Christina Gandolfo para The New York Times
Christina Gandolfo para The New York Times

Carros sem chaves de ignição ocultam perigo silencioso e mortal

As empresas fabricantes resistem a instalar um aviso de que o motor do automóvel continua funcionando

David Jeans e Mailje de Puy Kamp, The New York Times

22 Maio 2018 | 10h00

Pareceria um óbvio recurso prático nesta era digital: um carro que liga e desliga pela simples pressão de um botão, e não girando mecanicamente uma chave. Mas esta conveniência pode causar a morte.

No ano passado, Fred Schaub estacionou o seu Toyota RAV 4 na garagem anexada à casa, na Flórida, e entrou com o chaveiro sem fio, evidentemente achando que o motor estaria desligado.

Vinte e nove horas mais tarde, foi encontrado morto, sufocado pelo monóxido de carbono que invadiu a casa enquanto ele dormia.

“Meu pai, que dirigiu por 75 anos, achou que levando a chave com ele ao sair do carro, o motor estaria desligado”, disse o filho de Schaub, Doug.

Schaub é uma das cerca de 30 pessoas que morreram pela aspiração de monóxido de carbono nos Estados Unidos desde 2006, por deixarem um veículo sem chave de ignição inadvertidamente funcionando na garagem. Muitas outras acabaram sofrendo sequelas, algumas com danos cerebrais.

Timothy Maddock e sua namorada Chasity Glisson foram encontrados desmaiados no banheiro da casa da jovem, na Florida, em 2010, depois que ela sem querer deixou seu Lexus funcionando na garagem. Chasity morreu e Maddock teve danos cerebrais.

A Mercedes-Benz patenteou a ignição sem chaves em 1997 e a lançou como recurso em seus veículos na Alemanha, em 1998.

A ignição sem chave agora é comum em muitos veículos novos. Os motoristas carregam um chaveiro que transmite um sinal de rádio o qual liga o motor do carro mediante o toque de um botão. Mas tendo abandonado o hábito de girar e retirar a chave que desliga o motor – principalmente os mais velhos – podem se enganar com os carros mais novos com um motor mais silencioso, achando que ele parou de funcionar.

Há sete anos, a associação dos principais responsáveis pela elaboração de normas automotivas, a Sociedade dos Engenheiros Automotivos, pediu a introdução de alguns recursos, como uma série de bips para alertar os motoristas de que o motor continua funcionando sem a chave no carro ou perto dele, e em alguns casos desligar o motor automaticamente.

Nos Estados Unidos, a National Highway Traffic Safety Administration propôs uma regulamentação que previa uma modificação do software ao custo de alguns centavos por veículo. Mas com a oposição da indústria, a agência engavetou o plano.

Por enquanto, as autoridades reguladoras dizem que dependem das fabricantes de veículos para a incorporação voluntária destes recursos. Mas uma pesquisa realizada com 17 companhias automotivas pelo jornal “The New York Times” constatou que enquanto algumas delas foram além da adoção destes sinais, outras se mantêm bem aquém.

A Toyota tem um sistema de três sinais externos ao carro indicando que o motor continua ligado. Mas quando os engenheiros da Toyota determinaram a necessidade de sinais de advertência mais eficientes – como luzes piscando ou um tom único – a companhia rejeitou a recomendação, de acordo com um testemunho em uma ação movida contra a empresa por morte por negligência.

Os modelos da Toyota, incluindo o Lexus, figuram em quase 50% dos casos com vítimas fatais ou com sequelas por causa do monóxido de carbono identificadas pelo “New York Times”. A Toyota declara que o seu sistema sem chave de ignição “atende a todas as normas federais de segurança mais relevantes”.

Algumas construtoras projetaram modelos que alertam de maneira mais insistente o motorista de que o motor continua funcionando – ou que o desligou depois de algum tempo. Agora, os veículos sem chave da Ford têm um sistema que desliga automaticamente o motor quando este fica mais de 30 minutos parado se a chave não está no veículo, informou recentemente a companhia.(Segundo um processo, a Ford começou a introduzir o recurso em 2013).

Mas muitos veículos de fabricação anterior não foram adequados a fim de reduzir os riscos, apesar do custo modesto que isto implicaria. A Ford Motors gastou US$ 5 por automóvel com a instalação do sistema de desligamento automático em um recall de 2015, segundo um relatório da própria empresa.

O comandante do Corpo de Bombeiros da Flórida viu tantos casos do gênero que passou a distribuir detectores de monóxido de carbono. Enquanto isso, as ações contra as companhias continuam aumentando.

Pesquisas em notícias de jornais, ações em tribunais, registros policiais e de bombeiros e relatos de incidentes, realizadas por grupos de defesa dos consumidores, o “New York Times” identificou 28 mortes e 45 casos de sequelas desde 2006, mas a cifra pode ser mais elevada.

Foi constatado que o nível do gás na residência de Schaub estava pelo menos 30 vezes superior ao que um ser humano pode suportar.

“As plantas dentro de casa perderam as folhas”, disse Doug Schaub, o filho da vítima.

No funeral, os familiares velaram o corpo de Schaub e quiseram que ele levasse consigo o quepe dos tempos em que servira como detetive no Departamento de Polícia de Nova York. “Meu pai não será o último a morrer desta maneira”, lamentou Doug Schaub.

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