Tara Todras-Whitchill para The New York Times
Tara Todras-Whitchill para The New York Times

Casaquistão tenta 'desradicalizar' mulheres que se tornaram extremistas

País adota programa para tratamento do extremismo islâmico; psicólogos do governo não querem correr riscos

Andrew E. Kramer, The New York Times

17 de agosto de 2019 | 06h00

AKTAU, CASAQUISTÃO - A jovem contou que achava que viajaria de férias para a Turquia, mas descobriu que tinha chegado na Síria, segundo ela, enganada pelo marido que aderira ao Estado Islâmico. Ela jamais concordou com os ensinamentos do EI, afirmou. Mas no Casaquistão, psicólogos do governo não querem correr riscos. Eles ouviram esta história antes, e colocaram a jovem, Aida Sarina - e dezenas de outras esposas que viveram no Estado Islâmico - em um programa para o tratamento do extremismo islâmico.

“Eles querem saber se nós somos perigosas”, disse Aida, que tem 25 anos e um filho pequeno. Ao contrário da maior parte do resto do mundo, o Casaquistão recebe as mulheres como ela na volta para casa - embora com cautela, e apesar da falta de provas de que os programas de desradicalização possam funcionar - em vez de prendê-las se ousarem comparecer.

Um pequeno hotel no deserto no oeste do Casaquistão está lotado com estas jovens, vistas como suspeitas de terrorismo por diversos governos. Os homens também têm a permissão para regressar, embora enfrentem a prisão imediata e a perspectiva de uma condenação a dez anos de cadeia. Somente alguns aceitaram a proposta.

No local de tratamento, o Centro de Reabilitação de Boas Intenções, as mulheres têm direito a babás para cuidarem dos seus filhos, a refeições quentes e são acompanhadas por médicos e psicólogos. Em lugar de tratá-las como criminosas, os profissionais do centro as encorajam a falar sobre as suas experiências.

“Ensinamos a estas moças a ouvir os próprios sentimentos negativos”, explicou a psicóloga Lyazzat Nadirshina. Criados em janeiro para tratar essas jovens cujas ideias radicais só poderiam se consolidar se elas fossem jogadas em uma prisão, os serviços do centro não beneficiam apenas as mulheres, mas também a sociedade para a qual s regressarão, afirmam os organizadores.

O Estado Islâmico recrutou mais de 40 mil combatentes estrangeiros e suas famílias em 80 países em sua rápida trajetória da expansão ao colapso, de 2014 até este ano. Na Síria, as milícias curdas apoiadas pelos Estados Unidos ainda têm pelo menos 13 mil seguidores estrangeiros do EI.

Diplomatas americanos pressionam os países a repatriar os seus cidadãos, embora com pouco sucesso. O Casaquistão é o único país com um grande contingente de cidadãos na Síria e poderá repatriar todos eles - até o momento, um total de 548. O programa dura aproximadamente um mês. As mulheres têm encontros com psicólogos, são submetidas a terapia por maio da arte e assistem a peças que ensinam lições de moral sobre as armadilhas da radicalização.

“É um sucesso quando elas aceitam a culpa, quando prometem relacionar-se com os infiéis com respeito e prometem continuar os estudos”, disse Alim Ahaumetov, o diretor da ONG que ajudou a planejar o currículo. ”Não oferecemos 100% de garantia”, acrescentou.

“Se conseguirmos 80% de sucesso, ainda será um sucesso”. O horror diário da vida do Estado Islâmico levou algumas mulheres a detestar o radicalismo, disse Nadirshina. No processo de desradicalização, é possível explorar a insegurança de sua vida, afirmou, oferecendo a elas um ambiente confiável e seguro.

No entanto, a maioria dos analistas do radicalismo se recusa a ver as esposas do EI como  jovens intimidadas, controladas por maridos terroristas. Algumas chegaram a combater, enquanto outras no mínimo cuidavam dos maridos fanáticos. Lidar com estas mulheres tornou-se um enigma, porque elas mentem e se colocam em uma situação entre vítimas e perpetradoras.

Kenshilik Tyshkhan, um professor de religião que tenta persuadir as mulheres acolhidas no programa a adotar uma forma moderada de Islã, disse em uma entrevista que algumas “expressam a convicção de que um infiel pode ser morto”. E muitas mostram pouco remorso, acrescentou.

Aida se declarou curada. Segundo contou, logo depois de chegar à Síria, seu marido morreu e ela desapareceu em uma casa das viúvas, como era chamada em Raqqa, a capital do Estado Islâmico. À medida que a luta foi se intensificando, o funcionário do EI encarregado de evacuar as viúvas, as abandonou no deserto. Sobreviveram comendo grama. Algumas crianças morreram de frio nas noites gélidas.

Agora, Aida disse que é mentora de outras mulheres que voltaram para o Casaquistão, e é encarregada de explicar a elas que o EI não as protegeu, e que portanto elas devem confiar no governo. “Eu quero que o mundo saiba que a nossa reabilitação é totalmente realista”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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