Aris Messinis/Agence France-Presse - Getty Images
Aris Messinis/Agence France-Presse - Getty Images

Casos de depressão aumentaram durante crise econômica da Grécia

Medidas de austeridade prejudicaram atendimento dos serviços de saúde

Niki Kitsantonis, The New York Times

08 Fevereiro 2019 | 06h00

ATENAS - A crise econômica da Grécia que já dura dez anos tem um custo alto: centenas de milhares de empregos foram perdidos, rendas foram cortadas e impostos aumentaram. Esperanças para o futuro foram demolidas. Para Anna, 68 anos, a crise teve consequências devastadoras. O marido dela, um motorista de ônibus aposentado, cometeu suicídio num parque dois anos atrás, aos 66 anos, depois que uma série de cortes na pensão aprofundaram seu desespero.

“Ele dizia: ‘Trabalhei tanto por tantos anos. O que recebo em troca? Como vamos sobreviver assim?'” disse Anna, que pediu para não divulgar seu sobrenome. Os casos de depressão e suicídio aumentaram preocupantemente durante a crise de endividamento grega, de acordo com estudos e especialistas da área de saúde, conforme os credores do país impuseram medidas de austeridade que prejudicaram a capacidade de atendimento dos serviços de saúde.

“A saúde mental piorou significativamente na Grécia, com uma depressão quase generalizada como resultado da crise econômica", disse Dunja Mijatovic, comissário de direitos humanos do Conselho Europeu, em relatório divulgado em novembro. Isso levou à superlotação dos hospitais e clínicas de psiquiatria e a uma alta de 40% nos suicídios entre 2010 e 2015. Os suicídios na Grécia continuam relativamente raros em relação à Europa, com cinco suicídios a cada 100 mil habitantes (a média regional é de 15,4, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde relativos a 2016).

O número de suicídios teve queda em 2016 e 2017, de acordo com números da polícia, mas aumentou novamente nos primeiros 10 meses de 2018. Em novembro, o ministério da saúde da Grécia criou uma comissão de especialistas em saúde mental para o preparo de campanhas de conscientização, bem como planos para treinar os clínicos gerais na identificação dos casos de depressão e outros problemas de saúde mental.

No hospital Evangelismos, um dos maiores hospitais públicos da capital, dúzias de pacientes recebiam tratamento nos corredores da ala psiquiátrica em abril. No verão, o sindicato dos funcionários do hospital se queixou a um promotor que a clínica estava acomodando duas vezes mais pacientes do que sua capacidade máxima, com macas estendidas nos corredores e salas dos médicos. “É como um estábulo", disse Ilias Sioras, presidente do sindicato.

O Hospital Psiquiátrico Dromokaiteio, em Atenas, também está superlotado, com alta de 12,3% nos novos casos em 2017 e funcionários convocando frequentes greves para denunciar suas condições precárias de trabalho. E, em Dafni, no Hospital Psiquiátrico Attica, que recebe apenas os casos mais graves, “o impacto da crise econômica pode ser observado no aumento do número de novos pacientes", disse a diretora Spiridoula Kalantzi, citando uma alta de 9,6% em 2017.

Uma lei de 2016 garantindo acesso gratuito ao atendimento de saúde para pacientes sem seguro proporcionou uma rede de segurança, disse Spiridoula. Mas a alta na demanda por auxílio psicológico e psiquiátrico coincidiu com a queda no número de funcionários e corte no orçamento. O gasto anual do governo com saúde mental foi cortado pela metade em 2011 e 2012, e sofreu reduções adicionais desde então. “Enquanto houver desemprego, falta de segurança e endividamento, produtos da crise financeira, este problema não será superado", disse Sioras. “Temo que a situação piore.”

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