Damir Vtow / The New York Times
Damir Vtow / The New York Times

Em um país autoritário, DJ cria espaço para jovens serem livres

“Eu queria um lugar onde as pessoas pudessem ser loucas - ser livres, gays, heterossexuais, ricos, pobres, se despir, se quiserem se despir”, disse Nazira Kassenova, DJ do Cazaquistão

Thomas Rogers, The New York Times

19 de março de 2020 | 06h00

ALMATY, CAZAQUISTÃO - Numa recente noite de sexta-feira, Mitya Koksharov estava dançando exuberantemente ao som de música techno numa antiga sauna pública. O jovem de óculos de armação escura dobrou a perna e caiu espetacularmente no chão – um movimento famoso, conhecido como “mergulho”, inventado décadas atrás na cena LGBT underground de Nova York.

Quando ele pousou e estendeu os braços, a multidão foi à loucura. Era o tipo de dança que você não esperaria ver numa antiga república soviética autoritária, mas não era uma pista de dança cazaque comum: era o Zvuk (“som”, em russo), uma balada techno bem progressista aqui de Almaty, a maior cidade do Cazaquistão.

“Este é o único lugar em que posso ser eu mesmo”, disse Koksharov, horas depois. O Zvuk é uma criação de Nazira Kassenova, DJ cazaque de 28 anos de idade que faz apresentações como Nazira. Ela estava tocando seu característico mix de techno para os 200 presentes.

Estrela do mundo da música eletrônica, Nazira se apresenta em algumas das maiores baladas da Europa, entre elas a Berghain, em Berlim, e o De School, em Amsterdã. Ela também tem um papel importante na crescente cena techno underground do Cazaquistão, que oferece um contraponto ao clima político e social repressivo. “Eu queria criar um espaço onde as pessoas pudessem ser o que quisessem – ser livres, gays, hetero, ricos, pobres. Onde pudessem tirar a roupa, se quisessem”, disse ela, antes de se corrigir. “Espere aí, ninguém tira a roupa no Cazaquistão”.

A oposição política e a liberdade de expressão são reprimidas neste país da Ásia Central rico em petróleo. Depois de trinta anos no cargo, o presidente Nursultan Nazarbayev se afastou no ano passado. Escolhido a dedo, seu sucessor Kassym-Jomart Tokayev venceu a eleição para sucedê-lo.

A comunidade LGBT enfrenta frequentes ameaças de violência e a Human Rights Watch já denunciou o problema generalizado de violência doméstica no país. Mas, quando dois manifestantes foram presos por quinze dias depois de exibir uma bandeira de protesto na maratona de Almaty, na primavera passada, houve uma onda de oposição pública ao governo nas mídias sociais e em protestos ilegais nas ruas, os quais continuaram durante o outono e o inverno.

Amir Shaikezhanov, fundador da Kok.team, uma organização de direitos da comunidade LGBT (o nome se refere à palavra cazaque para azul claro, cor associada às pessoas LGBT no país), disse que o Cazaquistão parecia ter atingido um “ponto de virada”. “A música techno é imparcial.

É o tipo de música que une as pessoas”, disse ele, ressaltando que o Zvuk é a única balada em que LGBTs e outras pessoas de mente aberta dançam livres e juntas. “Não tenho certeza se Nazira entende que tipo de impacto ela tem só pelo fato de estar aqui”. A revista de dance music Mixmag escolheu Nazira como um dos 15 DJ mais inovadores de 2019.

Habitué do Zvuk, Zhangir Mukhametkhana, de 21 anos, professor de uma escola de idiomas, disse que o passado comunista do Cazaquistão dificultou muito que os cazaques se deixassem levar. “O Zvuk é um lugar onde eu posso sair com outras pessoas e perceber que não sou o único que não gosta do que está acontecendo no nosso país”, disse ele. “Nazira criou essa atmosfera na cidade, mostrando que as coisas podem ser diferentes”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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