Maddie McGarvey para The New York Times
Maddie McGarvey para The New York Times

Com setor de mineração em crise, as mulheres vão ao trabalho nos EUA

Minas paradas e uma mudança cultural nos lares

Campbell Robertson, The New York Times

17 de novembro de 2019 | 01h00

FLEMING-NEON, Kentucky - Antes do amanhecer, Amanda Lucas começa a jornada de carro até o hospital onde trabalha, a uma hora de distância de sua casa. No passado, eram os homens que saíam para trabalhar antes do sol nascer. Eles passavam os dias no subsolo, minerando carvão - como tinham feito seus pais e, frequentemente, também seus avós.

O marido de Amanda, Denley, trabalhava em uma mineradora grande, com benefícios generosos e um salário anual de US$ 100 mil, incluindo as horas extras. Ela ficava em casa para cuidar dos quatro filhos do casal. “Tínhamos uma vida boa”, afirmou ela.

Então, tudo mudou. Este verão, o Condado de Letcher foi atingido por uma onda de pedidos de falência de mineradoras, que demitiram seus funcionários. Houve pouca discussão: a indústria do carvão está afundando na região. A única questão é descobrir o que evitará que as pessoas afundem com ela. De 2010 a 2017, o Condado de Letcher testemunhou uma grande mudança no equilíbrio entre os gêneros na força de trabalho, a maior em comparação aos outros condados dos Estados Unidos. Há gerações, o trabalhador arquetípico do montanhoso leste do Kentucky era um homem musculoso coberto de pó de carvão. Somente 10 anos atrás, aproximadamente três quintos da força de trabalho eram masculinos. Agora, mais da metade é feminina.

De acordo com estatísticas oficiais, o número de empregos ligados à mineração no Condado de Letcher diminuiu para 100 este verão; no início de 2009, eram mais de 1.300. A mineração sempre teve altos e baixos na região, mas a impressão atual é que essa baixa poderá ser a última. As mulheres sempre encontraram trabalho em épocas de vacas magras, ganhando o suficiente para sustentar as famílias até a atividade das minas ser retomada. Quando isso acontecia, as mulheres frequentemente voltavam a ser donas de casa. Mas somente socorrer a família não é mais suficiente.

As mulheres do Condado de Letcher ainda ganham salários substancialmente menores que os homens. Mas, em um lugar assolado por doenças crônicas e overdoses de opioides, os trabalhadores permanecem em constante demanda por assistência de saúde. “Não manteríamos metade das enfermeiras que mantemos se ainda tivéssemos as minas de carvão”, afirmou Ciara Bowling.

Desde quando ela consegue se lembrar, a única coisa que sonhava em ser era mulher de um mineiro de carvão. Mas Ciara, 25 anos, saiu do ensino médio durante um período de baixa do carvão. A maioria das colegas com quem ela trabalhava - na loja de artigos baratos, depois na Pizza Hut, depois no McDonald’s - era formada por mulheres de mineiros desempregados. A ideia sempre foi largar o emprego quando o marido encontrasse trabalho.

Sem as minas, porém, isso era quase impossível. O noivo de Ciara, Blake Johnson, estava procurando trabalho nas minas quando ela se matriculou em uma faculdade local para se tornar auxiliar médica. “Tudo que a gente quer fazer é cuidar do marido”, afirmou ela. “Mas quando isso não dá certo, temos de ir trabalhar.”

Amanda e o marido começaram a ter essa conversa quando a indústria do carvão começou a ruir. Mesmo antes de ele ser demitido, o casal já observava que minas estavam fechando. Mais de uma década depois de ter largado a faculdade, Amanda, 38 anos, teve a ideia de retomar os estudos.

“Para ser sincero, eu não queria isso”, afirmou Denley. Ele considerava uma obrigação garantir que sua mulher não tivesse de trabalhar, uma obrigação que ele havia mantido por 18 anos.

Mas Amanda queria ajudar, afirmou Denley, e então ele não se opôs. Um programa do governo para famílias de mineiros pagou os estudos de Amanda e dava ao casal dinheiro para os gastos cotidianos. Depois de formada, Amanda começou a trabalhar como terapeuta respiratória. O emprego vem com seguro saúde, mas o salário não se equipara com o que Denley costumava ganhar nas minas. A família aprendeu a viver com menos. Ele trabalha em construção sempre que consegue, mas ainda não descartou a possibilidade de retornar ao subsolo.

Já Ciara havia finalmente encontrado a vida que sempre quis: seu marido achou trabalho nas minas. Então, em agosto, ele foi demitido.

Johnson tinha poucas ilusões a respeito do trabalho nas minas de carvão. Ele queria voltar para os estudos, segundo afirmou, para conseguir um emprego melhor e poupar Ciara de ter de trabalhar.

Ela tinha outras ideias. “As coisas mudaram”, afirmou Ciara. Ela não abandonou os estudos quando Johnson conseguiu emprego na mineração, como teria feito anteriormente. Agora, a perspectiva de independência era real, de não ter de se submeter a um marido porque ele paga as contas. “As mulheres agora sentiram um gostinho da liberdade”, afirmou Ciara.

Ela acrescentou: “Esses homens todos não sabem o que está para acontecer”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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