Christa Schnepf
Christa Schnepf

Exposição mostra telas de sobrevivente que pintou os horrores em Auschwitz

Artista austríaca Ceija Stojka (1933-2013) transformou o pesadelo dos campos em uma arte de imenso poder; veja algumas de suas obras

Jason Farago, The New York Times

16 de fevereiro de 2020 | 06h00

MADRI - No início, os soldados do Exército Vermelho encontraram pouca coisa quando chegaram ao campo no sudoeste da Polônia ocupada naquele mês de janeiro. Em retirada, os nazistas tinham explodido os crematórios e desmantelado as câmaras de gás; os prisioneiros foram obrigados a marchar para o oeste, em meio ao frio congelante. Foi só depois, quando os soviéticos chegaram a Auschwitz, 75 anos atrás, que os primeiros sobreviventes foram encontrados, doentes demais ou jovens demais para deixar o inferno onde pelo menos 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas, das quais 90% eram judias.

Imediatamente após a guerra, escritores e filósofos afirmaram que os campos de extermínio desafiavam a representação; nenhum tipo de arte poderia fazer jus àqueles horrores. Mas os próprios sobreviventes, começando já com as memórias de Primo Levi publicadas em 1947, É Isto um Homem?, obrigaram a si mesmos a tentar compreender por meio da arte os horrores vividos.

E conforme Auschwitz se torna um capítulo da história com o desaparecimento dos últimos sobreviventes, há vozes que nem mesmo os mais céticos em relação à representação poderiam descartar. Uma delas é da artista austríaca e autodidata Ceija Stojka (1933-2013), integrante da minoria roma (também chamados de ciganos), que transformou o pesadelo dos campos em uma arte de imenso poder. Foi deportada para Auschwitz quando tinha 10 anos.

Durante mais de 40 anos, manteve-se calada a respeito de tudo que suportou. Então, o dique se rompeu: cenas de uma infância romântica e de torturas indescritíveis, pintadas com pigmento escorrido e cores ousadas. Produziu mais de mil telas e desenhos desse tipo entre 1990 e o ano de sua morte, 2013, mostrando alojamentos e vagões de gado, sádicos kapos (integrantes da polícia interna dos campos) e prisioneiros emaciados. Mais de 100 delas estão expostas no Museo Reina Sofía, em Madri, até o dia 12 de março.

Ceija era um dos seis filhos de uma família nômade que negociava cavalos. Depois que os nazistas anexaram a Áustria, eles se instalaram em Viena. Um prólogo da exposição no Reina Sofía inclui algumas das “pinturas leves” que Ceija fez da infância. Mulheres de lenço e vestido longo com o sol se pondo entre as caravanas. Girassóis florescendo como fogos de artifício.

Em 1941, o pai dela foi deportado para Dachau; posteriormente seria morto no que era chamado de “centro de eutanásia". No ano seguinte, Heinrich Himmler emitiu um decreto determinando que “todos os ciganos e mestiços” seriam deportados para Auschwitz. Ceija pintou o vagão no qual foi deportada. Chegou a Auschwitz em março de 1943. No braço recebeu a tatuagem Z-6399. O Z é abreviação de Zigeuner, “cigano". Ela também retratou essa inscrição.

Veja algumas de suas obras:

Os quadros que ela fez de Auschwitz ardem de ódio e vergonha. Prisioneiros observam dos alojamentos enquanto kapos ostentam chicotes; cativos que mais parecem espectros passam em fila única por uma carroça cheia de corpos. Mulheres nuas marcham em direção aos mortíferos chuveiros com armas apontadas para si. O céu apodrece em um roxo de outro mundo interrompido pela fumaça branca do crematório.

E os corpos: sem rosto, em alguns lugares reduzidos a meros riscos pretos. Em comparação ao Holocausto dos judeus europeus, o extermínio dos roma foi menos estudado e menos lembrado. Não foi estabelecido um número de mortos definitivo; as estimativas de vítimas variam entre 250 mil e 500 mil pessoas, ou até metade da população dos roma na Europa. A perseguição contra eles não terminou na 2ª Guerra Mundial, e continua até hoje. Em 2018, o líder do partido italiano Liga, Matteo Salvini, de extrema-direita, propôs um levantamento censitário dos roma como parte de uma “limpeza em massa".

Em 1944, Ceija e a família foram transferidas para Ravensbrück, semanas antes de os prisioneiros ciganos que restaram em Auschwitz serem exterminados pelo gás em uma única noite. Foi transferida novamente, para Bergen-Belsen, no início de 1945. Nos quadros de Ceija retratando o último campo, incêndios ardem diante de acres de terra preta, e esqueletos jazem emaranhados na escuridão; um único prisioneiro, encalhado na neve, olha arregalado para um par de tordos pretos empoleirados no arame-farpado.

Os britânicos chegaram a Bergen-Belsen em abril daquele ano. Ceija e a mãe atravessaram a Alemanha e a Checoslováquia a pé até chegarem a Viena. No início, ela retomou uma vida itinerante, e depois, trabalhou por décadas como vendedora de tapetes. Foi somente em 1988, incentivada pela documentarista Karin Berger, que ela começou a falar a respeito do que tinha vivenciado, aprendendo a pintar. Sua arte e seus escritos fizeram dela uma figura conhecida na Áustria, e também uma defensora dos ciganos roma em toda a Europa.

Na velhice, Ceija começou a tratar a tatuagem quase como uma insígnia; mural fotográfico no Reina Sofía mostra a artista sorrindo para um retrato, segurando um cigarro entre os dedos e exibindo o número com orgulho. “Como alguém pode dizer que não houve Auschwitz?”, respondeu ela certa vez. “A prova está bem aqui, no meu braço.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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