Marvel Studios, via The New York Times
Marvel Studios, via The New York Times

'Capitã Marvel' chega ao cinema para cativar público feminino

O filme é uma resposta da Marvel sobre a representação das mulheres nos quadrinhos ao longo dos últimos 60 anos

Dave Itzkoff, The New York Times

06 de março de 2019 | 06h00

O novo filme Capitã Marvel chega acompanhado por uma grande satisfação misturada a uma frustração que perdura. O filme, estrelado por Brie Larson no papel da super-heroína e viajante espacial dos quadrinhos, é o 21.º capítulo do universo interligado Marvel nos cinemas desde o seu início, em 2008, mas é o primeiro a ter uma mulher no papel principal.

A esta altura, o público já se acostumou à ideia de filmes de super-heróis que dão destaque às mulheres. Em 2017, Mulher Maravilha, adaptado a partir da guerreira amazona da DC Comics, foi um sucesso global para a Warner Bros. A Marvel construiu sua própria fortuna a partir de um suprimento de aventureiros uniformizados inventados décadas atrás entre os quais há mulheres. Assim, por que demorou tanto até chegarmos a esse ponto?

A resposta está num emaranhado de fatores sociais, culturais e econômicos que acompanham as questões enfrentadas pela Marvel ao avançar na representação das mulheres em seus quadrinhos nos últimos 60 anos. Os criadores de Capitã Marvel - do filme e dos quadrinhos que o inspiraram - reconhecem a história problemática, mas enxergam oportunidades para que as mulheres tenham um lugar de igualdade nas páginas e na tela, fazendo a Capitã Marvel se tornar um ícone do empoderamento feminino. 

"Graças ao filme, a personagem pode ser importante para um público muito maior do que antes", disse Kelly Thompson, autora atual da série dos quadrinhos.

A Marvel, que pertence à Disney e abriga a superequipe dos Vingadores, fez história com filmes como Pantera Negra, sucesso de 2018 com negros na direção, roteiro e papéis principais. Conquistou a reputação de dar oportunidade a cineastas que não têm experiência com filmes de ação e grande orçamento. Isso inclui os diretores de Capitã Marvel, Anna Boden e Ryan Fleck. 

Anna conta que eles disseram à Marvel: "Só sabemos cuidar do desenvolvimento dos personagens. E eles responderam, 'Sabemos como mandar tudo pelos ares - precisamos de diretores capazes de contar uma história'". O filme, escrito por ela, Fleck e Geneva Robertson-Dworet, é o primeiro do estúdio com uma mulher na direção.

Brie, vencedora do Oscar em 2015 por sua atuação no drama O Quarto de Jack, disse ter reagido com cautela ao ser procurada para o papel de Capitã Marvel: o destaque a fez duvidar. Mas a atriz, que defendeu a participação de mais mulheres e negros na indústria cinematográfica, disse que Capitã Marvel pode ajudar a levar sua mensagem a um público mais amplo.

A Capitã Marvel é uma ex-piloto de testes da força aérea chamada Carol Danvers, que recebe habilidades sobre-humanas de uma raça alienígena. "Conforme ela aprende a se conhecer e a aceitar aquilo que a torna única, ela alcança seu verdadeiro poder", disse Anna. "Parte desse processo envolve recusar as vozes daqueles que lhe dizem que ela não é forte o bastante ou não pertence a um grupo. Acredito que muitas pessoas poderão se identificar com o sentimento, principalmente as mulheres".

A personagem Carol Danvers também está numa jornada particular desde sua estreia no universo Marvel, em 1968. Na época, ela não era muito além de uma espécie de Lois Lane, o interesse romântico de um herói masculino (o Capitão Marvel original da editora).

Nos anos 1970 e 1980, a Marvel lançou seus primeiros quadrinhos estrelados por personagens femininas, apresentando a Mulher-Aranha e a Mulher-Hulk, versões de seus personagens mais populares com o gênero trocado, e o objetivo era, em parte, proteger os direitos autorais da editora.

Num aceno ao crescente movimento feminista, a Marvel transformou Carol Danvers na Capitã Marvel. A personagem teve momentos de maior e menor popularidade com o passar dos anos. "Nas décadas de 1980 e 1990, criávamos quadrinhos que eram quase um insulto às mulheres", disse a autora Kelly Sue DeConnick. "O público feminino dos quadrinhos encolhia depressa".

Ela reintroduziu Carol Danvers numa série de 2012 na qual a personagem assumia o título de Capitã Marvel, recebendo um macacão mais digno de sua experiência nas forças armadas. Antes, disse Kelly Sue, "ela usou collants de ginasta com botas altas, e até um fio-dental". Kelly Sue, cujo pai serviu na força aérea, disse que sua ideia era inserir Carol Danvers na tradição dos ases e pilotos que ela há muito admirava.

Ao mesmo tempo, as leitoras começaram a voltar aos quadrinhos, incentivadas por tramas e personagens mais inclusivos. A nova Carol Danvers tornou-se uma personagem importante no universo dos quadrinhos Marvel.

Mas os lançamentos do estúdio de cinema se concentraram nos heróis principais, todos homens, como Homem de Ferro, Capitão América e Thor. Ninguém espera que Capitã Marvel alcance o desempenho de Pantera Negra, que teve bilheteria mundial de US$ 1,3 bilhão, nem o de Vingadores: Guerra Infinita, com bilheteria de US$ 2 bilhões.

Indagada se o título pode abrir as portas para mais filmes do tipo, Brie  que "é uma mudança assustadora, e leva algum tempo para acontecer. Mas, lentamente, está acontecendo". Ela também afirmou que só pode haver progresso se ela e suas pares usarem a influência proporcionada por filmes como Capitã Marvel para defender mudanças ainda maiores.

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