Karim Jaafar/Agence France-Presse
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Catar age ativamente para superar o bloqueio do Golfo

Após ação da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito, país mostra mudança para indústrias e aliados comerciais

Ben Hubbard, The New York Times

29 Dezembro 2018 | 06h00

DOHA, CATAR - Para se avaliar até que ponto o Catar se adaptou ao bloqueio imposto por seus vizinhos, basta olhar a mercearia Al Meera, em um bairro residencial da capital. As prateleiras onde os produtos locais outrora eram escassos, agora exibem leite do Catar, tecidos de Catar e pepinos de Catar.

“Isto é do Catar. Esse outro é do Catar. É tudo do Catar”, disse um supervisor, apontando para o sabão para lavar roupas, o sabão para lavar pratos e o desinfetante. A produção nacional destes itens talvez seja corriqueira em muitos países, mas no caso do Catar foi uma das medidas defensivas adotada para sobreviver a um ataque econômico e político.

Um ano e meio depois que a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Egito impuseram um bloqueio por terra e por mar, esta faixa de areia rica em gás se adequou, e reformulou a sua economia e as relações exteriores de forma a recriar um arranjo estratégico do Golfo Pérsico.

O Catar ampliou e fortaleceu seus laços militares com países como o Irã, e passou a agir de um modo que imediatamente enfureceu os seus vizinhos árabes, como a cobertura dos escândalos destes por sua rede e TV por satélite, Al Jazeera. 

“Nós fomos em frente; seguimos com a nossa economia; tratamos de continuar com a nossa vida”, afirmou em meados de dezembro o ministro do Exterior Mohammed bin Abdulrahman Al Thani no Fórum de Doha, a conferência internacional realizada na capital de Catar. O país ainda esperava uma reconciliação, prosseguiu, mas o bloqueio infligiu “uma ferida muito profunda no povo” que dificilmente poderá sanar.

Muitos países teriam entrado em colapso com as restrições impostas ao Catar por seus vizinhos maiores, que o acusaram de financiar o terrorismo, interferir em seus assuntos internos e de se aproximar excessivamente do Irã. Eles ficaram particularmente exasperados com o apoio dado por Catar aos ativistas de todo o mundo árabe, como os islamitas políticos que outros monarcas do Golfo consideram uma ameaça ao seu governo.

Os líderes do Catar negam as acusações, e afirmam que o que na realidade enfureceu os vizinhos foi a recusa do país em seguir as lideranças da Arábia Saudita e dos Emirados. A grande riqueza do país facilitou sua resistência ao bloqueio. O Catar usou generosamente seus fundos de reservas de US$ 340 bilhões para estabelecer novos parceiros comerciais, construiu indústrias nacionais e criou novas indústrias.

Em dezembro, anunciou sua decisão de abandonar a Opep, o cartel petrolífero dominado pelos sauditas. E embora continue membro do Conselho de Cooperação do Golfo, espera muito pouco deste. O Catar  gostaria de avançar em algumas questões, como na utilização do espaço aéreos dos vizinhos e o abrandamento das restrições de viagem às famílias separadas pela crise, disse Andreas Krieg do King’s College de Londres, mas isto se tornou menos urgente para a resolução do bloqueio.

“Nada os irrita ou os prejudica mais”, afirmou. “A dor que imaginam que sentiriam não é real”. Em novembro, o ministro do Exterior Thani declarou que o Catar não está mais gastando as suas reservas. “Superamos o bloqueio”, declarou, acrescentando que isto contribuíra para levar o Catar a abrir novos mercados.

Entretanto, segundo alguns economistas, o bloqueio enfraqueceu a economia do país porque o governo mobilizou suas reservas para trazer suprimentos de avião e estabilizar os bancos. A receita do turismo e os preços dos imóveis caíram, afirmam, e os preços ao consumidor subiram.

O Fórum de Doha ressaltou o novo rumo seguido pelo Catar. O governo trouxe centenas de homens de negócios, pesquisadores, jornalistas e funcionários da Ásia, África, Europa, e da América Latina. O que aumenta o orgulho do Catar é a sensação de que as feridas que a Arábia Saudita e os Emirados infligiram a si próprios redundaram em vantagem para o Catar.

O assassinato do dissidente saudita Jamal Khashoggi por agentes sauditas em Istambul manchou a reputação do reino, e os Emirados Árabes Unidos ainda estão às voltas com as consequências da condenação de um universitário britânico por espionagem em um processo que, segundo autoridades britânicas, não tinha qualquer fundamento.

Na opinião do ministro do Exterior Thani, o assassinato de Khashoggi levantou o véu que encobria a liderança “impulsiva” da Arábia Saudita. “O mundo começa a enxergar o que o Catar tem visto nos últimos 18 meses”, ele disse./ Herbert Buchsbaum contribuiu para a reportagem

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