Sergey Zelinski/Russian Academy of Sciences
Sergey Zelinski/Russian Academy of Sciences

Caverna Denisova é o lar de um ramo perdido da humanidade

Os misteriosos habitantes podem ter ocupado uma caverna, há mais de 250 mil anos, no que hoje é a Sibéria

Carl Zimmer, The New York Times

22 de fevereiro de 2019 | 05h00

Ao longo dos dez anos mais recentes, a Caverna Denisova, na Sibéria, produziu fósseis fascinantes. À primeira vista, não parecem ser grande coisa - alguns dentes, fragmentos de osso. Mas os fósseis contêm DNA de dezenas de milhares de anos atrás. Esse material genético mostra que o hominídeo de Denisova era um ramo distinto da evolução humana, uma linhagem perdida.

Os denisovanos se acasalaram com os humanos modernos antes de desaparecerem. Pessoas do Leste Asiático até a Nova Guiné ainda trazem traços deste DNA. Os métodos comuns de datação dos fósseis encontrados na caverna deixaram os cientistas perplexos.

"Todos disseram, 'Não temos ideia de quão antigos são esses hominídeos de Denisova'", disse a arqueóloga Katerina Douka, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha. Nos seis anos mais recentes, a Dra. Douka e outros vêm criando uma história da Caverna Denisova.

Eles dataram 103 camadas de sedimentos, além de 50 objetos encontrados nelas, incluindo ossos, pedaços de carvão e ferramentas. Os cientistas revelaram essa cronologia em estudos publicados no mês passado, mostrando que os humanos ocuparam a caverna por um período que pode chegar a 300 mil anos.

São apresentados intrigantes indícios da capacidade dos denisovanos de formular pensamentos sofisticados, comparável à dos humanos modernos. A caverna tem uma câmara principal de teto alto; a partir dali, passagens levam a câmaras menores.

Nos milhares de anos mais recentes, o sedimento se acumulou no chão da caverna. Nos anos 1970, cientistas russos começaram a escavar esse sedimento, encontrando fósseis de animais como hienas e ursos, fragmentos de ossos semelhantes aos humanos e milhares de ferramentas de pedra, além de braceletes e outros ornamentos. 

Em 2010, pesquisadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva anunciaram ter encontrado traços de DNA em dentes e ossos que estavam na caverna. Além do DNA do hominídeo de Denisova, eles encontraram alguns fragmentos de ossos que continham DNA de neandertais.

Os humanos modernos partilham com os neandertais e os denisovanos um ancestral comum que viveu há cerca de 600 mil anos. Mais tarde - há cerca de 400 mil anos - as linhagens Neanderthal e denisovana foram separadas.

Os indícios mais antigos de atividade humana na caverna - simples ferramentas de pedra - têm mais de 287 mil anos. Sozinhas, as ferramentas não podem nos dizer se esses primeiros ocupantes eram denisovanos ou neandertais. Mas elas não seguem o estilo confeccionado pelos neandertais, sugerindo que seus criadores seriam os denisovanos.

É somente a cerca de 200 mil anos atrás que encontramos os primeiros traços do DNA denisovano. Uma amostra de DNA neandertal foi encontrada numa camada formada a algo entre 205 mil e 172 mil anos atrás. 

Em agosto, pesquisadores anunciaram a identificação de um fragmento de osso de uma menina cuja mãe era neandertal e o pai, denisovano. No novo estudo, os pesquisadores estimam que essa criança híbrida tenha vivido entre 79,1 mil e 118,1 mil anos atrás. 

Os pesquisadores não encontraram restos de neandertais nas camadas mais recentes do chão da caverna - apenas vestígios de denisovanos. Há cerca de 45 mil anos, novos artefatos começaram a aparecer. Eles incluem pedaços pontiagudos de ossos, bem como ornamentos como braceletes de pedras e contas.

Os humanos modernos evoluíram na África e se expandiram para os outros continentes. Podem ter chegado ao que é hoje a Sibéria: um fóssil humano encontrado ali é de aproximadamente 45 mil anos atrás. Mas Michael Shunkov, um dos autores dos novos estudos e funcionário da Academia Russa de Ciências, discorda.

As ferramentas sofisticadas na Caverna Denisova "não apresentam sinais claros de influência externa", disse ele por e-mail. Em vez disso, ele acredita que os denisovanos que ocuparam a caverna desenvolveram sozinhos essa tecnologia.

Uma forma de resolver a questão seria encontrar fósseis humanos desse mesmo período. A Dra. Douka e seus colegas descobriram um osso que teria algo entre 45,9 mil e 50 mil anos contendo proteínas semelhantes às humanas - mas nenhum traço de DNA. Poderia pertencer a um humano moderno, a um neandertal ou denisovano. Os pesquisadores estão varrendo o chão da caverna em busca de mais fósseis.

E se os ornamentos desse período tiverem sido feito por híbridos de humanos modernos e denisovanos? "Essa dicotomia, segundo a qual o osso deve pertencer a uma categoria ou à outra, é um pouco ultrapassada", disse a Dra. Douka.

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