Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Corte de internet e telefonia acarreta em mortes na Caxemira

Meses depois de a Índia ter imposto duras medidas de segurança, médicos afirmam que isso tem custado vidas, grande parte em razão do apagão nas comunicações

Sameer Yasir e Jeffrey Gettleman, The New York Times

10 de outubro de 2019 | 06h00

HEEVAN, CAXEMIRA - Saja Begum estava fazendo o jantar quando o filho dela entrou em casa com uma expressão de medo. “Mãe”, disse ele. “Fui picado por uma cobra. Vou morrer.” Saja não podia chamar uma ambulância: o governo indiano tinha desativado a rede de telefonia celular da Caxemira. Ela iniciou uma odisseia desesperada, de 16 horas, na busca por um antídoto que pudesse salvar o filho, de 22 anos. Enquanto sua perna inchava e ele começava a perder a consciência, ela caminhava por ruas fechadas, postos de controle e médicos sobrecarregados.

Dois meses depois de o governo indiano ter imposto duras medidas de segurança em todo o Vale da Caxemira, médicos afirmam que isso tem custado vidas, grande parte em razão do apagão nas comunicações. Pacientes que compram medicamentos online ficam impossibilitados de fazerem seus pedidos. Sem o serviço de telefonia celular, os médicos não conseguem falar uns com os outros para encontrar especialistas ou trocar informações críticas sobre pacientes em situações de risco de vida.

“Mais de dez pacientes morreram porque não conseguiram chamar uma ambulância ou não conseguiram chegar ao hospital a tempo, a maioria deles vítima de problemas cardíacos”, afirmou Sadaat, um médico de um hospital da Caxemira que não quis se identificar com o nome completo.

Muitos médicos afirmaram que poderiam ser demitidos por conversar com repórteres. Alguns também acusaram as forças de segurança indianas de assediar os funcionários de saúde. Autoridades indianas rejeitam essas acusações, afirmando que os hospitais têm funcionado normalmente e que trabalhadores da área de saúde receberam salvo-conduto para circular pelos postos de controle.

Médicos do Hospital Sri Maharaja Hari Singh, em Srinagar, a maior cidade da Caxemira, afirmaram que houve redução de 50% no número de cirurgias nos dois meses mais recentes, por causa das restrições e da escassez de medicamentos. Em 13 de agosto, o filho de Saja, Amir Farooq Dar, estava cuidando das ovelhas de sua família, próximo a Baramulla, quando foi picado por uma cobra krait.

A maioria das picadas dessa espécie de serpente é mortal, caso a vítima não receba soro antiofídico em até seis horas. Saja amarrou uma corda à perna dele, esperando retardar a circulação do veneno. Ela correu, com o filho apoiado em seu corpo, para o centro de saúde de seu vilarejo, que normalmente fornece o antídoto. Estava fechado.

Ela implorou por uma carona para o hospital distrital de Baramulla. Mas os médicos de lá não localizaram nenhuma ampola de antídoto no estoque. Eles conseguiram uma ambulância para levar o jovem a um hospital em Srinagar. Soldados pararam o veículo várias vezes no caminho, afirmou a família. Dar estava perdendo a consciência. Disse à mãe que não conseguia mais sentir a perna direita.

Em agosto, o governo indiano revogou o status especial de autonomia que a região da Caxemira (também é reivindicada pelo Paquistão) manteve por mais de 70 anos. Horas antes, as autoridades indianas impuseram duras medidas de segurança, cortando a internet e os serviços de telefonia e encarcerando milhares de líderes políticos, acadêmicos e ativistas da região. O país também impôs um toque de recolher, limitando o movimento no Vale da Caxemira, que tem cerca de oito milhões de habitantes.

No fim de agosto, um médico da Caxemira, Omar Salim, andava de bicicleta em Srinagar com um cartaz pendurado no peito. Seu pedido: restabelecimento dos serviços de internet e telefonia. Ele foi preso. “Podemos não estar formalmente em uma prisão, mas isso não é nada menos do que encarceramento”, disse ele.

Um cardiologista de um hospital de Srinagar afirmou que, recentemente, tratou um paciente que sofreu um enfarte e precisava ser submetido a um procedimento que exigia a presença de um técnico especializado. Sem ter como entrar em contato com o profissional, o cardiologista dirigiu oito quilômetros até o bairro dele. O médico não sabia exatamente onde ele morava e teve de perguntar para as pessoas na rua. Ele disse que conseguiram salvar a vida do paciente, mas que a Caxemira foi “jogada na Idade da Pedra”.

Em setembro, Raziya Khan estava grávida e teve complicações. Ela e o marido são camponeses e vivem em um pequeno vilarejo a 11 quilômetros do hospital mais próximo - e não conseguiram chamar uma ambulância. Eles caminharam, o que levou horas em razão da condição dela. Conseguiram chegar ao hospital, mas foram encaminhados para um hospital maior, em Srinagar. Era tarde demais, e eles perderam o bebê.

Após horas buscando o soro antiofídico, Dar e sua família conseguiram chegar ao Hospital Soura, em Srinagar. Também faltava soro antiofídico por lá. Eles não sabiam, mas o hospital em Baramulla tinha, na verdade, o antídoto, que estava trancado em uma sala de armazenamento.

Em Srinagar, a família foi de farmácia em farmácia perguntando pelo antídoto. Saja gritou com o marido, Farooq Ahmad Dar: “Venda tudo que for necessário, mas salve a vida dele!”. Farooq Dar, 46 anos, afirmou que nunca se sentiu tão impotente. “Parecia que eu tinha uma faca enfiada no peito”, afirmou ele. Às 10h30 do dia seguinte, 16 horas depois de ser picado, Amir Dar morreu. Iqbal Kirmani e Suhasini Raj colaboraram com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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