Amy Lombard / The New York Times
Amy Lombard / The New York Times

Produtores de carne trazem pratos vegetarianos para o cardápio principal

A carne derivada de vegetais está se tornando ingrediente típico da dieta de um número cada vez maior de pessoas que se preocupam com questões de saúde e ambientais

David Yaffe-Bellany, The New York Times

20 de novembro de 2019 | 06h00

As startups Beyond Meat e Impossible Foods, que compartilham o compromisso de proteger o meio ambiente, dominam o mercado relativamente novo de alimentos vegetarianos que parecem feitos de carne e têm sabor de carne. Mas, com a carne derivada de vegetais se tornando cada vez mais popular, um grupo de novas empresas começou a produzir carne vegetariana: os conglomerados e produtores de carne que essas startups pretendiam incialmente derrubar. Nos meses mais recentes, empresas como Tyson, Smithfield, Perdue, Hormel e Nestlé apresentaram alternativas vegetarianas.

A carne derivada de vegetais está se tornando um ingrediente típico da dieta de um número cada vez maior de pessoas que buscam reduzir o consumo de carne animal em meio a preocupações ambientais e de saúde. Analistas dizem que o mercado global de alternativas à carne derivadas de vegetais e desenvolvidas em laboratório pode chegar a US$ 85 bilhões já em 2030. “Observamos uma demanda crescente", percebeu John Pauley, executivo da Smithfield, uma das maiores produtoras americanas de carne suína. “Seria tolice não prestar atenção a essa tendência.”

Em setembro, a Nestlé lançou o Awesome Burger, seu hambúrguer vegetariano. A Smithfield lançou uma linha de hambúrgueres, almôndegas e salsichas derivada da soja, e a Hormel começou a oferecer carne moída vegetariana. A Tyson está lançando um hambúrguer metade carne, metade vegetariano. E a Perdue está comercializando nuggets mistos, misturando carne de frango com “nutrição vegetal” derivada da couve-flor e do grão-de-bico.

“Quando empresas como Tyson e Smithfield lançam produtos de carne vegetarianos, isso tira o segmento da carne vegetariano do seu nicho e o coloca no grande mercado", argumentou Bruce Friedrich, administrador do Good Food Institute, que defende a adoção da carne derivada de vegetais.

Mas a ascensão dessas empresas de carne no mercado também trouxe inquietação entre os ativistas ambientais, para os quais essas empresas poderiam cooptar o movimento. Glenn Hurowitz, que administra o grupo Mighty Earth, destacou que, durante anos, as grandes empresas do petróleo compraram startups do segmento de energia limpa e as desativaram. “Fazer investimentos modestos em proteína vegetal é certamente algo positivo por parte dessas empresas", afirmou ele, mas “isso não cancela todo o efeito da poluição que elas causam."

Sabor e textura de carne

Faz tempo que o diretor executivo da Impossible Foods, Pat Brown, descreve a criação da imitação de carne como um imperativo ambiental: “Cada aspecto da indústria alimentar derivada dos animais causa muito mais dano ambiental do que um sistema derivado de plantas, além do uso ineficiente dos recursos."

Nem todos os novos rivais se mostram idealistas. Seu objetivo é simplesmente ganhar dinheiro. “Somos uma empresa que produz carne, acima de qualquer outra coisa", disse Pauley. “Não vamos pedir desculpas por isso.”

Isso não é necessariamente um problema para o futuro da carne vegetariana. Qualquer produto derivado de plantas que for adicionado às prateleiras do mercado representa uma vitória, dizem muitos defensores desse segmento.

Ainda assim, Brown enfatizou que o sucesso do movimento depende de recriar com sucesso o sabor e a textura da carne. “Se o resultado forem hambúrgueres vegetarianos trazidos para o grande mercado, o problema para nós não está na concorrência", garantiu. “A questão é que isso sublinha a percepção do consumidor segundo a qual um produto vegetariano não seria capaz de proporcionar aquilo que os amantes da carne desejam.”

A Beyond Meat não está preocupada. O diretor executivo Ethan Brown (nenhum parentesco com Pat Brown) disse que o foco estreito da empresa em produtos derivados de vegetais faria com que ela se destacasse. Mas, sob certos aspectos, as startups dedicadas ao segmento da carne vegetariana estão ficando mais parecidas com as grandes empresas do setor alimentício. A Beyond Meat tem valor de mercado avaliado em quase US$ 9 bilhões, o equivalente a um terço da Tyson. “Não quero colaborar com eles", assegurou Ethan Brown. “Quero ser uma empresa como a deles.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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