Keith Oshiro para The New York Times
Keith Oshiro para The New York Times

Colombiana aposta na arte como ativismo ambiental (e social)

Carolina Caycedo espera reorientar a nossa relação com o mundo natural e com a riqueza de água da terra

Tess Thackara, The New York Times

08 de novembro de 2019 | 06h00

Nas imagens de Carolina Caycedo, rios e riachos parecem levantar-se nas pernas traseiras. As cachoeiras correm ao contrário e para os lados, ou se espalham em um leque de formações caleidoscópicas. Seus “retratos d’agua”, como os chama, têm todo um programa estético: Através da sua obra, a artista colombiana espera reorientar a nossa relação com o mundo natural e com a riqueza de água da terra.

“Ela não é apenas um mineral, ou um ‘recurso renovável’, como alguns ainda definem a água; na realidade, é um agente político, uma entidade viva dotada de alma, de uma cobra grande”, afirma, conjurando as comunidades que vivem ao longo do Rio Xingu na Amazônia, que acreditam que o caminho do rio seguiu a marca serpeante deixada por uma grande cobra.

Suas esculturas pendentes - que ela chama de cosmotarrayas, ou cosmoredes - também propõem uma abordagem mais delicada dos recursos naturais do planeta. Feitas de redes de pesca que ela buscou nas comunidades ribeirinhas, basicamente na América Latina, elas parecem criaturas do mar, apanhadoras de sonhos, ou anéis de luz cósmicos. As esculturas serão exibidas no Instituto de Arte Contemporânea de Boston, em janeiro.

“A rede me fascinou desde o começo”, afirma  “Quando ela se rasga, não compromete a sua utilidade, pode ser reparada. Então comecei a pensar: como seria bom se a nossa sociedade começasse a servir mais como uma rede de pesca e não como o muro de uma barragem!”

As barragens das hidrelétricas também aparecem constantemente em suas obras de arte. “Be Damned” é uma série atual - composta de imagens, instalações, performances, apresentações e livros - que analisa o impacto social e ambiental da domesticação dos rios para gerar energia.

“Uma barragem é a obra de uma empresa, impenetrável, irremovível”, disse Carolina. “Ela corta o corpo do rio em duas partes. Corta o fluxo do ecossistema. Por outro lado, temos a rede de pesca, que é feita pelo homem, em pequena escala, porosa, flexível, maleável. Ela deixa a água passar, mas capta o sustento”.

A obra de Carolina Caycedo fala aos apelos do mundo inteiro para a criação de proteções legais dos direitos da natureza. A artista trabalha com grupos como o Movimiento Ríos Vivos que protesta contra a construção de barragens na Colômbia e defende os direitos dos rios e das comunidades que elas afetam. A América Latina é talvez um dos centros do mundo de construção de barragens, mas foi também uma pioneira ambiental. Cada cidadão deste continente, diz Carolina, “pode denunciar o ecocídio de um rio, de uma montanha, de uma floresta”.

A Ríos Vivos batalha para a criação de uma comissão da verdade ambiental depois da conclusão do acordo de paz da Colômbia com as FARC, em 2016, e este ano contribui para a Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia, que declarou a natureza uma vítima da guerra de guerrilha. “Acreditamos que a natureza também tem sido uma vítima e um prêmio, um butim da guerra”, diz a artista. “E como todas as outras vítimas desta guerra, ela precisa de reparações”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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