Andrew Seng para The New York Times
Andrew Seng para The New York Times

Economia das ruas: a vida dos catadores de material reciclável em Manhattan

Onde o aluguel mensal de um apartamento pode chegar a US$ 13,5 mil, trabalhadores tentam sobreviver

Andy Newman, The New York Times

09 de fevereiro de 2020 | 06h00

Às 15h de uma sexta-feira recente, no Upper East Side de Manhattan, a três quadras da residência oficial do prefeito, em Gracie Mansion, uma mulher chamada Rosa se aproximava de um elegante edifício anterior ao período das guerras, onde o aluguel de um apartamento chega a US$ 13,5 mil ao mês. No mesmo momento, o porteiro do prédio levava para fora cerca de 20 sacolas azuis repletas de latas e garrafas e as colocava na calçada. E entregou a Rosa alguns sacos plásticos de 190 litros vazios. “Bom proveito, tia.”

Rosa pescou nas sacolas azuis recipientes feitos de material reciclável que podem ser trocados por US$ 0,05, guardando latas e garrafas em seu saco plástico. Ela tem coletado material reciclável desde que a confecção em que trabalhava em Manhattan fechou, há mais de uma década.

Nos anos mais recentes, todo um ecossistema econômico floresceu a partir dos pontos de troca do material reciclável por depósitos de US$ 0,05. Esse ambiente inclui frotas de caminhões, brigas entre catadores no norte da ilha e entre caminhoneiros no sul, em um mercado de material reciclável, além de guerras de preços, atravessadores e desovas coordenadas de material.

Agora, as tensões estão crescendo em torno de uma proposta para expandir os tipos de bebidas aos quais a lei do depósito retornável se aplica. Isso significaria mais dinheiro para os catadores, mas uma aliança improvável entre ativistas ambientais, fábricas de bebidas e autoridades do governo é contrária à proposta.

O motorista de um caminhão menor se encontra com Rosa. Ele abre a caçamba, carrega o material dela e lhe entrega US$ 10 por cada saco com 200 latas e garrafas. Em seguida, dirige até a próxima esquina. Quando o veículo de sete metros está cheio, o motorista vai até um lote ao lado de um beco industrial, onde outros veículos levam suas cargas de materiais recicláveis.

Catar recipientes recicláveis funciona melhor para veteranos, como Rosa, que fez tratos com funcionários de prédios. Com o que ganha catando o material, pagou um curso de assistente hospitalar para sua filha de 19 anos. Naquela noite, em uma sexta-feira de novembro, ela voltou para casa com US$ 135, após cinco horas de trabalho.

O preço dos imóveis em Manhattan forçou os centros de reciclagem a se instalar fora da ilha, deixando aos catadores a alternativa de vender seu material por unidade, em máquinas instaladas em supermercados que podem lhes impor um limite de US$ 12 por dia, ou arrastá-lo até as centrais.

Nesse vazio, apareceram as empresas de reciclagem que enviam caminhões para comprar dos catadores. Dono de uma dessas firmas, Conrad Cutler tem uma expressão própria para se referir aos catadores sérios. “Temos um catálogo de ‘frasqueiros profissionais’, espalhados por todos os cinco distritos”, disse ele. Sua empresa, Galvanize Group, compra dos catadores cerca de meio milhão de recipientes recicláveis por semana.

Rosa, de 36 anos, se mudou do Equador para Nova York há 16 anos e tem duas irmãs que também trabalharam na indústria têxtil. Elas também se tornaram catadoras. No ano passado, a empresa de consultoria ambiental Eunomia estimou o número de catadores entre quatro mil e oito mil. E os operadores de aproximadamente 40 centros de reciclagem afirmaram que o número de catadores está aumentando.

Muitos dos catadores são pessoas aposentadas ou deficientes, que precisam elevar seus ganhos mensais. Poucos têm documentos e muitos acabam atraídos por um trabalho em que ninguém faz perguntas e no qual não haja barreiras em relação ao idioma. Como os empregos estáveis que exigem pouca qualificação continuam a desaparecer, catar material reciclável oferece uma salvação.

Em um ponto de coleta de Wall Street, supercatadores que têm acordos com bares chegam a conseguir mais de US$ 500 por noite vendendo as latas vazias que recolhem nos estabelecimentos. Na madrugada de uma quarta-feira, duas dezenas de imigrantes chineses empurravam seus carrinhos de supermercado lotados até os pés de uma ladeira de Manhattan próxima a Chinatown. Eles esperavam por Danny Farias, um caminhoneiro. “Esse ponto é meu”, afirmou Farias. “É assim que eu coloco comida na mesa.”

Quando ele estava prestes a ir embora, uma mulher apareceu arrastando com cordas um carrinho de supermercado carregado de sacos de latas empilhados. À sua frente, ela empurrava um outro carrinho, repleto de garrafas de vidro. A mulher, Lin Meixian, de 52 anos, tinha recolhido as latas no porão do pequeno hotel de Chinatown em que trabalha como zeladora. Farias não pôde esperar, mas arrumou um outro caminhão para levar o material dela.

Lin relatou em mandarim as dificuldades de sua vida. Ela nunca aprendeu a ler, o que dificultou que arrumasse um emprego. Seu marido passou recentemente por uma cirurgia no cérebro e não consegue mais trabalhar em restaurantes. Ela esperava obter US$ 90 por esse carregamento, o que lhe equivale a três noites de trabalho. No fim, o segundo caminhão comprou seu material.

A vida ficou tão difícil que sua sogra estava lhe mandando dinheiro da China, uma inversão no sonho do imigrante. Ela se disse grata, mas preocupada em prover para sua família. “Nunca pensei que fosse fazer esse tipo de trabalho nos Estados Unidos”, disse ela. Jeffrey Singer, Jo Corona e Sean Piccoli colaboraram com reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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