Art X Lagos
Art X Lagos

Cenário cultural floresce na capital da Nigéria

A Art X, que se tornou um dos principais eventos do festival de outono de Lagos, permite que jovens artistas engajem público novo

Siddhartha Mitter, The New York Times

21 de fevereiro de 2019 | 06h00

LAGOS, NIGÉRIA - Os carros saíam em ziguezague do meio do trânsito, e depositavam a elite da cidade, vestida de maneira a impressionar, no Centro Cívico, um edifício de concreto e aço em frente à Lagoa Lagos. As mulheres, a própria imagem da beleza e do poder, paravam no pátio para dar entrevistas.

A Art X Lagos correspondia à sua fama de acontecimento. Não só colecionadores, mas personalidades da moda, curiosos e a multidão do Instagram também visitaram a principal feira da África Ocidental, em novembro.

Eles lotaram o local para ouvir a palestra do artista britânico-nigeriano muito conceituado, Yinka Shonibare. O Ooni de Ifé, um rei ioruba, apareceu escoltado por cantores que entoavam louvores ao monarca. 

As conversas se prolongaram depois da inauguração das galerias e da Cúpula da Arte, uma convenção de dois dias de duração, onde o célebre pintor Kehinde Wiley, trazido de avião pelo consulado americano, era convidado especial.

Esta enorme cidade - com uma população estimada entre 13 milhões e 21 milhões de habitantes - é dinâmica. Sim, as ruas são congestionadas, a corrupção política se difunde, e os cortes de energia produzem exércitos de geradores. Mas os laosianos têm orgulho do seu "agito", uma mescla de trabalho duro, imaginação e otimismo extravagante, e aceitam qualquer desafio.

Comércio, música, moda florescem no meio do caos. E agora, com esta sólida base de colecionadores e uma ampla rede de galerias e espaços alternativos, o "ecossistema" da arte deu origem a uma massa crítica. Durante todo o outono, realizam-se festivais dedicados à literatura, poesia, fotografia, teatro e moda. 

A Art X, fundada há apenas três anos, já é um dos elementos obrigatórios desta temporada cultural surgida recentemente. Neste outono, deverá sobrepor-se à Bienal de Lagos, um acontecimento local meio desorganizado que começou em 2017.

"A cidade ainda tem uma fama negativa", afirmou Tokini Peterside, o fundador da Art X e um dos empreendedores e impulsionadores do mundo artístico. "Esperamos redimir em parte esta imagem oferecendo uma boa razão para as pessoas virem a Lagos. Encontrarão alguns desafios, mas o ambiente  é muito empolgante."

Nos últimos tempos, artistas nigerianos contemporâneos encontraram o sucesso no exterior. Obras do pintor Njideka Akunyili-Crosby, sediado em Los Angeles, foram vendidas por mais de US$ 3 milhões. Artista famoso por suas instalações e paisagens sonoras, Emeka Ogboh, sediado em Berlim, foi finalista do Prêmio Hugo Boss de 2018 do Museu Guggenheim.

O ambiente artístico de Lagos coloca os artistas locais ao lado dos que viveram ou estudaram no exterior, mas voltaram para criar aqui, inspirados pela energia da cidade. "Agora, temos mais pessoas que sabem que podem sobreviver como artistas”, disse Viktor Ehikhamenor, pintor e escultor que regressou dos Estados Unidos em 2008.

Gerald Chukwuma, escultor nigeriano de pouco mais de 40 anos, mostrou na feira sua nova obra da Galeria 1957 de Gana, que tem um acervo de artistas de todas as partes da África. O seu tema foi "Igbo Landing". É a história de negros escravizados originários da atual Nigéria, que, ao desembarcarem depois de atravessar a Passagem do Meio, nas Sea Islands do Mar da Geórgia em 1803, entraram no oceano, ainda presos em correntes, preferindo morrer a se submeterem.

Chukwuma disse que poucos igbós da Nigéria conhecem a história. "Precisamos recuperar esta cultura", afirmou. A Art X é de uma escala comparável às feiras de arte 1-54 contemporâneas que focalizam a África (realizadas em Londres, Nova York e Marrakesh) e à AKAA, em Paris. 

Mas, enquanto estas feiras estão voltadas para colecionadores internacionais, Tokini Peterside, que tem mestrado em administração de empresas, começou a realizar o evento em Lagos como um investimento cultural na cidade e uma aposta de negócios para o número de colecionadores em grande crescimento na Nigéria.

A renovação geracional está revolucionando os hábitos no ambiente das galerias de Lagos. Jovens galeristas, como Adenrele Sonariwo, da Galeria Rele, estão encorajando um novo público. "Precisamos continuar convidando apreciadores mais jovens", afirmou. "Contudo, não devemos esperar que eles comecem a compreender e a colecionar imediatamente. Terá de ser um processo constante."

Adenrele Sonariwo atua em várias frentes. Ela tem um showcase anual de Jovens Contemporâneos,  artistas que ela mesma gosta de descobrir. Em 2017, foi curadora do primeiro pavilhão da Nigéria na Bienal de Veneza. A Cúpula da Arte também foi uma iniciativa sua - um esforço para reunir o "ecossistema" ao redor da percepção de interesses compartilhados, concentrado nos artistas, ela explicou. "Afinal, o setor existe por causa destes artistas", afirmou Adenrele. "Respeitar isto, e os artistas respeitando a si mesmos, foi muito importante para mim."

 

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