Edgard Garrido/Reuters
Edgard Garrido/Reuters

Casos de mexicanos desaparecidos jogam luz sobre papel dos militares na guerra às drogas

Papel do exército mexicano foi ampliado e agora inclui a tarefa da manutenção da ordem

Paulina Villegas, The New York Times

17 Maio 2018 | 15h00

CIDADE DO MÉXICO - Em uma noite de dezembro de 2009, três membros da mesma família, no Estado mexicano de Chihuahua, foram levados por um grupo de homens que vestiam uniformes do exército, e nunca mais foram vistos.  

Agora, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada na Costa Rica, está examinando o desaparecimento de Nitza Paola Alvarado Espinoza, José Ángel Alvarado Herrera e Rocio Irene Alvarado Reyes. Sua história faz parte de um processo que correu nesta corte - um organismo jurídico independente com autoridade legal no México - nos dois últimos dias do mês de abril.

Ele envolve acusações de violações de direitos humanos pelo exército mexicano durante operações de combate ao narcotráfico e ao crime organizado. E mostra o impacto provocado pela militarização da segurança pública em grandes partes do país.

“O que aconteceu aos meus familiares é apenas um dos casos entre os milhares de desaparecidos”, afirmou Mitzi Alvarado, a filha de Nitza. “Nós nos tornamos a voz de milhares de mexicanos que sofrem por causa desta mesma situação”.

Enquanto os parentes esperam a decisão, prevista para o final do ano, o país enfrenta um dos períodos mais sangrentos da história recente. As estatísticas oficiais mostram que, no ano passado, a taxa de assassinatos foi a mais alta já registrada.

Em dezembro, quando o México aprovou uma lei sobre segurança que consagrava o papel das forças armadas no combate à guerra entre as gangues do tráfico, grupos de defesa dos direitos humanos alertaram que a medida geraria abusos.

As forças armadas não quiseram fazer qualquer comentário, mas o secretário da Defesa, General Salvador Cienfuegos Zepeda, defendeu os militares, afirmando que eles são a única instituição que enfrenta efetivamente o crime organizado.

Segundo as estimativas do governo, 32 mil pessoas foram dadas como desaparecidas desde 2006. Membros das forças de segurança são suspeitos em alguns casos, mas a maioria deles é atribuída a ações das gangues do narcotráfico.

Os três membros da família Alvarado foram sequestradas em Ejido Benito Juárez, uma cidadezinha ao sul de El Paso, no Texas. Na época, a guerra da droga grassava no Estado de Chihuahua, no norte do país. As autoridades não indiciaram uma pessoa sequer no caso dos Alvarado e nem apresentaram qualquer informação sobre o seu paradeiro.

Familiares depuseram perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos e afirmaram que receberam de pelo menos três investigadores a explicação de que seus parentes haviam sido presos para serem ouvidos após uma operação realizada por soldados.

Todos os investigadores posteriormente negaram tais afirmações, disseram promotores mexicanos. Eles afirmaram que investigaram os soldados, mas não encontraram nenhuma prova que confirmasse sua responsabilidade. Ao contrário, observaram que é comum criminosos usarem uniformes militares, e sugeriram que os Alvarado podem ter sido levados por narcotraficantes.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, juntamente com o tribunal, monitora os direitos humanos sob a égide da Organização dos Estados Americanos. Em 2010, a comissão instou as autoridades mexicanas a encontrar os Alvarado e garantir a proteção dos outros membros da família. Seis anos mais tarde, o organismo concluiu que os militares foram responsáveis pelos desaparecimentos. Se esta for também a decisão da corte, poderá pressionar o México a aprofundar a investigação e a processar integrantes das forças armadas.

Mitzi Alvarado e sua irmã gêmea, Nitza, tinham apenas 14 anos quando sua mãe foi levada. Nos últimos oito anos, elas e sua irmã mais nova, Daisy, andaram mudando de cidade em cidade para morar com parentes, temendo que os agentes que supostamente teriam levado sua mãe fossem atrás delas. Um parente contou que recebeu telefonemas avisando que toda a família tinha de sair do Estado de Chihuahua ou seria eliminada.

As três irmãs agora estudam no Texas, onde receberam asilo político. Oito outros membros da família ainda aguardam uma resposta ao seu pedido de asilo. “O Estado  nos deixou órfãs, isto não é justo”.

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