Mike Cohen para The New York Times
Mike Cohen para The New York Times

'CEOs devem ser líderes globais', diz grande gestor de investimentos

Diretor-executivo da BlackRock, Larry Fink afirma que as empresas precisam se posicionar quanto a questões políticas e sociais

Andrew Ross Sorkin, The New York Times

21 de fevereiro de 2019 | 06h00

Em janeiro de 2018, Larry Fink, gestor de investimentos que administra cerca de US$ 6 trilhões na BlackRock, iniciou um diálogo que durou cerca de um ano entre líderes empresariais e responsáveis pelas decisões políticas em uma carta endereçada aos principais executivos. Nela, ele afirmava que as companhias precisam agir mais para obter lucros.

E acrescentava que é crucial que as empresas também deem "uma contribuição positiva para a sociedade", e que ele pretendia chamá-las à responsabilidade.

Escrita pelo maior investidor do mundo, a carta foi considerada uma importante guinada na questão candente da situação do capitalismo global. Os diretores-executivos começaram falando sobre o "propósito" de suas companhias, não apenas como uma missão elevada, mas também em relação aos documentos a serem enviados ao governo e aos relatórios apresentados aos investidores. Outros se irritaram com sua crítica.

Então, em janeiro deste ano, os diretores-executivos receberam nova carta de Fink. Segundo ele, as empresas não podem ter simplesmente um propósito. Elas precisam mostrar sua liderança em um mundo dividido.  

"Os acionistas e todos os interessados pressionam as companhias a enfrentarem os problemas sociais e políticos mais sensíveis - principalmente porque notam que os governos não o fazem de maneira satisfatória", escreveu nesta última carta, que foi cedida por um dos destinatários.

No ano passado, as empresas sentiram-se pressionadas a tomar posições em questões como a mudança climática, o controle das armas e a questão de colaborar ou não com o Pentágono. Em uma conferência realizada depois do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, os executivos tiveram de decidir se ficariam do lado do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. Grande parte da comunidade empresarial desistiu da participação no evento sob o risco de abalar as relações e os negócios com a monarquia Saudita.

Em 2018, a BlackRock adotou uma mudança de estratégia, com a votação de uma resolução dos acionistas que exigia maior transparência da fabricante de armas Sturm, Ruger & Company a respeito da segurança dos seus produtos.

Como grande parte dos ativos da BlackRock se encontra em planos de previdência atrelados a fundos, Fink tem alguma limitação no que pode fazer. Mas a BlackRock recentemente lançou fundos de investimentos socialmente responsáveis que excluem setores como tabaco, armas de fogo ou carvão.

"Não sabia que Larry Fink foi nomeado Deus", afirmou o bilionário do setor imobiliário Sam Zell no dia seguinte ao envio da carta de Fink, no ano passado. E Warren Buffett, presidente da Berkshire Hathaway, disse não achar que seja papel dos investidores pressionar para que os acionistas aceitem suas opiniões, como Fink sugeria.

Em sua última missiva, Fink escreveu que "não tinha qualquer intenção" de dizer às companhias qual deveria ser o seu propósito. Mas também insistiu contra a ideia, longamente defendida pelo economista Milton Friedman, de que a única responsabilidade social de uma companhia é o lucro. "Um propósito não significa o propósito exclusivo do lucro, mas a força propulsora para consegui-lo", escreveu.

Em 2018, os funcionários do Google fizeram uma greve em protesto contra a maneira como a companhia tratou as acusações de assédio sexual contra seus principais executivos. O protesto levou-a a encerrar sua participação no Projeto Maven do Pentágono, que usa inteligência artificial para melhorar a precisão dos ataques de drones.

"Este fenômeno se intensificará quando a geração do milênio e as gerações ainda mais jovens forem ocupando cada vez mais posições nos altos escalões das empresas", escreveu Fink.

As prioridades da geração do milênio, acrescentou, vão alterar a métrica usada nos investimentos.

"Os representantes dessa geração determinarão não apenas suas decisões enquanto funcionários, mas também como investidores, porque o mundo está realizando a maior transferência de riqueza da história: US$ 24 trilhões passarão dos baby boomers para a geração do milênio", dizia a carta. "À medida que esta riqueza mudar de mãos e as preferências de investimento também forem mudando, as questões ambientais, sociais e de governança serão cada vez mais relevantes  para as avaliações corporativas".

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