito ao Parlamento, compôs uma música chamada “Liberdade”, na qual atacava o presidente. A música se tornou viral e se transformou em uma espécie de hino de guerra de uma nação cansada de corrupção, desemprego e repressão da liberdade de expressão.

Até então, Museveni considerara Bobi um maconheiro, um arruaceiro dos “guetos de Kampala”, a capital. Bobi adotou esta designação e agora se apelidou de “presidente do gueto”.

O ataque a Bobi em agosto aparentemente confirmou que ele já constituía a principal ameaça ao governo de Museveni que dura 32 anos. Acusado de traição, aguarda o julgamento. O governo nega o ataque.

Museveni subiu ao poder ajudando a derrubar dois ditadores anteriores, e restaurou em parte a estabilidade no país. Mas manteve a sua autoridade na base da repressão. “Os que combateram em favor da liberdade se tornam ditadores”, canta Bobi referindo-se a Museveni, na música “Liberdade”. “Eles olham para nós jovens e dizem que somos destruidores”.

Bobi nasceu e cresceu em uma favela de Kampala. Seu pai era veterinário e cristão, mas mesmo assim polígamo. Bobi cresceu com quatro mães e “mais de 34” irmãos e irmãs. Sua mãe biológica, enfermeira e integrante do coral da igreja, educou os filhos na música cristã.

Bobi se inspirou nos artistas de reggae: Bob Marley, Lucky Dube e Buju Banton. Estudou antropologia na Makerere University, a mais prestigiosa de Uganda, e trabalhou esporadicamente como barbeiro, pedreiro e vendedor de CDs.

Mudou seu nome para Bobi, em homenagem a Bob Marley. O seu sobrenome, Wine, refere-se ao vinho, “porque eu acreditava que, quanto mais velho eu ficasse, mais útil, mais potente e mais sábio me tornaria”.

Aos 26 anos, começou a publicar músicas sobre questões sociais: violência doméstica, HIV, abuso de drogas. Em 2007, lançou “Ghetto”, em que acusava o governo de tratar as comunidades pobres como lixo.

Em 2016, Bobi decidiu entrar na política porque “as pessoas estavam sendo espancadas ou mesmo assassinadas - me dei conta de que tinha chegado a hora”.

No entanto, a selvageria do ataque que sofreu o abalou. O episódio do seu espancamento provocou estardalhaço no exterior. Em setembro, teve permissão para viajar aos Estados Unidos a fim de se tratar.

Quando regressou, Museveni pôs nas ruas milhares de policiais para controlar as multidões, e mandou que quatro dos seus shows fossem cancelados.

Falando aos que o apoiam, Bobi afirmou recentemente: “Estes caras têm medo de nós. Vocês não têm ideia, não têm ideia de como estes caras estão histéricos. Eles se sentem incomodados, porque sabem que o poder é nosso”.

Mas Bobi também fez uma advertência sinistra.

“Não vai ser fácil, ele disse. “Eles vão usar gás lacrimogênio contra a gente. Vão nos espancar. E vão pôr na cadeia alguns de nós.”

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