Todd Heisler /The New York Times
Todd Heisler /The New York Times

Caravanas centro-americanas inspiram migração para os EUA

Milhares de pessoas viajam juntas, sem precisar de coiotes, narcotraficantes ou crime organizado

Kirk Semple e Elisabeth Malkin, The New York Times

07 Novembro 2018 | 06h00

TAPACHULA, MÉXICO - Uma noite, no mês passado, uma caravana com milhares de migrantes da América Central se instalou em Tapachula, no sul do México. Dias mais tarde, um novo grupo, desta vez com centenas de pessoas, se espalhava pela praça principal. Agora, há mais dois a caminho.

O fato de a primeira caravana, que saiu de Honduras e Guatemala, ter conseguido chegar ao México, agora inspira outras pessoas a viajar em grandes grupos, derrubando a lógica típica da migração centro-americana aos Estados Unidos por trocar a invisibilidade pela segurança das multidões.

“Todo mundo quer formar outra caravana”, disse Tony David Gálvez, 22, um trabalhador rural hondurenho, da segunda caravana. A nova estratégia intensifica os sentimentos contrários à imigração nos Estados Unidos. 

O presidente Donald J. Trump definiu a primeira caravana, que saiu de Hunduras no dia 12 de outubro, como uma ‘horda de invasores’. Ele enviou tropas para a fronteira com o México e estuda a possibilidade de assinar um decreto para fechar a fronteira aos migrantes.

Os migrantes destas caravanas, conscientes da oposição de Trump ao seu ingresso nos Estados Unidos, estão a par da chegada das tropas na fronteira. Mas muitos, movidos por uma profunda convicção, acreditam que quando chegarem à fronteira, Trump se comoverá e abrirá as portas para eles.

Os defensores dos migrantes, como Miroslava Cerpas, do Centro de Pesquisa e Promoção dos Direitos Humanos em Tegucigalpa, a capital de Honduras, adverte que eles poderão ser separados, deportados ou mesmo feridos. Muitos, profundamente religiosos, “acreditam que ocorrerá um milagre, que algum Moisés aparecerá” para guiá-los, ela disse. “Para estas pessoas, esta é a caravana da esperança”.

Trump pressionou os governos da América Central e do México a impedirem que os migrantes sigam para o norte. Os presidentes da Guatemala e de Honduras, que estão em apuros à frente de governos acusados de corrupção, ordenaram às suas polícias que detenham os grupos. Os migrantes simplesmente desfilaram na frente da polícia enviada para impedir que avançassem.

As autoridades mexicanas parecem sensíveis à oposição que poderão atrair com a repressão do governo Trump aos migrantes. Ao mesmo tempo, estão preocupadas em  manter as sólidas relações do México com os Estados Unidos.

O governo mexicano convidou os migrantes a apresentarem pedidos de asilo, e cerca de 2,2 mil aceitaram a oferta, informaram funcionários no final de outubro. A migração ilegal não é um crime no México, explicou o ministro do Interior, Alfonso Navarreta Prida. “Esta é uma população vulnerável”.

Mas, está claro que o México não terá condições de controlar o fluxo de centro-americanos. Vários migrantes da nova caravana afirmaram que se inspiraram no sucesso do primeiro grupo, que entrou no país com relativa facilidade.

Com todos juntos, a viagem se torna mais barata, disse o reverendo Mauro Verzeletti, um padre católico que dirige o abrigo Casa Del Migrante, na Cidade da Guatemala. Segundo ele, os migrantes poderão livrar-se da ”estrutura dos coiotes, dos narcotraficantes ou do crime organizado” que controla há anos a rota, cobrando milhares de dólares.

Quando a primeira caravana saiu de San Pedro Sula em Honduras, só havia umas centenas de pessoas. Milhares de outras se juntaram a ela ao chegar à Guatemala. Os migrantes entraram rapidamente em confronto com a polícia da Guatemala e do México no Rio Suchiate, que demarca um trecho da fronteira entre os dois países. Mas os esforços para deter o seu avanço enfraqueceram diante das dimensões da multidão, naquela altura: cerca de 7 mil pessoas.

Nova caravana se formou na cidade hondurenha de Comayagua, com 350 pessoas, segundo alguns migrantes. Ao cruzar a fronteira na Guatemala, já eram 1,5 mil. Mais migrantes se uniram a ela na Guatemala. Um deles, Marvin Tol, 35, de Escuintla, Guatemala, disse que pensava há algum tempo em tentar migrar para os Estados Unidos em busca de trabalho. Mas a notícia da passagem da caravana o inspirou a acelerar a sua partida.

Quando o segundo grupo chegou à fronteira no sul do México, houve um confronto. Os migrantes jogaram garrafas e pedras contra a polícia que revidou com gás lacrimogêneo, disseram testemunhas. Um migrante foi morto.

Mas, no dia seguinte, os integrantes da caravana formaram uma corrente humana e atravessaram a pé o Suchiate. Fuzileiros navais mexicanos não intervieram, segundo carregadores que trabalham naquele trecho do rio.

No México, a primeira caravana recebeu enorme apoio. Mas os próprios migrantes têm consciência de que os que seguirem o seu caminho talvez não encontrem a mesma recepção. A caravana é como um hóspede em uma família, disse Gálvez, rindo. “No primeiro dia, ele tem cheiro ruim - no terceiro, fede.”/ Paulina Villegas contribuiu para a reportagem

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