Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Centro de corrida de cães é fechado em Macau

Governo exigiu encerramento das atividades do local, que teve seus dias de glória na década de 1960 e já vinha sofrendo pressões de ativistas dos direitos dos animais

Patrick Boehler, The New York Times

10 Março 2018 | 10h00

MACAU - Seis condutores de cães, cada um acompanhando um galgo,cerramento  entraram, sem muito barulho, na areia molhada da única pista de corridas legais de cães.

Nos estandes, uns 20 homens observavam os cães conduzidos para as respectivas posições de largada; depois, os animais foram soltos e se lançaram ao encalço da "isca" na forma de um coelho. Difícil dizer se algum daqueles homens tinha chance de ganhar.

A pista de corrida neste centro chinês de apostas não vê mais a excitação de seus dias de glória do século passado.

Em 1963, “toda Macau parecia enlouquecida com este tipo de corrida”, segundo os anais da pista, que falam em filas de apostadores. “Todos os finais de semana, as balsas de Hong Kong a Macau chegavam lotadas de fãs das corridas de cachorros, ansiosos para assistirem ao grande evento”.

Mas logo tudo acabará, tanto para os cães quanto para os apostadores, porque em julho a pista será fechada. No ano passado, o governo comunicou à operadora, a Canidrome Company de Macau (Yat Yuen), que deveria transferir as corridas para permitir o início das obras de reurbanização. O fim das corridas, que os defensores dos direitos dos animais consideram há muito imprescindível, reflete em parte a transformação de Macau, uma espécie de província atrasada da época colonial, em um destino turístico procurado pela classe média chinesa em grande crescimento.

Cerca de 20 anos depois de Portugal ceder o controle do território à China, este pequeno enclave na costa meridional chinesa, com 600 mil habitantes, é a capital mundial dos cassinos.

Os ônibus transportam multidões de turistas chineses para os gigantescos cassinos, onde muitos jogam em máquinas com telas sensíveis ao toque, compram nas lojas abertas em uma réplica de Veneza, e tiram selfies em frente a uma reprodução da Torre Eiffel. Mas no canídromo, o faturamento estagnou.

O professor Desmond Lam, da Universidade de Macau, disse que a crescente consciência dos direitos dos animais contribui para explicar o declínio das receitas. Uma investigação realizada em 2011 pelo “The South China Morning Post” de Hong Kong concluiu que cerca de 30 cães de corrida eram mortos mensalmente no canil dos donos da pista de corridas. Calcula-se que 650 cães, 45 deles ainda filhotes, vivam nos canis do canídromo.

A companhia dos jogos de Macau, dirigida por uma influente parlamentar local, Ângela Leong, cujo marido supervisiona há muito tempo um império de cassinos no território, disse em um documento no ano passado que a pista “faz parte da história coletiva de Macau” e trouxe empregos para o território. Disse também que planeja criar uma pista “virtual”, em que as apostas podem ser feitas para corridas de cães que se realizam em outros lugares.

Leong prometeu adotar todos os cachorros ou doá-los a amigos, mas os defensores dos direitos dos animais temem que os galgos, a maioria dos quais foi importada da Austrália, sejam vendidos a donos de pistas ilegais na China, Vietnã e outros países, onde são leiloados a criadores ou mesmo vendidos pela carne.

Alguns cães que se aposentaram das corridas tornaram-se animais de estimação, como o galgo chamado Dynamite Spice. Seu nome agora é Garlic, disse sua nova dona, Edith Lam, 38, que trabalha como assistente em um escritório de advocacia. Ela disse que ninguém que ela conhece aprova as corridas de cães. “Os jovens não gostam deste tipo de crueldade”, afirmou.

Mais conteúdo sobre:
cachorro Macau China [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.