Meghan Dhaliwal para The New York Times
Meghan Dhaliwal para The New York Times

Caravana de imigrantes afeta turismo em cidade mexicana

Problemas na fronteira entre EUA e México vêm prejudicando a economia nas imediações de Rosarito

Paulina Villegas, The New York Times

01 Fevereiro 2019 | 06h00

ROSARITO, MÉXICO - Uma longa fila de cavalos sem montaria trotava pela praia. Seu dono não conseguia ver um único visitante que pudesse se interessar por um passeio. Os vendedores de praia tinham desistido de procurar compradores, e agora relaxavam na areia.

Dentro do Rosarito Beach Hotel, o silêncio era interrompido apenas pelo som das ondas do oceano. A cidade turística de Rosarito, no México, que costuma transbordar de jovens americanos festejando nas lotadas casas noturnas, era um cenário de desolação. Ainda que o inverno não seja a alta temporada, os moradores dizem que os negócios nunca foram tão mal.

"Não é normal: está tudo vazio!", disse Luis Pacheco, garçom do Papas and Beer, um popular bar de beira de praia. "O lugar costumava estar cheio de gente", contou, apontando para as fileiras de coloridas cadeiras de madeira na praia.

Aqueles cujo sustento depende dos visitantes americanos atribuem a acentuada queda no movimento de turistas aos recentes episódios caóticos na fronteira perto de Tijuana, cidade vizinha, 25 quilômetros ao norte, onde uma caravana de imigrantes da América Central chegou em novembro, com centenas deles reunidos em abrigos superlotados.

"Foram incidentes isolados que criaram uma imagem negativa e distorcida da situação na fronteira, e estamos todos sofrendo por causa disso", disse Ricardo Argiles, diretor-executivo da empresa proprietária do Rosarito Beach Hotel.

Para muitos, Rosarito é uma alternativa mais interessante do que Tijuana e, até recentemente, os jovens californianos vinham à cidade em grandes números nos feriados e fins de semana. Muitos moradores locais partilham da visão de Argiles, segundo a qual as reportagens negativas a respeito da situação na fronteira estariam afastando os turistas vindos da Califórnia.

De acordo com Argiles, o incidente que mais assustou os turistas do Sul da Califórnia foi o fechamento do posto de entrada de San Ysidro, em novembro, quando um grupo de imigrantes invadiu o lugar, sendo recebidos com gás lacrimogêneo pelos agentes da alfândega americana. Desde então, houve uma queda de 60% nos quartos ocupados do Rosarito Beach Hotel, disse Argiles, e a propriedade teve seu pior mês de dezembro em décadas.

O farmacêutico John Aslanyan, de San Diego, costuma visitar Rosarito com frequência e disse que não conseguiu convencer a noiva a se juntar a ele num passeio de um dia pela cidade. Ele contou que a noiva estava nervosa com a possibilidade de uma repetição do fechamento da fronteira visto em novembro - uma preocupação, segundo Aslanyan, partilhada por muitos de seus amigos.

O analista Moises Espitia, do Centro Metropolitano de Informações Econômicas e de Negócios, um grupo de pesquisas local, disse que o estrago financeiro causado pelo fechamento da fronteira foi sentido particularmente pelo setor de serviços e turismo. No dia do fechamento, os mais de 59 mil restaurantes e hotéis nas áreas metropolitanas de Tijuana e Rosarito tiveram prejuízo coletivo de US$ 6,7 milhões, estimou Espitia.

Os imigrantes centro-americanos foram geralmente bem recebidos no México. Mas, com a queda no número de turistas e o aumento da frustração e instabilidade em Rosarito e outras partes do país que dependem dos turistas, alguns moradores, furiosos, começaram a responsabilizar a caravana de imigrantes.

"Eles chegam aqui com uma atitude arrogante, exigindo coisas, e abusaram da ajuda que oferecemos, alegando que estão fugindo da violência ou da pobreza, mas somos todos pobres", disse Jorge Medina, gerente da casa noturna Bombay Beach, em Rosarito. Ele disse que os negócios despencaram quase 80% nos dois meses mais recentes.

Dados do governo, nem sempre confiáveis, apontam uma queda de apenas 4% na taxa total de ocupação de hotéis de Rosarito em dezembro ante o mesmo período de 2017, e as autoridades locais argumentaram que a queda recente no número de visitantes não pode ser explicada unicamente por questões ligadas à imigração. Mas, com a narrativa do governo Trump cada vez mais hostil à imigração, as autoridades estão preocupadas com perdas econômicas de prazo mais longo.

Abel Ortega, proprietário do restaurante Villa Ortega's, em Puerto Nuevo, comunidade localizada ao sul de Rosarito, lembrou de quando a fila de frequentadores ansiosos para entrar dava a volta no edifício. Ortega disse que nessa mesma época do ano passado, tinha em média 20 reservas por dia, número reduzido para apenas duas ou três. 

"Agora, é como uma cidade fantasma", disse ele.

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