Aamir Qureshi/Agence France-Presse - Getty Images
Aamir Qureshi/Agence France-Presse - Getty Images

Cerca entre Paquistão e Afeganistão barra a entrada de militantes e famílias

O Paquistão está silenciosamente construindo uma barreira para tentar controlar o que há muito tempo é uma das fronteiras mais transponíveis do mundo

Ben Farmer e Ihsanullah Tipu Mehsud, The New York Times

20 de março de 2020 | 06h00

TORKHAM, PAQUISTÃO - Acima dos caminhões e viajantes alinhados no principal portão oriental entre o Afeganistão e o Paquistão, um novo marco escala as montanhas: cercas paralelas cobertas com arame farpado acompanham a fronteira que atravessa os penhascos vertiginosos.

A seção da cerca com vista para Torkham é apenas um vislumbre de uma barreira de 2,6 mil quilômetros iniciada há quatro anos pelos militares do Paquistão e com conclusão prevista para este ano. O Paquistão está construindo uma barreira para tentar controlar o que há muito tempo é uma das fronteiras mais "permeáveis" e sem lei do mundo.

O Exército paquistanês credita à cerca a diminuição de ataques terroristas após a ofensiva sustentada pelo exército empurrar muitos militantes para o Afeganistão. No entanto, a barreira também é uma projeção de poder, em detrimento da diplomacia com o Afeganistão e da vida das tribos Pashtun, que ignoraram a fronteira por gerações.

O Afeganistão contesta a fronteira que a cerca segue, traçada pelas autoridades coloniais britânicas em 1893. E o arame está acabando com rotas pelas montanhas usadas por contrabandistas, militantes, comerciantes e famílias. Cerca de 1,3 mil quilômetros da cerca de US$ 450 milhões estão completos e mais de mil fortes fronteiriços estão sendo construídos, segundo os militares paquistaneses.

Oficiais de alto escalão dizem que isso teve um efeito considerável na segurança. Eles citam uma queda acentuada nos ataques de militantes ligados ao Taleban paquistanês, conhecido como Tehrik-e-Taliban. No ano passado, 82 ataques no Paquistão foram atribuídos a essa rede, contra 352 em 2014, quando a ofensiva militar começou.

Mas nos últimos meses, tem havido crescentes relatos de que alguns combatentes do Tehrik-e-Taliban conseguiram voltar a algumas das áreas tribais. Em 9 de março, pelo menos três pessoas, incluindo um coronel paquistanês, foram mortas em um tiroteio entre soldados e militantes.

A cerca pode desacelerar as travessias ilegais, mas não as impedirá por completo, disse Elizabeth Threlkeld, diplomata americana na cidade fronteiriça de Peshawar até 2016. Militantes e aqueles que dependem de contrabando encontrarão uma maneira de atravessá-la, disse ela, mas o impacto maior "será em comunidades Pashtun que cruzam a fronteira, pois perderão a capacidade de andar livremente para visitar a família ou fazer negócios".

Todos os dias, as crianças fazem fila no cruzamento de Torkham para chegar ao lado paquistanês do Afeganistão e ir à escola. Mas os viajantes agora precisam de passaportes e vistos para atravessar, e as filas nas embaixadas em Cabul e Islamabad aumentaram bastante. E, para a ira dos comerciantes, agora eles devem pagar taxas alfandegárias.

Para as tribos e famílias com pés em ambos os lados, a barreira já está surtindo efeito. As famílias começaram a se mudar ao se verem forçadas a escolher sobre qual lado se consolidar. Muhammad Amir Rana, diretor do Instituto Pak para Estudos da Paz, disse: "Isso está segregando a população e as tribos de ambos os lados". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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