A custosa busca por veículos autônomos continua, apesar dos percalços

A custosa busca por veículos autônomos continua, apesar dos percalços

Muitos no Vale do Silício prometeram que carros autônomos seriam algo comum em 2021. Agora, a indústria está redefinindo as expectativas e se ajustando para mais anos de trabalho

Cade Metz, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2021 | 05h00

Há sete anos, a Waymo descobriu que as flores da primavera faziam com que seus carros autônomos ativassem seus freios e provocassem movimentos bruscos. Assim como bolhas de sabão. E sinalizadores de estrada.

Novos testes, após anos de exames, revelaram mais e mais distrações para os carros sem motorista. Suas habilidades na estrada melhoraram, mas igualá-las à competência dos motoristas humanos era difícil. As estradas desordenadas dos Estados Unidos acabaram se revelando como um lugar assustador para um robô.

Os feiticeiros do Vale do Silício disseram que as pessoas já estariam indo para seus trabalhos em seus carros autônomos a esta altura. Em vez disso, houve brigas na Justiça, ferimentos e mortes e dezenas de bilhões de dólares gastos em uma tecnologia frustrantemente instável que alguns pesquisadores dizem que ainda está a anos de se tornar a próxima grande novidade da indústria.

Atualmente, a busca por carros autônomos está passando por uma redefinição. Empresas como a Uber e a Lyft, preocupadas em gastar todo seu dinheiro na busca pela tecnologia autônoma, desistiram dela. Apenas aquelas com grandes orçamentos, como a Waymo, que é uma subsidiária da empresa-mãe da Google, a Alphabet; gigantes da indústria automobilística; e algumas startups estão conseguindo se manter no jogo.

No final de abril, a Lyft vendeu sua unidade de veículos autônomos para uma subsidiária da Toyota, a Woven Planet, em um acordo avaliado em US$ 550 milhões. A Uber transferiu sua unidade de veículos autônomos para outro concorrente em dezembro. E três conhecidas startups de carros sem motoristas se venderam para empresas com orçamentos muito maiores ao longo do último ano.

As gigantes da tecnologia e do setor automobilístico ainda podem ter que trabalhar arduamente durante anos em seus projetos de carros sem motorista. Cada uma gastará de US$ 6 bilhões a US$ 10 bilhões adicionais antes de a tecnologia se tornar comum - em algum momento por volta do fim da década, de acordo com estimativas da Pitchbook, uma empresa de pesquisa que monitora a atividade financeira de mercados públicos e privados. Mas mesmo essa previsão talvez seja otimista demais.

“Esta é uma transformação que vai acontecer ao longo de 30 anos e possivelmente mais do que isso”, disse Chris Urmson, um dos primeiros engenheiros do projeto de carro autônomo da Google antes de ele se tornar a unidade de negócios da Alphabet chamada Waymo. Ele agora é o CEO da Aurora, empresa que adquiriu a unidade de veículos autônomos da Uber.

Então, o que deu errado? Alguns pesquisadores diriam que nada - pois é assim que a ciência funciona. Você não pode prever completamente o que acontecerá em um experimento. O projeto do carro autônomo apenas coincidiu de ser um dos experimentos tecnológicos mais badalados do século, podendo ser visto em ruas de todos os Estados Unidos e sendo administrado por algumas de suas empresas de maior destaque.

Essa forte divulgação atraiu bilhões de dólares em investimentos, mas criou expectativas pouco realistas. Em 2015, o chefe bilionário da montadora de carros elétricos Tesla, Elon Musk, disse que os carros autônomos totalmente funcionais estavam a apenas dois anos de distância. Mais de cinco anos depois, os carros da Tesla oferecem uma autonomia mais simples projetada exclusivamente para dirigir em rodovias. E até mesmo ela tem sido alvo de polêmica após vários acidentes fatais (que a empresa atribuiu ao uso indevido da tecnologia).

Mas talvez nenhuma empresa tenha experimentado as turbulências do desenvolvimento de carros sem motorista de modo mais intermitente do que a Uber. Depois de contratar 40 especialistas em robótica da Universidade Carnegie Mellon e adquirir uma startup de caminhões autônomos por US$ 680 milhões em ações, a empresa alcançou um acordo em um processo judicial com a Waymo, que foi seguido por uma confissão de culpa de um ex-executivo acusado de roubar propriedade intelectual. Um pedestre no Arizona foi morto em um acidente com um de seus carros sem motorista. No fim das contas, a Uber basicamente pagou a Aurora para adquirir sua unidade de veículos autônomos.

Porém, para as empresas com grandes orçamentos, a ciência, elas esperam, continua a avançar a cada trajeto percorrido melhorado por vez. Em outubro, a Waymo alcançou um marco importante: lançou o primeiro serviço de táxi "totalmente autônomo" do mundo. Nos subúrbios de Phoenix, Arizona, qualquer pessoa agora pode andar em uma minivan sem um motorista ao volante. Mas isso não significa que a empresa adotará imediatamente sua tecnologia em outras partes do país.

Dmitri Dolgov, que recentemente assumiu o cargo de co-CEO da Waymo depois da saída de John Krafcik, um veterano da indústria automobilística, disse que a empresa considera seu serviço no Arizona um caso de teste. Com base no que aprendeu lá, ele disse, a Waymo está criando uma nova versão de sua tecnologia de direção autônoma que será utilizada em outros lugares e outros tipos de veículos em algum momento, inclusive em caminhões de baú longo.

Os subúrbios de Phoenix são particularmente apropriados para carros sem motorista. As ruas são amplas, há poucos pedestres e quase não chove ou neva. A Waymo dá suporte a seus veículos autônomos com técnicos remotos e equipes de assistência rodoviária que podem ajudar a tirar os carros de apuros tanto pela internet como indo até o local.

“Os veículos autônomos podem ser utilizados hoje em certas situações”, disse Elliot Katz, um ex-advogado que orientou muitas das grandes empresas de veículos autônomos antes de lançar uma startup, a Phantom Auto, que oferece um software para assistência e operação remota de veículos quando eles estão presos em situações difíceis. “Mas você ainda precisa de um humano a par de tudo”.

A tecnologia de direção autônoma ainda não é ágil o suficiente para lidar de forma confiável com a variedade de situações com as quais os motoristas humanos se deparam todos os dias. Ela dá conta dos subúrbios de Phoenix, mas não consegue imitar a audácia humana necessária para entrar no Túnel Lincoln, em Nova York, ou o ímpeto para pegar uma saída na Rota 101, em Los Angeles.

“Você tem que tirar cada camada antes de ver a próxima camada” de desafios para a tecnologia, disse Nathaniel Fairfield, engenheiro de software da Waymo que trabalha no projeto desde 2009, ao descrever algumas das distrações enfrentadas pelos carros. “Seu carro tem que ser muito bom em dirigir antes que você possa colocá-lo de verdade em situações nas quais ele lida com a próxima coisa mais desafiadora”.

A Uber e a Lyft não estão desistindo totalmente dos carros sem motorista. Mesmo que isso talvez não ajude os resultados financeiros por um bom tempo, elas ainda querem usar veículos autônomos em parceria com as empresas que ainda estão trabalhando na tecnologia. A Lyft agora diz que os trajetos realizados com carros autônomos poderiam começar em 2023.

“Esses carros serão capazes de funcionar em um conjunto limitado de ruas sob um conjunto limitado de condições climáticas em determinadas velocidades”, disse Jody Kelman, um executivo da Lyft. “Seremos capazes de utilizar esses carros com segurança, mas eles não serão capazes de ir a muitos lugares.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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