Yagazie Emezi / The New York Times
Yagazie Emezi / The New York Times

Em busca de modernidade: cavalos de Dakar têm os dias contados

Charretes estão sendo ameaçadas pelos riquixás motorizados; funcionários as consideram um vestígio de um país mais pobre

Anemona Hartocollis, The New York Times

22 de setembro de 2019 | 06h00

DAKAR, SENEGAL - Depois de uma passagem pelo mercado para comprar mangas, peixe e um corte de tecidos, Binta Ba procurou um meio de transporte para voltar para casa. Então olhou para ver se encontrava o que ela preferia: uma charrete. Dezenas delas puxadas por cavalos faziam fila perto do mercado em Rufisque, bairro pitoresco de Dakar, conhecido por sua arquitetura colonial. Tomou lugar em uma delas, cujo condutor esperou um terceiro passageiro para ocupar o último assento antes de partir ao trote.  O preço de uma viagem de 10 minutos era US$ 0,50, uma fração do que custaria de táxi. “Tomar táxi é para gente rica”, disse. “Nós preferimos apoiar estas pessoas porque pertencem à comunidade”.

Esta é a opinião comum na capital Dakar. Mas as charretes estão sendo ameaçadas pelos riquixás motorizados. Alguns funcionários as consideram um vestígio de um país mais pobre, incompatível com uma capital em ascendência. Segundo eles, as charretes, são lentas demais, e além disso, os cavalos sujam as ruas.

A introdução de riquixás elétricos recebeu um impulso depois de uma recente visita do presidente Macky Sall à Índia. Ele trouxe 250 para testá-las em Dakar. Na cidade, as charretes puxadas por cavalos trafegam no meio dos engarrafamentos de trânsito ao lado dos táxis, dos veículos utilitários esportivos e dos carros esporte.

Identidade cultural

Segundo os cidadãos que as veem de bons olhos, elas são úteis nas ruas que frequentemente estão cobertas de areia ou estreitas demais para o tráfego de caminhões. As charretes fazem o mesmo trabalho das picapes, carregando cimento para construções e arroz para as lojas. Há muito tempo foram banidas do centro, e fala-se em proibi-las em outras ruas. Mas muitos as defendem por constituírem parte da identidade cultural do Senegal. “O cavalo é um animal sagrado nas nossas cidades”, destacou Sidy Mabaye, secretário-geral de Rufisque.

Em Ngor, bairro de gente rica em frente à praia, há um sistema informal de coleta do lixo feito por charretes. Os moradores pagam uma taxa modesta para não terem de transportar o lixo até o depósito. Mas Ngor estuda um plano para substituir as charretes por motonetas municipais, que carregariam lixeiras móveis.

Há gerações, condutores de charretes pertencem ao grupo étnico Serer. Wague Diouf conduz uma charrete pela rota do lixo em Ngor. Sua esposa e cinco filhos moram na aldeia de Mbélakadiaw, e ele volta para casa uma vez por mês para vê-los. “Qual será o futuro destes cavalos?”, indagou Diouf. “Em pouco tempo, serão obsoletos. É preciso combater esta possibilidade”. Ele tenta organizar os colegas para comprar riquixás motorizados e substituir as charretes puxadas por cavalos.

O governo senegalês está transferindo muitos moradores do centro congestionado para Diamniadio, um enorme empreendimento planejado perto do aeroporto internacional. Segundo Amadou Ndéné Ndoye, vice-diretor da missão na embaixada senegalesa na Índia, cogita-se em levar futuramente os riquixás indianos para esta cidade do futuro, onde poderiam transportar funcionários públicos e outros pelas ruas do novo centro do governo. Quanto à possibilidade de as charretes terem um lugar ali, ele não hesitou. “De modo algum”, respondeu Ndoye. “Esta será uma cidade moderna”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.