Todd Heisler; THE NEW YORK TIMES
Todd Heisler; THE NEW YORK TIMES

Caravana de pessoas rumo aos Estados Unidos expõe crises da América Latina

Violência e crise econômica dos países impulsionaram surgimento de caravana

Ioan Grillo, The New York Times

03 Novembro 2018 | 06h00

CIUDAD HIDALGO, MÉXICO - Caminhando rumo aos Estados Unidos por causa das crises em seus países, a longa fila de homens e mulheres enfrentava a pé a travessia do Rio Suchiate. Segurando uma corda, eles percorriam a linha invisível que divide a Guatemala do México. Outros avançavam nas águas lamacentas com seus bebês e crianças sobre balsas lotadas feitas com pneus.

No dia 20 de outubro, eu estava observando esta maré de seres humanos, quando o sol se pôs, milhares haviam conseguido chegar do outro lado da fronteira para continuar a marcha rumo ao norte. Muitos mais cruzaram o rio nos dias seguintes, engrossando a caravana dos desesperados e dos determinados que está abalando os governos de Honduras e Washington.

Donald Trump usou a caravana - um contingente de milhares de cidadãos da América Central que se uniram para juntos percorrerem o caminho até o México e dali aos Estados Unidos, fugindo da violência e da pobreza desesperadora - como um instrumento político. “Acho que os democratas tiveram algo a ver com isso”, afirmou no dia 22 de outubro, definindo-o como “um assalto ao nosso país” em que se misturam “pessoas muito más”.

Ele chegou a afirmar que “gente do Oriente Médio” estava no meio do grupo, embora admitisse que não há provas disso. O Departamento de Defesa dos EUA está enviando 5.200 soldados para a fronteira meridional dos Estados Unidos com a missão de bloquear os migrantes, impedindo que peçam asilo.

A caravana é mais do que um motivo para declarações equivocadas e reações exageradas, e mais do que um instrumento para atiçar os temores do eleitorado às vésperas das eleições. Ela é um lembrete gritante de que a América Latina sofre uma crise prolongada dos refugiados que exige soluções.

A grande maioria dos migrantes vem de Honduras, embora salvadorenhos, nicaraguenses e guatemaltecos também tenham se unido a eles. Desde que a caravana se formou na cidade hondurenha de San Pedro Sula, no dia 13 de outubro, de centenas de pessoas cresceu para milhares. Sua escala reflete o sofrimento dos hondurenhos com a violência incessante, o tumulto político e a pobreza brutal. “Esta não é uma movimentação normal”, afirmou um migrante ativista, Rubén Figueroa, em Tapachula, no México. “É um êxodo”.

É impressionante que tantas pessoas tenham se unido - usando a força do seu número como arma para se defenderem dos criminosos que poderiam sequestrá-las, e dos policiais que poderiam detê-las e deportá-las. Mas o México é apenas um dos corredores cada vez mais amplos de pessoas que fogem de suas casas. A Costa Rica está recebendo milhares de fugitivos da Nicarágua, onde centenas de pessoas foram mortas na repressão do governo contra os protestos. Colômbia, Brasil e Peru por sua vez enfrentam um enorme fluxo de venezuelanos.

Há três fenômenos que forçam estas pessoas a se pôr a caminhar. O primeiro é a violência da criminalidade, com taxas catastróficas de assassinatos, e gangues que usam extorsão e sequestros. O segundo é o retorno ao autoritarismo, acompanhado pelo uso da violência letal das forças de segurança para calar os que protestam contra governantes autocráticos. O terceiro é o fracasso econômico, que empurrou o povo para a extrema pobreza. Alguns países enfrentam os três problemas ao mesmo tempo.

Quando entrevistei aqui alguns membros da caravana, muitos deles, inclusive um estudante de 18 anos, Daniel Martinez, disseram que fugiam dos criminosos. No caso do jovem, membros de uma gangue em San Pedro Sula exigiram que trabalhasse para eles. Daniel sabia que sua recusa equivaleria a uma sentença de morte.

Em junho, na cidade mexicana de Tenosique, conheci Francis Gusmán, 32, que ficou paralítica depois de ser atingida por disparos na espinha dorsal na cidade hondurenha de Yoro. Seu marido e uma amiga se revezaram para carregá-la por 58 quilômetros da fronteira da Guatemala até um abrigo. Ela estava em Tenosique com o filho de 12 anos e a sobrinha de 13, que ficou órfã quando a irmã de Francis foi assassinada, em fevereiro.

No ano passado, o México recebeu mais de 14 mil pedidos de status de refugiados - sete vezes mais do que os 2 mil apresentados em 2014. Alguns integrantes da caravana afirmam que querem ficar no México e procurar refúgio, enquanto outros querem seguir até os Estados Unidos.

As pessoas que fogem da pobreza são consideradas migrantes econômicos e não refugiados. Entretanto, em algumas partes da América Latina, as pressões econômicas que motivam as pessoas a sair são extremas. Em Honduras, cerca de dois terços da população vivem na pobreza, que se agravou com a seca e o tumulto político. Na Venezuela, algumas pessoas são obrigadas a procurar comida no lixo.

O desespero pode ser visto na caravana entre as famílias com crianças pequenas que dormem em praças lotadas. Houve gente que disse ter ouvido falar da caravana pela televisão e que, em poucas horas, decidiu unir-se a ela. Muitos estão viajando sem nada e sem dinheiro. Muitos vestem roupas dadas ao longo do caminho. Muitos não sabem até onde irão, mas esperam por algum lugar que lhes ofereça uma vida melhor.

No que diz respeito às forças que contribuem para a crise dos refugiados, não há soluções fáceis. Os governos da região deveriam reunir-se para discutir a crise - com ou sem a presença dos Estados Unidos. Quanto à questão da ajuda, ela precisa ser canalizada de maneira mais eficiente para chegar até os pobres. Além disso, são necessários esforços concretos a fim de deter o fluxo de armas para as gangues que aterrorizam as comunidades.

O pedido de Trump para que se abandone o internacionalismo não ajudou. Mas esta é uma questão que se estenderá além da sua presidência. Se os problemas de fundo não forem solucionados, as filas de pessoas atravessando a pé os rios fronteiriços talvez aumentem ainda mais.

Ioan Grillo é o autor do livro “Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields, and the New Politics  of Latin America”.

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