Amara Eno/The New York Times
Amara Eno/The New York Times

'Isto também é cara de advogada': uma jovem negra abre o caminho

Alexandra Wilson está lutando para mudar, por dentro, o sistema jurídico da Inglaterra e as percepções sobre quem pode integrá-lo

Megan Specia, The New York Times - Life/Style

23 de novembro de 2020 | 05h00

LONDRES – Quando chegava a um tribunal de Londres pronta para defender alguém acusado de roubo, tudo parecia só mais um dia típico de trabalho para Alexandra Wilson. Ela prendeu o cabelo num coque elegante, vestiu a toga preta e pôs a peruca branca de crina de cavalo – a indumentária oficial dos advogados que atuam nos tribunais superiores da Inglaterra, os quais defendem a maioria dos casos perante à corte.

Mas, quando ela entrou na sala do tribunal, as coisas saíram do roteiro. Numa postura condescendente que, na melhor das hipóteses, pareceu rude e, na pior, hostil, o promotor, um homem branco mais velho, zombou de Wilson, repreendeu-a por falar com seu cliente e resmungou diante de seus pedidos para ver detalhes dos documentos judiciais.

Infelizmente, era um dia bem típico para Wilson nessa profissão em que, como jovem negra, ela muitas vezes luta para ter respeito e reconhecimento. “Certamente, acontece com muitos advogados negros”, disse ela depois da sessão. “Minha competência sempre é subestimada”. Em setembro, num incidente que ganhou as manchetes no Reino Unido – e gerou um pedido público de desculpas do chefe interino do sistema judiciário do país – Wilson foi repreendida ao entrar no tribunal para defender seu cliente, uma das três vezes em que ela foi considerada ré naquele dia.

Wilson escreveu sobre o episódio num post no Twitter que logo viralizou e disse que o incidente lançou luz sobre questões mais amplas do sistema de justiça. “Para mim, foi a verdadeira revelação de que os negros são criminalizados desde o momento em que alguém põe os olhos neles”, disse ela. “Como posso garantir aos meus clientes que o sistema é justo se as pessoas, ao ver um negro, já sentenciam que ele é criminoso?”.

É também por isso que ela quer ocupar esse lugar. “Achei que a melhor maneira de fazer a diferença era entrar nesse sistema que é tão problemático e mudar tudo por dentro”, disse ela. “É fácil denunciar todos os problemas. Precisamos parar e pensar: ‘Como vamos resolver isso?’”.

Aos 25 anos, filha de pai negro caribenho e mãe britânica branca vinda da classe trabalhadora, ela ainda é uma raridade nos corredores cavernosos das cortes britânicas. Suas observações corajosas sobre raça e classe atraíram milhares de seguidores no Twitter, inspiraram um livro sobre suas experiências e a levaram a fundar uma comunidade para mulheres negras nas profissões jurídicas.

Com pouco mais de um ano de carreira, ela está só começando. Um tweet que ela postou alguns meses antes de se tornar advogada praticante, no início de 2019, trazia uma foto dela em seu traje oficial e as palavras: “Isto também é cara de advogada”. Foi seu primeiro tweet a chamar atenção.

As estatísticas mais recentes do Conselho da Ordem dos Advogados, o órgão regulador da profissão na Inglaterra e no País de Gales, sobre a diversidade entre os advogados britânicos são cruéis. Quase 100 anos depois de as primeiras mulheres se tornarem advogadas, em 1922, elas representam apenas 38% da profissão e 16% dos advogados em postos mais altos, conhecidos como Conselho da Rainha. E os negros representam apenas 3,2% de todos os advogados e 1,1% dos mais que ocupam cargos mais altos.

Um relatório de 2018 observou que os candidatos negros encontram barreiras significativamente maiores para entrar na carreira do que seus pares brancos e têm menos chances de serem contratados como estagiários.

No entanto, os negros estão sobrerrepresentados na população carcerária, mostram os dados do Ministério da Justiça, constituindo cerca de 12% da população carcerária, mas apenas 3% da população total na Inglaterra e no País de Gales. O resultado, Wilson observou, são tribunais criminais onde as pessoas em posições de autoridade são predominantemente brancas e os réus são desproporcionalmente negros.

“Se existe uma representação desproporcional de negros no lado errado da lei, sendo empurrados pelo sistema”, disse ela, “e eles não veem nenhum negro os defendendo, como eles podem confiar em nós?”. Ela se especializou em direito penal e de família na esperança de maximizar o impacto que ela poderia fazer. Também é integrante do One Case at a Time [Um Caso por Vez, em tradução livre], uma iniciativa para financiar e oferecer representação legal para pessoas negras.

“Não podemos simplesmente nos enganar, pensando que todos têm exatamente as mesmas chances de vida e que todos estão em igualdade de condições, porque não é assim”, disse ela. Wilson cresceu como a mais velha de quatro irmãos em Essex, uma área do sudeste da Inglaterra que faz fronteira com Londres. Seu pai nasceu na Inglaterra, filho de pais jamaicanos que imigraram para o país junto com uma leva de outros trabalhadores do Caribe da chamada “Geração Windrush”.

Sua mãe veio de uma família britânica da classe trabalhadora e cresceu num conjunto habitacional do estado. Ambos conquistaram o diploma universitário quando adultos e agora são professores. Wilson credita a eles sua própria ambição e perseverança. Quando ela tinha 17 anos, a morte de um amigo próximo que fora esfaqueado em Londres por causa de um engano de identidade a forçou a examinar o sistema com mais atenção”.

Para mim, foi a primeira vez em que realmente comecei a entender como a cor da pele era importante”, disse ela, “porque não tinha absolutamente nenhuma dúvida de que, se ele fosse branco, não teria sido morto naquele dia”. Ela acompanhou o caso do amigo nos tribunais e começou a estudar outros casos também. Depois da morte dele, ela entendeu que queria uma carreira que lhe permitisse enfrentar as desigualdades raciais no sistema de justiça. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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