Will Matsuda/The New York Times
Will Matsuda/The New York Times

Das ruínas de uma Lamborghini pode nascer um 'novo' supercarro

Não é uma ideia barata, e exige alguma habilidade, mas quem encontra seu carro dos sonhos destruído e o reconstrói tem motivos para se gabar, além de um veículo novo

Mercedes Lilienthal, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 05h00

PORTLAND, Oregon - Sob a traseira da Lamborghini Huracán de Chris Steinbacher há um motor Chevy. Sim, é um modelo twin turbo, que produz incríveis 900 cavalos de força, mas sua origem é Detroit, e não a Itália. E o restante do carro foi basicamente montado em Portland.

Talvez os fãs mais puristas de Lamborghini prefiram parar por aqui.

Dada como morta, esta Lamborghini é um dos supercarros recuperados de Steinbacher. Ele a comprou - o que restava dela, na verdade, após um incêndio que quase rachou o veículo em dois - por US$ 40 mil, recebendo a entrega através de uma empilhadeira (uma Huracán nova pode custar algo perto de US$ 300 mil, e a de Steinbacher, incrementada a partir do modelo de 2016, alcança patamares semelhantes). As peças usadas na "ressurreição" custaram cerca de US$ 50 mil, um total com desconto que ele manteve baixo com a ajuda dos patrocinadores de seu canal no YouTube, B Is for Build, que tem perto de 1,5 milhão de seguidores.

Ferraris alagadas e McLarens amassadas são facilmente encontradas em sites de leilões como Copart e Impact Auto Auctions. A maioria dos envolvidos nesse universo trabalha com dinheiro, disse Steinbacher, mas algum financiamento pode ser obtido. Bem mais complicado é definir o que acontecerá com esses carros estragados quando chegam à sua garagem, mas, com dinheiro e dedicação, um carro dos sonhos pode estar ao alcance.

Alguns anos atrás, Steinbacher era engenheiro sênior de software e queria construir carros esportivos únicos. “Comecei no início de 2015, e não sabia nada a respeito de carros", disse ele ao comentar o próprio canal no YouTube, onde aprendeu conforme se envolvia no assunto. “Em janeiro de 2017, a empresa para a qual eu desenvolvia software foi fechada, e eu passei a me dedicar ao YouTube em tempo integral.”

Quando descobriu que poderia comprar supercarros sucateados por uma fração do seu preço no mercado de usados, Steinbacher foi “fisgado", disse ele. Começou a comprar carros arruinados e consertá-los nos fundos de casa.

Para alguns reconstrutores destacados, o YouTube é uma fonte essencial de know-how, e ninguém vai se queixar da receita vinda da publicidade.

“Adoro o trabalho manual", disse Rich Benoit, de Boston, dono do canal Rich Rebuilds. Formado em ciência da computação, Benoit seguiu trabalhando “até dominar os Teslas, Audis e, agora, a BMW i8", disse ele.

“Supercarro é uma palavra engraçada", acrescentou Benoit. “Construí vários modelos de alto padrão, como Teslas e Audis RS7, mas a i8 é meu primeiro ‘supercarro’ em si.” Todos foram construídos na casa de sua família. Sua adaptação favorita foi instalar um motor V-8 em um Tesla.

Quando trocou o escritório pelas peças, Steinbacher sabia pouco a respeito de carros, mas ele aprende rápido. Perdeu a conta dos carros em que trabalhou depois que fez mais de 50 modelos, e disse que ficou com cerca de 25 deles.

Seu canal no YouTube ajudou a financiar o “vício em montar carros", disse ele. Acrescentou que não se importaria de ter outro emprego, “mas o fato de ter mais horas para trabalhar nos carros significa que ficam prontos mais rápido, e posso ousar mais nas ideias".

O conserto desses carros pode realizar sonhos a uma fração do seu preço. Com as habilidades ou conexões necessárias para fazê-los funcionar, esses modelos podem custar muito menos do que seus equivalentes nos salões do automóvel.

Em Clackamas, Oregon, Tommy Saenz já trabalhou em cerca de 200 supercarros durante os quase 20 anos à frente da Tommy’s Window Tinting.

Os clientes já lhe trouxeram Ferraris 488 Spider e algumas Mercedes-Benz SLS AMG, bem como a joia da coroa, um Corvette 1958 de US$ 2,8 milhões que vai estrear na exposição desse ano da Specialty Equipment Market Association (SEMA).

“É capaz de a pessoa conseguir seu carro dos sonhos pela metade do preço", disse Saenz. “Mas é preciso aceitar que seria um carro reconstruído a partir da sucata.”

Para amadores como Benoit e Steinbacher, parte da atração está na emoção da caçada. O “achado" mítico, a descoberta de uma velharia clássica que só precisa de uma limpeza? Seria fácil demais.

Ao conversar com os reconstrutores, um tema é recorrente: um supercarro que se envolveu em um acidente só vai causar mais problemas a não ser que seja consertado direito. É um passatempo que exige muito dinheiro e trabalho.

“Pode-se economizar em muita coisa", disse Saenz. “Não é necessariamente obrigatório substituir uma peça de fábrica por outra.”

Todos os esforços na garagem podem valer a pena.

A Huracán de Steinbacher exigiu o trabalho de três homens por cinco meses antes de eles revelarem seu Burntacan. O custo total? Menos de US$ 100 mil. “Foi uma maneira criativa de alcançar o dobro da potência original a um custo bem menor do que metade da substituição do motor", disse ele.

Além do motor LS Chevy V-8 e a troca da transmissão, o twin turbo e uma carroceria personalizada em fibra de carbono completaram esta Lamborghini única.

Que Steinbacher saiba, ninguém antes tinha criado uma Huracán de transmissão manual. Muito menos um modelo que parece um marshmallow esquecido sobre a fogueira no acampamento.

Seu próximo projeto é usar a doação de um chassi Huracán 2016 e construir com ele um carro de rally Mint 400 completo, “transformando-o em um modelo de corrida resistente para o deserto", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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