Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times
Sophie Haigney, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2021 | 05h00

NOVA YORK - Caveh Zahedi estava dentro de um armário em um apartamento no Brooklyn Heights, em um domingo recente, tentando descobrir como encerrar a história que estava contando. Falava de uma aula que teve com o cineasta Michael Roemer na faculdade. Quando Roemer viu o projeto de Zahedi, um filme intitulado Sex and Violence (Sexo e violência, em tradução literal), ele disse: "Acho que você precisa de ajuda séria; precisa realmente fazer terapia", lembrou Zahedi. Ele chorou ao ouvir essas palavras.

Zahedi contou essa história durante a 18ª sessão de gravação de 365 Stories I Want to Tell You Before We Both Die (365 histórias que quero contar antes de ambos morrermos), seu primeiro projeto desenvolvido especificamente para áudio. Zahedi, de 61 anos, é um cineasta mais conhecido por trabalhos pessoais e experimentais como o filme Eu Sou Viciado em Sexo, de 2005, e, mais recentemente, The Show About the Show (O show sobre o show), série de televisão autobiográfica iniciada em 2015, em que cada episódio mostra como foi fazer o episódio anterior.

No armário que virou estúdio de gravação, Zahedi tentou mostrar que se lembrava das palavras duras de Roemer com gratidão. Seu produtor, Leon Neyfakh, pediu a ele que gravasse o fim novamente. "Você engoliu a 'gratidão'", disse Neyfakh. "A palavra ou o conceito?", perguntou Zahedi com uma risada. Por fim, ele conseguiu se expressar de uma maneira que parecia adequada para Zahedi: "Sempre pensei nele com grande ternura e como um verdadeiro artista que tinha integridade e falava sua verdade."

Isso pode resumir uma aspiração para esse podcast, que tem sido publicado todos os dias desde 1º de janeiro. Cada episódio é uma história, geralmente de um a cinco minutos de duração. É incomumente curto e de conteúdo íntimo. Ex-esposas aparecem nas histórias, assim como ex-namoradas e paixões. Ele fala do uso de drogas, de encontros sexuais, relações familiares difíceis e projetos não realizados. Às vezes Zahedi é simpático, outras vezes nem tanto; em alguns episódios sobre a infância, é o agressor e em outros a vítima - mas ele fala das duas experiências com uma espécie de abertura exploratória sutil.

Essa honestidade é a marca registrada de seu trabalho. Durante a segunda temporada de The Show About the Show, seu casamento se desfez, e o seriado se tornou um registro do fim do relacionamento. Mas 365 Stories vai mais longe. O desafio de contar histórias diárias o levou a explorar todos os aspectos de sua vida. "Basicamente, falo de quase todas as pessoas da minha vida, e quase sempre de uma forma que não é totalmente positiva", afirmou Zahedi. Às vezes, há consequências: depois de um episódio sobre a experiência dele como doador de esperma e sobre a conexão com sua filha biológica, ela ficou profundamente irritada.

Em uma história, gravada durante esta sessão de gravação, ele contou que fez uma namorada dos tempos da faculdade soluçar de tanto chorar depois que discutiu com a sogra e a chamou de "burguesa". "Não entendi por que ela estava chorando tanto só porque sua mãe estava com raiva de mim, mas é porque ela sabia que estava tudo acabado", contou ele. Essa é uma história típica de Zahedi; ele não é o protagonista, ferindo alguém ativamente, mas retroativamente está ciente da dor, e articula esse processo de maneira tão honesta que chega a ser tocante.

O podcast começou durante o lockdown, em junho do ano passado, quando Neyfakh entrou em contato com Zahedi, dizendo que gostava de seu trabalho e sugerindo um projeto de áudio. Encontraram-se no Brooklyn Bridge Park naquele dia. "Cheguei lá e ele estava sentado em um banco com um gravador digital", lembrou-se Neyfakh. Trocaram ideias, incluindo um podcast sobre os 52 filmes que Zahedi nunca fez, mas decidiram fazer algo mais amplo, em formato breve, não muito diferente de uma mensagem de voz enviada por um amigo.

"A brevidade dessas histórias me pareceu um experimento de como algo assim poderia se encaixar na vida das pessoas", disse Neyfakh, que normalmente trabalha em projetos mais longos. (Apresenta o podcast Fiasco, é criador e ex-apresentador de Slow Burn, no Slate, e fundador dos Prologue Projects.) Zahedi grava no quarto do apartamento de Neyfakh e sua esposa. Esse podcast de formato curto é incomum em um campo cada vez mais repleto de produções de grande orçamento.

John Sullivan, professor de mídia e comunicação do Muhlenberg College, declarou que os podcasts estão se profissionalizando à medida que as empresas de tecnologia financiam mais projetos. Ele atribui isso, pelo menos em parte, ao sucesso de Serial, que serviu de modelo narrativo para um mercado que pode chegar às massas. "O que Zahedi está fazendo é uma espécie de 'blog de áudio', que era um nome alternativo para o meio no início dos anos 2000. Nos primórdios do podcast, as coisas eram mais ou menos assim."

Cada episódio, no entanto, é cuidadosamente elaborado, incluindo a música de abertura. Em episódios recentes, o amigo de longa data de Zahedi, o compositor Evan Ziporyn, começou a compor uma música de abertura curta e diferente para cada episódio. "Conheço seu senso estético, por isso pensei que teria de ser em algum lugar entre Philip Glass e os Smiths, mas no piano acústico e com cinco segundos de duração. É como escrever a primeira linha de um haicai, mas você não precisa concluí-lo", disse Ziporyn. Ele planeja reunir as 365 vinhetas em uma peça mais longa, em outro experimento artístico.

As narrativas improvisadas são gravadas em blocos, geralmente de 15 a 20 em uma única sessão. Zahedi chega com uma lista de assuntos que deseja compartilhar. Em 30 de maio, falou de um amigo que caminhou quilômetros para encontrá-lo em uma cabana na floresta. Contou uma história sobre o escritor Paul Auster, que uma vez odiou uma tradução que Zahedi havia feito de Le Dernier Homme (O último homem, em tradução livre), de Maurice Blanchot, e depois a traduziu ele mesmo. Descreveu um filme que uma vez tentou fazer sobre o artista Joseph Cornell, que nunca se concretizou. (O financiamento de projetos é um problema perpétuo para Zahedi, que está recorrendo ao crowdfunding na esperança de uma terceira temporada de The Show About The Show.)

Um ouvinte regular, William Pree, diz que costuma sintonizar assim que chega a notificação anunciando um novo episódio: "Sempre tenho três minutos."

Depois de ter gravado mais de 320 histórias, Zahedi contou que está cada vez mais difícil criar novas. Divulgá-las para o mundo mudou a maneira como ele as conta. "Estou mais ciente das pessoas que estão chateadas comigo do que quando comecei. Talvez isso tenha me tornado mais consciente, mais cauteloso, mais gentil. Também acho que tenho evitado algumas dessas histórias porque são mais sombrias", comentou.

Algumas realmente são: em uma delas, Zahedi se lembra de ter perdido uma consulta para visitar a filha de James Joyce, Lucia, em um hospital psiquiátrico na Inglaterra; mais tarde, ele descobre que ela não recebia uma visita havia anos.

Ouvir muitas dessas histórias em sequência pode ser quase insuportável. Mas há uma recompensa em ouvir o retorno elíptico de personagens e temas, construído ao longo de meses de material. É quase bizarramente íntimo ter Zahedi contando histórias singulares ao pé do ouvido, dia após dia.

Os melhores episódios de Zahedi são simplesmente momentos estranhos da vida, moldados por sua capacidade de narrá-los. Ele conta que, aos cinco anos, estava em um parquinho quando alguém lhe disse que estavam chovendo minhocas. "Eu era velho o suficiente para saber que não existe chuva de minhocas, mas jovem o suficiente para não ter certeza. Então estendi a mão, pensando que nenhuma minhoca cairia dentro dela, e uma delas me caiu na palma da mão."

 

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