Burhan Ozbilici/Associated Press
Burhan Ozbilici/Associated Press

Caso de Jamal Khashoggi melhora posição de Erdogan no mundo árabe

Presidente da Turquia constrange rival saudita, diante do assassinato do jornalista, para se beneficiar regionalmente

Carlotta Gall, The New York Times

30 Novembro 2018 | 06h00

ISTAMBUL - O presidente Recep Tayyip Erdogan não conseguiu tudo o que queria. Há semanas, o líder da Turquia vem minando seu rival regional, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, com uma sequência de vazamentos de informações de espionagem cuidadosamente orquestrada ligando o príncipe a um crime brutal: o assassinato do dissidente Jamal Khashoggi.

O presidente Donald Trump deixou claro que os Estados Unidos permanecerão ao lado de seu aliado saudita, frustrando assim o objetivo de Erdogan: passar o rival para trás e realinhar a política externa americana no Oriente Médio.

Mas isso não significa que Erdogan tenha perdido a batalha geopolítica em torno das consequências do assassinato. O episódio prova que ele pode estar em melhor posição do que quando Khashoggi desapareceu dentro do consulado saudita em Istambul em setembro.

Muito criticado após a prisão de mais de 100 mil pessoas na sequência de uma tentativa fracassada de golpe dois anos atrás, Erdogan obteve uma projeção internacional da qual necessitava muito graças ao caso. O líder turco assumiu a posição de defensor da moral, abandonada pelo presidente americano, e manteve a pressão contra a Arábia Saudita.

“Ele se colocou ao lado da imensa maioria das pessoas no mundo árabe", disse Asli Aydintasbas, pesquisadora sênior do Conselho Europeu das Relações Exteriores. “As pessoas estão indignadas, e acreditam que Erdogan está do lado certo.”

O caso de Khashoggi permitiu a Erdogan mitigar sua imagem de autoritário perante o Ocidente, potencialmente ganhando força para uma reaproximação com os EUA após o desgaste nas relações entre os dois países.

Ele encontrou aliados entre os legisladores americanos chocados com a ousadia das táticas sauditas. Antes do episódio, havia congressistas falando em punir a Turquia, colega na Otan, por causa dos recuos da democracia no país e pela compra de um sistema de defesa antimísseis da Rússia.

A Turquia pediu a abertura de uma investigação das Nações Unidas para apurar o assassinato e continua exigindo respostas, ainda que apenas para irritar o príncipe saudita, visto por Erdogan como uma ameaça. Seu governo se opõe às sanções americanas contra o Irã, o que a coloca contra o príncipe herdeiro saudita, que descreveu a Turquia como parte de um “triângulo do mal".

Apesar do sentimento antiamericano frequentemente explorado pelo governo turco, ambos os lados dão sinais de interesse numa restauração das boas relações. Os dois países também começaram o patrulhamento conjunto em Manbij, norte da Síria, onde Turquia e EUA vêm discordando. Washington apoia as forças curdas na região, mas a Turquia as considera uma grave ameaça à segurança.

Mas, num discurso de 21 de novembro no palácio presidencial em Ancara, Erdogan não mencionou o caso de Khashoggi nem o apoio dos EUA ao príncipe herdeiro saudita. Em vez disso, mostrou-se engajado na campanha das eleições locais em março, mostrando que preocupações políticas nacionais ainda são mais importantes enquanto enumerava sua mais recente lista de inimigos do estado.

As dificuldades econômicas da Turquia, que incluem uma desvalorização da lira e a alta inflação, significam que o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, de Erdogan, corre o risco de perder municípios importantes em março.

Ainda assim, Erdogan conseguiu recuperar o prestígio entre os vizinhos. “Em todo o mundo árabe, muitos reconhecem aquilo que Erdogan está defendendo", disse Asli. “É isso que importa para ele.”

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