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Capoeira: dança como forma de resistência à escravidão no Brasil

Em Permangolinha, um retiro de três dias onde a capoeira atende à agricultura sustentável

Seth Kugel, The New York Times

02 Janeiro 2019 | 06h00

VALENÇA, BRASIL - O mestre de barba branca e cabeleira rasta, e o seu discípulo de cabelos eriçados se enfrentam em um local entre árvores de cacau e pés de café. Os dois se movem constantemente para frente e para trás em um movimento chamado ginga - fundamental na capoeira dos jogos de luta brasileira. Às vezes, usam fintas e chutes, rolam por baixo e por cima, ao redor um do outro, numa dança que parece coreografada.

Mas de repente um deles faz algo que o outro não espera, e fica claro que esse é um jogo de estratégia. A ginga de Mestre Cobra Mansa se transforma nos passos de um bêbado, e depois numa marionete cujo manipulador afrouxou os fios. Então se planta de cabeça para baixo sobre as mãos. Nesta posição, estica uma perna para fora como um raio, parando pouco antes de atingir o rosto do adversário.

As pessoas em volta dos dois lutadores entoam um canto hipnótico que fala do encontro com uma cobra. O ritmo é marcado por tambores afro-brasileiros e berimbaus, um instrumento de uma corda só. Os participantes são na maioria brasileiros, mas há também uruguaios, russos, etíopes, e porto-riquenhos. Eles vieram para o sítio de 32 hectares de Mestre Cobra Mansa, nos arredores de Valença, uma pequena cidade costeira da Bahia, para um retiro de três dias chamado Permangolinha. O nome (e o objetivo) é uma mistura do sistema de agricultura sustentada conhecido como permacultura e a Capoeira Angola, o estilo ensinado pelo Mestre Cobra Mansa, 58.

O Mestre Cobra Mansa adquiriu esta propriedade, hoje chamada Kilombo Tenondé, há cerca de 15 anos e transformou o antigo pasto, adequando-o à prática da permacultura, em que as plantações se desenvolvem em um ambiente que reflete a interdependência de uma floresta.  Segundo ele, esta é uma maneira de trazer os praticantes da capoeira - ele cresceu nos arrabaldes pobres do Rio de Janeiro - de volta para a terra, da qual saiu grande parte da tradição da capoeira.

A capoeira evoluiu dos jogos de combate trazidos para o Brasil pelos escravos africanos. Cultivando esta tradição como uma dança, os escravos a mantiveram como uma forma de resistência e de autodefesa. Depois que o Brasil aboliu a escravatura em 1888, a capoeira passou a ser olhada com desconfiança pelas autoridades, e muitas vezes os seus praticantes eram atacados ou presos.

A criação da Capoeira Regional, nos anos 30, uma prática mais formalizada que imitava aspectos das artes marciais orientais, permitiu que ela saísse das sombras. A Capoeira Angola segue uma linha mais original, concentrando-se nos aspectos culturais  e espirituais.

“Não quero machucar alguém”, disse Mestre Cobra Mansa. “Ela é um equilíbrio entre a beleza e a eficiência”. Então, é uma dança, uma luta ou um esporte? “Se um sujeito faz um movimento de ‘rabo de arraia’ e mata alguém, você vai escrever sobre isto na seção de arte?”, perguntou Mestre Cobra Mansa. “Não, mas é arte!”

Os participantes observam imediatamente que o seu impacto vai muito além do jogo físico. “É tudo”, disse Elena Kilina, uma russa de 30 anos que mora em São Paulo. “É música, instrumentos, uma outra linguagem, é um estilo de vida”. Como tantas coisas no estado da Bahia - música, culinária, a prática do sincretismo religioso conhecido como Candomblé, está ligada à África. Mestre Cobra Mansa batizou a propriedade de Kilombo Tenondé, como eram chamados os quilombos, as comunidades fundadas por escravos fugidos.

Ricardo René Díaz Ortiz, um jovem de 23 anos que ganhou uma bolsa na área de educação no Brasil, define a capoeira como “um instrumento de auto-descolonização” que ele nunca encontrou em Porto Rico, onde nasceu. E acrescentou: “Na minha opinião, a capoeira se torna uma maneira de nos relacionarmos com uma ancestralidade que nos foi roubada”.

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