BRYAN DENTON/The New York Times
BRYAN DENTON/The New York Times

Capital mais fria do mundo é também a mais poluída

Os índices de poluição de Ulan Bator ultrapassam os de cidades como Pequim e Nova Délhi, cujo ar é reconhecidamente de má qualidade

Bryan Denton, The New York Times

22 Março 2018 | 15h00

ULAN BATOR, Mongólia - Faz tempo que os mongóis recorrem ao folclore para explicar o quanto os invernos locais são terrivelmente frios.

Durante a primeira das nove fases do inverno, cada uma composta por nove dias, começando em 22 de dezembro, diz-se que a vodca feita do leite congela. Durante o terceiro conjunto de nove dias, quando as temperaturas podem alcançar os quarenta graus negativos, tanto na escala Fahrenheit quanto na Celsius, diz-se que o rabo de um boi de três anos cai. Lá pelo sexto conjunto de nove dias, em meados de fevereiro, espera-se que as estradas ressurjam sob o gelo e a neve.

Mas, para os quase 1,5 milhão de habitantes da capital, Ulan Bator, a infelicidade do inverno é definida agora quase que exclusivamente pela fumaça que emana das chaminés da cidade. Desde 2016, além de ser a capital mais fria do mundo, a cidade registra também os níveis mais altos de poluição do ar, ultrapassando megacidades conhecidas pela poluição, como Pequim e Nova Délhi.

De acordo com números do governo local, cerca de 80% da poluição do ar de Ulan Bator é produzida por pouco mais de metade da população, que vive nos distritos do norte da cidade, formados pelos chamados gers, a habitação tradicional nômade que é central para o estilo de vida pastoril dos mongóis.

O ger, ou iurte, é uma tenda circular composta por um único cômodo, com as camas e móveis de uma família dispostos em torno do dispositivo que torna possível a sobrevivência nesta arquitetura simples em meio a um clima tão inóspito: uma estufa. O ger pode ser colocado na caçamba de um caminhão e montado em questão de poucas horas.

Centenas de milhares deixaram para traz o estilo de vida pastoril dos nômades na esperança de encontrar oportunidades na próspera cidade mineradora que a capital se tornou.

Durante a era comunista, as terras pertenciam ao estado, mas, a partir de 1991, definiu-se que as terras pertencem aos cidadãos da Mongólia, gerando confusão quando os recém-chegados à cidade tomaram terras e alegaram serem donos delas.

Nos anos mais recentes, os trabalhadores migrantes de renda baixa e média que habitam esses distritos não planejados têm queimado mais de um milhão de toneladas de carvão bruto por ano. Aqueles que não podem pagar pelo carvão costumam queimar lixo, acrescentando o plástico e outros poluentes à mistura tóxica.

No dia 30 de janeiro, uma estação medidora da poluição em Ulan Bator registrou 3.320 microgramas por metro cúbico de ar, volume 133 vezes superior ao considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde, e mais de seis vezes o volume considerado tóxico.

Em janeiro, o primeiro-ministro Ukhnaagiin Khurelsukh anunciou que o uso de carvão bruto em Ulan Bator seria proibido a partir de abril de 2019 como parte de uma tentativa de melhorar a qualidade do ar na cidade.

Foram oferecidos subsídios para a compra de aquecedores menos poluentes e, a partir de janeiro de 2017, a eletricidade em muitos dos distritos mais poluidores da cidade passou a ser oferecida gratuitamente à noite.

Mas o custo dos aquecedores elétricos capazes de esquentar adequadamente um lar pouco isolado do frio de um dia de inverno está muito além das possibilidades de muitos nos distritos de iurtes. A eletricidade não subsidiada é mais cara e menos disponível que o carvão.

Muitos se mostram céticos diante da possibilidade de o governo da Mongólia ser capaz de fazer valer a proibição ao carvão.

"É um conto de fadas", disse Khangai Unurkhaan, 25 anos, que vende carvão bruto a granel. “Há milhares de famílias que mineram, vendem e queimam o carvão para sobreviver”.

Mas os moradores concordam que algo precisa ser feito. Por causa da poluição do ar, "uma gripe simples se torna facilmente um caso de pneumonia ou bronquite", explicou Soyol-Erdene Jadambaa, imunologista de uma clínica particular. "Torna-se necessário tratamento de longo prazo".

Mas o engenheiro Batmend Shirgal alertou: "Se tirarmos o carvão dos iurtes, as pessoas vão queimar qualquer coisa, até os pneus dos carros e as cercas dos seus vizinhos. É difícil sobreviver com temperaturas de -30°C". / Munkhchimeg Davaasharav contribuiu com a reportagem.

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