Susanne Craig/The New York Times
Susanne Craig/The New York Times

Cão é condenado à morte após atacar outro cachorro

Parte do fascínio da vida no campo é o espaço onde animais de estimação podem correr livremente. Eu aprendi da maneira mais difícil a importância de uma coleira com guia

Susanne Craig, The New York Times - Life/Style

12 de fevereiro de 2021 | 05h00

Jasper mordeu o pescoço de Chloe como se fosse uma rosquinha de geleia. Minha doce cadela idosa não teve chance contra o pitbull, com metade de sua idade e tamanha fúria.

Chloe, que resgatei de um abrigo em Nova Jersey há mais de uma década, tem sido minha melhor amiga e companheira constante desde então. Sou repórter do The New York Times. Nos últimos cinco anos, enquanto eu trabalhava em investigações sobre as finanças de Donald Trump, o trabalho de Chloe era proteger as informações de declaração de impostos do presidente. Ela me manteve sã. Eu a mantive segura. Até agora.

Chloe e eu moramos em uma cabana nas montanhas Catskill. Meu exercício é o dela, longas caminhadas juntas, por campos, florestas e, muitas vezes, estradas de terra em nosso bairro. Na manhã do ataque, estávamos em uma dessas estradas, com minha amiga Shawna Richer e seu cachorro, Scout.

Os latidos descontrolados de Jasper começaram quando nos aproximamos de sua casa. Eu olhei para Shawna. Silenciosamente, calculamos a possibilidade de passar com Chloe e Scout, ambos com coleira e guia, o mais rápido possível e sem fazer alarde. Jasper tinha outro plano em mente. Ele saiu disparado da varanda e atravessou o amplo jardim da frente como se tivesse sido lançado por um estilingue.

Então ele parou no limite da propriedade. Examinou a todos nós e seus olhos se fixaram em Chloe, uma mistura de labrador e basset hound de 12 anos e 27 quilos. De repente, uma mulher saiu da casa, gritando para Jasper voltar. Em vez disso, ele avançou em direção a Chloe até que estivessem focinho com focinho. Então ele a atacou, cravando a mandíbula em seu pescoço.

Poucos dias depois, um dos cães estava no corredor da morte e o outro se recuperando de feridas profundas no pescoço e abdômen. Uma pessoa estava no hospital.

Chloe encontrou Jasper pela primeira vez há dois verões. Ela passeando, de coleira e guia, com meu irmão, David. Eles encontraram o pitbull rebelde sozinho em uma estrada. Jasper foi até Chloe, mas David o chutou. Jasper saiu correndo. Chloe escapou sem ferimentos. Não denunciamos o incidente, algo de que agora me arrependo.

Para muitos proprietários de cães, parte do fascínio da vida no campo são os espaços abertos onde seus animais de estimação podem correr livremente. Eu costumava ser uma dessas pessoas, mas com o passar dos anos aprendi da maneira mais difícil a importância de uma coleira com guia.

Eu encontrei alguns cães como Jasper, os sem supervisão que podem se tornar violentos em um instante. Jasper tinha um histórico e tanto que eu descobri informalmente só depois de ser tarde demais. O cachorro de outro vizinho tinha sido atacado. O controle de animais tinha um registro disso. Alguns anos atrás, Jasper mordeu um de seus donos, a polícia me disse.

Eu segurei Chloe enquanto todos nós lutávamos para separar os cães. Os dentes de Jasper estavam enterrados no pescoço de Chloe e seu pelo estava manchado de sangue. Shawna chutou Jasper no peito e tentou se enfiar entre os focinhos dos cães, enquanto, ao mesmo tempo, tentava manter Scout fora da briga.

A mulher lutou desesperadamente para ter controle sobre Jasper. Quando ela agarrou sua coleira, ele a mordeu com força.

Em nossas caminhadas, vemos todos os tipos de cães e proprietários. Existem os cães sem guia que vêm saltando em minha direção. O proprietário está sempre por perto, garantindo-me que seu animal de estimação é amigável. Isso me deixa louca. Essas pessoas estão correndo um risco enorme, apostando cegamente que seu cachorro vai se dar bem com a minha.

Depois, há cães como Jasper, perigosos e muitas vezes vagando sozinhos. Depois do primeiro encontro de Chloe com Jasper, comprei spray de pimenta. Mas quando Jasper veio atacá-la desta vez, eu não estava com ele.

Nos dias seguintes ao ataque, ouvi de amigos que a culpa do ataque era Jasper ser um pitbull. Eu culpo apenas os proprietários, que não conseguiram controlar Jasper. Depois que Chloe foi atacada, assisti The Champions (Os campeões), um documentário sobre o destino dos pitbulls abusados por Michael Vick, o jogador de futebol profissional que cumpriu pena em uma prisão federal por administrar uma competição de briga de cães ilegal. Dezenas de pitbulls foram apreendidos e realojados. O filme é uma prova da ideia de que muitos cães, independentemente da raça ou das condições em que foram criados, podem ser reabilitados com a devida atenção, treinamento e amor.

Na casa certa, com proprietários informados e responsáveis, até Jasper poderia ter tido uma vida segura e feliz. Mas naquela casa, naquela manhã, ele era apenas perigoso.

Quando ele apertou o pescoço de Chloe com mais força e eu vi o sangue dela em meu jeans, a realidade de que ela poderia muito bem morrer nesta estrada tomou conta de mim. Em meio às lágrimas, disse adeus a ela. Eu disse a ela que sentia muito.

O ataque sangrento continuou. Em certo ponto, as grandes patas marrons de Chloe cobriram o rosto de Jasper como se ela dissesse: "Por favor, pare". Finalmente, os gritos da mulher fizeram com que seu pai aparecesse e ele veio correndo. Encaixou a guia na coleira de Jasper e arrancou a mandíbula do pescoço de Chloe. Eles voltaram para a casa.

Shawna e eu caímos de joelhos na estrada suja de sangue. Não sabíamos o que fazer. Não conseguíamos recuperar o fôlego. Nossos pulmões queimavam. Nossas jaquetas e jeans estavam cobertos de sangue.

Eu olhei para Chloe. Mordida, sangrando, mas viva. Scout, que extraordinariamente tinha ficado fora da briga, pressionou seu corpo contra Shawna. Caminhamos a curta distância para casa em silêncio.

O veterinário tratou as feridas por perfuração de Chloe, duas no pescoço e uma na lateral do corpo. Ela disse que tivemos sorte. O material grosso do peitoral da coleira de Chloe havia absorvido parte do ataque e provavelmente salvou sua vida. Ela recebeu um reforço da vacina antirrábica e antibióticos.

A mulher foi para o hospital com um ferimento na mão. Poucos dias depois, recebi um e-mail de seu pai.

Ele disse que resgatou Jasper ainda filhote. “Eu gostaria que você pudesse vê-lo com sua família. Ele era um animal de estimação gentil e amoroso, mas não era assim com estranhos e outros cães”, escreveu ele. “Eu virei minhas costas e ele escapuliu. Só posso dizer que gostaria que nunca tivesse acontecido. Nossa família está arrasada”.

O funcionário do controle animal local me disse que a família teve que entregar Jasper à quarentena porque suas vacinas contra a raiva estavam desatualizadas. Primeiro, disseram que Jasper seria devolvido ao dono. Mais tarde, soube que ele teria de ser sacrificado.

“É o melhor e todos nós sabemos disso”, escreveu o pai.

Ao ler o e-mail, sentada em meu carro no estacionamento de uma Home Depot, chorei até soluçar. Fiquei arrasada por Jasper e sua família. Eu acreditava que eles amavam seu cachorro. Eu queria encontrar outra casa para ele, um santuário para pitbulls, algo assim. Eu o imaginei sendo salvo pela Humane Society dos EUA. Eu gostaria de nunca ter passado por sua casa naquela manhã. Desejei que Jasper tivesse sido controlado.

Chloe está se recuperando dos ferimentos. Durante semanas após o ataque, meu corpo ficou coberto de hematomas por segurar Chloe forte contra mim enquanto Jasper a atacava. Shawna está ansiosa para passear e agora carrega uma grande bengala. Não saio de casa sem spray de pimenta.

Algumas noites depois, vi um post sobre Jasper no Instagram. Ele parecia tranquilo e doce na fotografia. “Descanse em paz Jasper, meu coração está partido”, dizia a legenda. Isso me deixou triste por tudo que não precisava ter acontecido. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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