Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times
Megan Specia, The New York Times

20 de fevereiro de 2020 | 06h00

LONDRES - Em uma manhã recente, Lara Maiklem desceu rapidamente os lisos degraus de pedra que levam à margem do Rio Tâmisa. O rio corta a cidade de oeste a leste, dividindo Londres em duas enquanto serpenteia entre os novos arranha-céus e as antigas docas que ocupam suas margens.

Mas, duas vezes ao dia, a maré baixa faz recuar as águas do Tâmisa - em alguns pontos, o nível da água tem alteração de seis metros - revelando séculos de vida esquecida de Londres nos fragmentos que emergem das terras expostas, chamadas de beira-rio. É então que os catadores de lama como Lara fazem a festa.

“A ideia é procurar linhas retas e círculos perfeitos", disse ela, varrendo com os olhos a superfície da lama em busca de algum artefato. “Eles se destacam em meio às formas naturais.” Em questão de minutos ela identificou fragmentos de um alforje do século 17. O nome - catador de lama - surgiu com os pobres da era vitoriana que vasculhavam o rio em busca de artigos para vender. Mas, mais recentemente, o rótulo é aplicado aos colecionadores, fãs de história e caçadores de tesouros que caminham pela beira do rio procurando objetos do passado da cidade.

Os catadores de lama são orientados a apresentar às autoridades objetos que possam ser de interesse arqueológico. Quem encontrar algum "tesouro"- ouro e prata, moedas e peças de metal pré-históricas - deve informar ao governo britânico. O Tâmisa, razão pela qual as pessoas começaram a se instalar na cidade há mais de dois mil anos, é um dos melhores conservadores da história de Londres. O rio foi usado de muitas maneiras ao longo dos milênios - via de transporte, fonte de alimento e o mais importante (para os catadores de lama): como depósito de lixo.

No centro de Londres, muitos dos achados são da época romana ou medieval. Mais para o oeste foram encontrados evidências de assentamentos pré-históricos. Na região onde Lara explorava, em Rotherhithe, achados dos séculos 16 e 17 são mais comuns. Os olhos dela identificaram os contornos quase invisíveis de uma moeda presa a um poste de madeira. Ela tirou a peça de metal e limpou a sujeira, revelando uma moeda da época de George III, datada de 1777, com o relevo quase apagado.

Imensas vigas de madeira dos navios desmontados nos séculos 17 e 18 se projetam da lama. Acredita-se que o Mayflower tenha sido desmontado ali para sucateamento. “Há muitos fantasmas trancados na região do beira-rio", disse Lara. “Além disso, é como um tesouro efêmero, que será levado pelas águas ou decomposto se não for recuperado pela superfície.”

Lara, que já passou mais de 15 anos explorando as margens do rio, leva consigo apenas os achados mais incomuns. Para ela, suas descobertas são parte de uma história compartilhada, usando as redes sociais para mostrar o que encontra. Ela tem mais de 100 mil seguidores. “É uma forma de escapar de todo esse caos controlado", disse Lara, apontando para o panorama da cidade. “Para mim, a verdadeira Londres está aqui.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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