Melissa Lyttle / The New York Times
Melissa Lyttle / The New York Times

Caso Nancy Pelosi põe em risco credibilidade do Facebook

Incidente mostrou como a rede social se tornou especialista em não diferenciar erros simples de engano deliberado, anulando sua responsabilidade como distribuidor de notícias

Kara Swisher, The New York Times

01 de junho de 2019 | 06h00

Recentemente, ao contrário do YouTube, o Facebook decidiu manter disponível um vídeo deliberada e maliciosamente manipulado para fazer parecer que Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, estava bêbada ou talvez louca. Mas ela não estava. Em vez disso, ela foi vítima de um truque óbvio e sujo por uma equipe duvidosa com uma página no Facebook chamada Politics WatchDog. O gigante das redes sociais considerou o vídeo uma fraude e diminuiu sua distribuição, mas a meia-medida claramente não funcionou. O vídeo correu loucamente pelo sistema.

A executiva de política de produtos e contraterrorismo do Facebook, Monika Bickert, teve de tentar chegar a uma justificativa convincente de por que o Facebook estava ajudando a vomitar essa vergonhosa propaganda política. "Achamos que é importante que as pessoas façam sua própria escolha sobre em que tipo de informação acreditar", disse Bickert em entrevista a Anderson Cooper, da CNN. "Nosso trabalho é garantir que recebamos informações precisas".

Isto é ridículo. A única coisa que o incidente mostra é como o Facebook se tornou especialista em obscurecer as diferenças entre os erros simples e o engano deliberado, anulando assim sua responsabilidade como principal distribuidor de notícias no planeta.

 

Nenhuma outra mídia conseguiria espalhar algo assim porque não têm a proteção imunitária que o Facebook e outras empresas de tecnologia americanas desfrutam nos termos da Seção 230 do Ato de Decência das Comunicações. A seção 230 tinha como objetivo estimular a inovação e incentivar as startups. Agora é um escudo para proteger gigantes de quaisquer regras sensatas.

 

Ao misturar censura com a manutenção responsável de suas plataformas e fornecendo “regras” que são, na verdade, apenas decisões caprichosas de um pequeno grupo de ricos e poderosos, o Facebook e outros criaram uma filosofia de liberdade para todos sem coerência.

 

O vídeo da mamãe Chewbacca é divertido, assim como os artigos do New York Times, porque o jornalismo elegante fica bem na plataforma. Mas e a mistura tóxica de propaganda e notícias falsas que é permitido despejar neste rio público sem filtros? Também é aceitável na mente claramente subdesenvolvida do diretor-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, que tem guiado seu navio em águas perigosas.

 

Não acredita em mim? Leia o que ele me disse durante uma entrevista para um podcast há menos de um ano, um comentário que, em retrospectiva, faz com que sua inatividade contra o vídeo de Pelosi pareça inevitável. Estávamos falando sobre o vil Alex Jones, o teórico da conspiração e fundador da Infowars, que Zuckerberg se recusou a remover do Facebook, apesar de ele ter violado muitas de suas políticas. O Facebook finalmente o barrou da plataforma em maio. Por alguma razão, ele mudou a conversa para o Holocausto. Isso foi um erro.

 

"Sou judeu e há um grupo de pessoas que nega que o Holocausto tenha acontecido. Eu acho isso profundamente ofensivo”, afirmou Zuckerberg. “Mas no fim do dia, não acredito que nossa plataforma deva derrubar isso porque acho que há coisas que pessoas entendem de maneira equivocada. Eu não acho que eles estão errando intencionalmente”.

 

Fiquei chocada, mas queria ouvir mais, por isso disse brevemente: "No caso dos negadores do Holocausto, eles podem estar, mas continue". Ele então prosseguiu. “É difícil se opor a uma ideia e entendê-la. Eu apenas penso, por mais abominável que alguns desses exemplos sejam, acho que a realidade é também que eu me engano quando falo publicamente. Tenho certeza de que acontece o mesmo com você. E com muitos líderes e figuras públicas que respeitamos também, e eu não acho que seja a coisa certa a se dizer: 'Vamos tirar alguém da plataforma se eles errarem, até mesmo se forem várias vezes'".

 

Este era o diálogo interno em minha cabeça quando ele proferiu esse conjunto de palavras sem sentido: O que? O que? O que? A pilha de erros idiotas de Zuckerberg era a mesma coisa que mentiras antissemitas? O mesmo que o discurso calculadamente demente de Jones? O mesmo que as manipulações astutas da Agência de Pesquisa da Internet da Rússia?

 

Será que ele não entendia a diferença entre as coisas problemáticas ditas com boa-fé e aquelas que são vomitadas pelas entranhas do ódio? Foi naquele momento que soube que o Facebook estava perdido. Do lado de fora, a empresa pode parecer preguiçosa e cínica, fazendo dinheiro à custa de qualquer coisa ou de alguém. Também parece político, como se seus executivos estivessem fazendo cálculos baseados apenas em coisas que manterão a empresa livre de problemas nesses tempos profundamente partidários.

 

E, no entanto, o Facebook remove conteúdo, como postagens que ele determina como uma ameaça à segurança pública ou de contas falsas. Bickert, a quem eu também entrevistei e que certamente fez um esforço para domar a plataforma, tentou argumentar com Cooper. “Não estamos no ramo de notícias. Nós estamos no negócio de mídia social”, ela disse, como se essa distinção pudesse apagar os milhares de crimes que ocorrem na plataforma todos os dias.

 

Evitar escolhas difíceis não funcionará: as muitas indignidades de ser um usuário do Facebook estão tornando a plataforma um lugar cada vez pior para se estar. Por ora, isso ainda tem que infectar o negócio em si, que está ganhando dinheiro e continua a crescer. Mas sem uma mão firme ao volante, o Facebook não pode fugir de um simples fato: ainda é o Facebook, e já sabemos como essa história terminará. Mal.

Kara Swisher é editora-geral do site de notícias de tecnologia Recode e produtora do podcast Recode Decode e Code Conference. 

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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