Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Casa de Ópera em Palermo simboliza o declínio da máfia italiana

Inaugurado em 1897, o Teatro Massimo, em Palermo, sobreviveu a momentos de abandono

Rod Nordland, The New York Times

29 Março 2018 | 10h00

PALERMO, ITÁLIA - Aqui está um teste rápido para o aficionado de ópera. A maior casa de ópera da Itália está em Milão, Veneza ou Palermo?

Palermo? Sim, o Teatro alla Scala de Milão pode ter mais assentos, e o La Fenice em Veneza é um século mais velho, mas o Teatro Massimo de Palermo é facilmente o maior da Itália; imponente, é um edifício neorromântico de 7.700 metros quadrados que domina o horizonte da capital siciliana. Na Europa, apenas o L'Opéra, em Paris, e a Ópera Estatal de Viena são maiores.

O Teatro Massimo não é bem conhecido internacionalmente, mas é uma casa de ópera com uma história que poucos locais artísticos podem igualar.

A história do teatro foi turbulenta desde o início. Ele foi imaginado como a aposta da Palermo do século XIX pela credibilidade cultural europeia, quando Sicília e Itália estavam em plena expansão. Porém, levou 33 anos para ser planejado e construído, abriu suas portas em 1897, mas fechou  após duas temporadas e não reabriu até 1901.

Então foi fechado novamente para reformas em 1974, quando o poder da máfia na Sicília era tal que os chefes da máfia nomeavam o prefeito de Palermo - e algumas vezes se nomeavam para essa posição. Os restauradores culparam a dominação da máfia pela degradação da cidade, e nada simbolizava mais do que o Teatro Massimo, que permaneceu fechado pelos próximos 23 anos.

"Foi um símbolo negativo da cidade", disse Francesco Giambrone, um médico de formação que administra o teatro. “Depois desses ataques, a cidade reagiu, se reconstruiu e se tornou um símbolo positivo”.

“Esses ataques” foram os assassinatos, em 1992, do magistrado antimáfia Giovanni Falcone e de outro juiz, que estava com sua esposa e seus três guarda-costas na estrada para o aeroporto de Palermo, por um carro-bomba plantado pela máfia. Os assassinatos causaram uma reação antimáfia em toda a Itália, mas principalmente em Palermo, um alvoroço que quebrou o controle da máfia sobre a cidade.

O orgulho cívico tornou-se uma maneira de rejeitar a dominação da máfia. Crianças em idade escolar responderam vigorosamente a uma campanha em que cada escola escolheu um monumento histórico para cuidar e, como diz Giambrone, a adoção do Teatro Massimo, há muito fechado e quase esquecido pelas crianças de Palermo, provocou uma onda de vergonha pública, seguida por determinação para vê-lo reaberto.

Leoluca Orlando era o prefeito na época e ele se lembra do famoso maestro italiano Claudio Abbado, na noite de abertura de 1997, no primeiro concerto no Teatro Massimo, conduzindo a renomada Filarmônica de Berlim."A reabertura é importante para a história da música no mundo, na Europa, na Itália, em Palermo", disse o Orlando citando o agora falecido maestro.

Hoje, como todas as casas de ópera na Itália, o Teatro Massimo tem lutado contra a redução dos subsídios do Estado, mas consegue preencher 80% de seus assentos pagos. E aqueles que não são fãs de ópera também ajudam. Mais de 100 mil pessoas por ano pagam por visitas guiadas ao palco gigantesco do prédio, suas três rotundas e o grande saguão.

Muitos dos visitantes são turistas estrangeiros atraídos pela aparição do teatro nas sangrentas cenas do filme “O Poderoso Chefão: Parte III”. Alguns, como Andrew Martin, professor visitante de Londres, são atraídos por sua surpreendente grandeza. "Eu não esperava ver algo assim em Palermo", disse ele.

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